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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Noites lisboetas #3 - o dia da grande feira


Se andar por Lisboa já é uma aventura, andar por Lisboa à procura de um endereço específico pode ser duplamente enlouquecedor. Portugueses em geral são bons para informar trajetos, embora na maior parte das vezes desconheçam coisas prosaicas como o nome das ruas. Que o largo cinturão viário margeando o Tejo e passando pela estação ferroviária de Santa Apolônia se chama Infante Dom Henrique até eu sei, mas todas as pessoas para quem eu perguntei a localização da loja FLUR - onde, naquele sábado de abril, rolaria um evento vinculado ao Dia Internacional das Lojas de Discos - do chefe da estação de comboios a um casal que fumava do lado de fora da Santa Apolônia, simplesmente desconheciam o nome da bendita avenida. Comecei a concluir que essa dificuldade com o nome das ruas era mais do que uma cisma minha quando, no dia anterior, circulando pelo Bairro Alto com uma malta de brasileiros (alguns pela primeira vez em Lisboa por causa do Lusocom, outros residentes na cidade há pelo menos seis meses), descobri ser uma das poucas pessoas que consegue se localizar no labirinto que é o Bairro Alto a partir do nome das ruas. E estávamos tentando chegar na Zé dos Bois, lugar cuja existência mesmo alguns lisboetas desconhecem...


Depois de bater cabeça por alguns minutos, finalmente achei a FLUR - um imenso corredor cercado de discos e CDs por todos os lados, ligando a Infante Dom Henrique à margem do rio. O visual da esplanada é de cair o queixo. Faltava pouco para o meio-dia e a loja ainda estava vazia. No som, rolava de Franz Ferdinand a Jeff Buckley. Do meu lado, um cinquentão acompanhado do filho pré-adolescente vasculhava as prateleiras de CD. Por recomendação do moleque, vejam vocês, os dois saem da loja com dois discos de Brian Eno fase-ambiente, o que me levou a anotar mentalmente que talvez adorasse ter um filho(a) para, entre outras coisas, curtir esse tipo de programa quando ele tivesse 13 anos.


É quando decido chamar um dos vendedores. Despejo sobre ele o já tradicional rame-rame sobre a minha pesquisa e peço para ele me indicar cinco artistas ou bandas imprescindíveis para se conhecer o que anda rolando de bacana na cena musical portuguesa contemporânea (registre-se que em nenhum momento eu utilizei as palavras "alternativo" ou "underground"). "Se calhar não há nem cinco", ele responde, meio brincando, meio a sério, para em seguida colocar na minha mão quatro discos: Outubro, de Manuel Mota, e Space, de Rafael Toral, são excessivamente experimentais até mesmo para os meus padrões, mas Marches of the new world, de David Maranha, e É isso aí, do Aquaparque (que vem a ser produzido por Rafael Toral) me conquistam e eu decido levá-los.


"Conhece este que está a cantar?", me pergunta o outro vendedor, enquanto desembolso a grana, e só então reconheço a voz de Rodrigo Amarante em sua atual encarnação Little Joy. Constato que a vida deve ser mesmo engraçada, pois até então nunca havia escutado Little Joy, tendo sido necessário atravessar o oceano para conhecer o som do grupo. Menciono que a banda anterior de Amarante havia feito algum sucesso no circuito alternativo de Portugal. "Eh, Los Hermanos era bom, pá", ele conclui, para em seguida arrematar: "A música portuguesa de qualidade você não vai encontrar na FNAC" - embora o CD de estreia do Aquaparque esteja à venda na loja do Chiado por 14 euros (e há uma coisa que me intriga em relação a essas bandas portuguesas de viés mais experimental como o próprio Aquaparque ou mesmo o Galadrop, cujo CD eu adquiri em outubro, que é o fato de elas não serem alocadas na seção de música portuguesa, mas sim junto aos discos "alternativos" internacionais, embora haja coisas razoavelmente experimentais feitas em Portugal - caso do Peixe:Avião ou mesmo do Mão Morta - dividindo espaço nas prateleiras com o Emanuel ou o Marco Paulo. Afinal de contas, qual é o critério - ou o que essa aparente falta de critério acaba por significar?).


Até pretendia ficar até mais tarde na FLUR para conferir os DJ sets (B Fachada ia fazer um pocket show lá pelas 18h), mas como haveria um concerto gratuito da caboverdiana Lura na FNAC às 17h, acabei indo embora com a certeza de que um debate sobre underground versus mainstream em terras lusitanas daria um caldo - verde? - daqueles.