quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O problema dos filmes médios


O assunto não tem diretamente a ver com a minha pesquisa, mas como ando mergulhado de cabeça em várias questões referentes à cultura lusa, o tópico “cinema português” não teria como não me interessar. E estando aqui em Lisboa, acompanhando algumas discussões de perto, percebo que o grande impasse do cinema português contemporâneo é, em alguma medida, bastante semelhante ao que o cinema brasileiro vem enfrentando desde a tal da Retomada. Com algumas diferenças substanciais, claro, decorrentes da própria dimensão dos respectivos mercados consumidores e das características particulares de cada “escola” de cinema (basta dizer que, enquanto o filme mais visto do cinema brasileiro bateu a marca de 12 milhões de espectadores, aqui o recordista conseguiu, com algum custo, chegar aos 200 mil – e talvez a única coisa que ambos possuam em comum seja o fato de apresentarem atrizes então em voga com pouca ou quase nenhuma roupa).


Tanto cá como lá, há uma vertente mais “autoral”, “experimental” ou coisa que o valha, que possui o seu público cativo e quase sempre recebe os subsídios estatais mais disputados – pois é o cinema “legitimado” criticamente responsável por levar o nome de Portugal para os festivais que rolam mundo afora. Quando acertam a mão e conseguem articular habilmente os elementos capazes de atrair público ao cinema (um rosto conhecido das telenovelas aqui, uma dose de erotismo ali, uma pitada de thriller acolá, servido numa travessa de cunho biográfico – veja o caso do recente “Amália” – ou com raízes na literatura), os portugueses também produzem seus blockbusters – e aí recomeça a guerra pelos subsídios estatais, que os criadores de êxitos consideram estar mal empregados nas mãos daqueles que fazem filmes para uma meia-dúzia de espectadores.


A dificuldade, e vocês já devem ter percebido onde eu quero chegar, me parece estar justamente na feitura do chamado “filme médio”, cuja produção sistemática em tese auxiliaria a manutenção de uma indústria cinematográfica em constante funcionamento, permitindo tanto o “filme de autor” quanto o blockbuster. Em outras palavras, filmes situados nem tanto ao Pedro Costa, nem tanto ao Tino Navarro, se é que vocês me entendem.


Há coisa de duas semanas estreou nas telas portuguesas um excelente filme médio, chamado “4 copas”, dirigido por Manuel Mozos, com um elenco sólido de caras razoavelmente conhecidas (com destaque absoluto para a encantadora Rita Pereira) e contando uma história sólida sobre lisboetas comuns, sem arroubos de cabecices desnecessárias mas também prescindindo de elementos gratuitos de choque. E a sessão na qual estive, às 16h50 de uma segunda-feira, estava até bastante preenchida. São produções como “4 copas” que me parecem indicar um caminho possível de ser seguido. Contudo, há quem discorde dessa posição. Outro dia, no “5 para a meia-noite” (um talk show bem bacana exibido pela RTP2 no início das madrugadas), o ator, produtor e diretor Nicolau Brayner defendia que apenas o blockbuster permitia à indústria local se firmar. Óbvio que essa é uma posição interessada – Brayner atua, produz e dirige filmes com pretensão comercial – mas para mim o buraco é mais embaixo. Ou mais no meio.

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E já que entramos no assunto “filmes”, começa hoje a terceira edição do MoteLx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, a decorrer até domingo no extraordinário Cinema São Jorge. A programação inclui premiéres internacionais, competição de curtas portugueses, documentários e duas masterclass, uma com Stuart Gordon (que dirigiu “Re-animator”) e outra com John Landis (sim, o mestre por trás de “Blues brothers” e o videoclipe de “Thriller”), cujo clássico “Um lobisomem americano em Londres”, em versão restaurada, ganhará uma sessão especial no sábado à noite. A destacar, a mostra Quarto Perdido, cujo objetivo é trazer a lume incursões portuguesas no cinema de gênero que foram esquecidas na poeira da história. Fazem parte do cardápio o curta “O leproso”, de 1975, baseado em conto de Miguel Torga, “A maldição de Marialva” (longa de 1990 que ousa misturar zumbis, demônios e o pano de fundo histórico do período quinhentista) e “A dança dos paroxismos” (btw, que título é esse, hein?), primeiro filme de Jorge Brum do Canto, que dizem ser inspirado pela atmosfera onírica do cinema experimenta-vanguardista dos anos 20. A sessão deste último contará com trilha sonora ao vivo, executada por Rita Redshoes e o sempre surpreendente Legendary “Paulo Furtado” Tigerman.

Mas como as coisas boas nunca vêm sozinhas, obrigando a gente a fazer escolhas, tinham que programar o MoteLx no mesmo final de semana da Festa do Avante!?

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