Meu Festival do Rio em-verde-e-vermelho andava um bocado caído até a noite da última segunda-feira. Depois de um filme (“América”, de João Nuno Pinto) que valia mais pelo tema palpitante (fluxos migratórios ilegais na periferia de Lisboa) do que pela forma com que o mesmo era abordado; de um documentário de tintas algo exotisantes (existe isso?) sobre uma favela carioca (“Complexo: universo paralelo”, de Mario Patrocinio) e de um longa (“Guerra civil”, de Pedro Caldas) cuja fração 70% boa em termos de encenação era arruinada por alguns sensos comuns de roteiro (para não falar da fração 30% muito má), eis que o “Embargo” de António Ferreira cruzou o meu caminho. D’aprés um conto homônimo (que eu desconhecia) do falecido escritor José Saramago, o segundo longa-metragem do realizador de Coimbra foi, até agora e salvo reavaliações posteriores, um dos momentos mais felizes do Festival que se encerra na próxima quinta-feira.
Conforme comentado anteriormente aqui neste blog, já conhecia o trabalho de Ferreira de outros entrudos, e sempre me admirou o registro pop-surreal com que o diretor conduzia suas narrativas, amparado por uma trilha sonora bastante inspirada. O curta “Respirar debaixo d’água” tinha de Mão Morta a Tedio Boys, lendária banda de Coimbra de onde saiu o Legendary Tigerman Paulo Furtado; seu longa de estreia, “Esquece tudo que eu te disse”, contava com belíssimas composições originais do Azembla’s Quartet; “Embargo”, por sua vez, para além da bela partituta de Luis Pedro Madeira, apresenta discretas “aparições” de Madame Godard, João Coração e Olaio & Taborda. Meus ouvidos não poderiam desejar coisa melhor.
Para além deste regalo, “Embargo” se insere, ainda, na cada vez mais rara categoria de filmes portugueses contemporâneos que, sem chafurdar no rame-rame de campo & contracampo a la SIC/TVI, também não sonegam por completo o desejo de estabelecer alguma comunicação com o público. Sim, senhores, o cinema português também se debate com o problema do filme médio, tal e qual seus primos do lado de cá do oceano, e entre Carlos Coelho da Silva e Pedro Costa, deve haver uma terceira margem possível de ser explorada. “Embargo” apenas reforçou a minha desconfiança de que António Ferreira talvez seja um dos nomes que melhor cumpre esta missão. De cabeça, das obras recentes a que tive oportunidade de conferir, apenas “Alice”, de Marco Martins e “Quatro copas”, de Manuel Mozos, chegaram perto desta meta.
[Veja-se o caso de “Guerra civil”, exibido por estas paragens no mesmo Festival, caso exemplar de como algumas poucas boas intenções podem ser comprometidas em nome da vã tentativa de parecer formalmente “ousado”. No âmbito das (escassas) incursões do cinema português contemporâneo no terreno da teenage angst, sou mais o descompromisso lúdico de um Jorge Cramez em “O capacete dourado”. Aí pelo menos as referências ao imaginário musical post punk dos anos 80 apareciam de forma menos gratuita.]
Vale destacar, também, o belo trabalho de Ferreira com os atores, em especial o protagonista Nuno, defendido com garra por Filipe Costa. Uma pena que a cópia exibida na sessão de segunda-feira estivesse em um bizarríssimo formato digital (DVCAM? BETA?) que drenava o brilho da fotografia em tons pastéis do filme, deixando tudo com uma aparência incomodamente chapada. Igualmente de se lamentar é a questionável obrigatoriedade de se abrasileirar o português utilizado na legendagem: vejam, não estou nem pondo em causa a necessidade das legendas, que em alguns momentos talvez seja, sim, imprescindíveis para ouvidos menos treinados na prosódia lusa; mas, caramba, custa muito não alterar o sentido das expressões? É esquisito à beça ouvir algo do tipo “faz um frio do caraças” e ler “está muito frio”, quando o sentido da primeira expressão não chega a ser exatamente obscuro e o sentido da segunda não corresponde precisamente ao que a primeira queria dizer. Isso só reforça a barreira que nos separa dos já escassos produtos da cultura midiática portuguesa que chegam até nós: se a gente não faz o menor esforço em decodificar certos traços culturais deles, por que nos achamos no direito de exigir que eles decodifiquem os nossos?