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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Avante, camaradas!

Onde mais, senão no Palco 25 de Abril?


Cansados ficavam os seus avós!

Lado a lado, em algum lugar do Panteão Cosmodemoníaco dos Ídolos Pop


Aqui a tradição ainda é o que era



Lá vem o Brasil, descendo a ladeira




Já dizia o Variações que portugueses em geral são chegados numa boa discussão. Se a discussão tiver algum cunho político, então, nem se fala. Não sei se em virtude dos anos de repressão e silêncio sob o jugo do Estado Novo, parece haver por estas bandas um apreço especial por manifestações e reivindicações em geral, nas quais a palavra liberdade dá a tônica dos debates. Já havia me dado conta dessa característica singular quando, em meio às Festas Populares da Margem Sul, me deparei com estandes dos partidos políticos dividindo espaço com as barraquinhas de farturas e churros. E semana passada, durante a tradicional Festa do Avante, minha impressão apenas se reforçou.


O Avante é o jornal do Partido Comunista Português que, anualmente, no primeiro final de semana de setembro, organiza um mega-evento na Quinta da Princesa, lá pras bandas do Seixal. São três dias de música, atividades culturais, bebedeira desenfreada e, claro, discussões políticas. Por incrível que pareça, a mistura não apenas não desanda como também se revela um bocado divertida, possibilitando que uma mesa redonda sobre a situação hondurenha conviva pacificamente com um show do Blind Zero. E embora os artistas selecionados para o line up compartilhem, em maior ou menor grau, algum tipo de postura política de esquerda – você jamais verá o Tony Carreira ou as Just Girls numa Festa do Avante – a coisa é equilibrada de modo que o lado mais panfletário do evento fique reservado para o Comício de encerramento (particularmente explosivo este ano, já que faltam pouco mais de 15 dias para as eleições legislativas).


Guiar-se pela Quinta da Princesa em dia de Avante merece um capítulo à parte. Os palcos – além do 25 de Abril, que sedia as atrações principais, há uma infinidade de palcos menores, como o Auditório 1º. de maio e as tendas dedicadas à música regional portuguesa – não ficam exatamente próximos uns dos outros, e a Quinta da Poeira, quer dizer, da Princesa é grande que só vendo. Como os shows acontecem em simultâneo, nunca dá pra ver tudo – e embora eu tenha ido para a Festa com o intuito de conferir várias atrações musicais, é óbvio que fui vencido pela preguiça, e no final das contas, só consegui assistir do princípio ao fim às apresentações de Vitorino e do Clã.

No resto do tempo, dividi-me entre a Área Internacional (para onde os países do mundo que possuem partidos comunistas levam suas danças, artesanato e comidas típicas, numa espécie de Feira da Providência Vermelha – e onde é possível encarar uma cachupa caboverdiana com suco de tamarindo por módicos 10 euros) e os palcos regionais, cuja programação ia de divertidos Corais de velhinhos do Alentejo até Ranchos Folclóricos do Norte de Portugal. Aí também há protesto: no caso, contra a invisibilidade destas “formas tradicionais” na assim chamada “grande mídia”. Curioso, porque em alguns programas televisivos, sobretudo os matinais e durante o verão, volta e meia manifestações de cariz supostamente popular aparecem retratadas, sob a forma de danças, cantos e artistas “típicos”, no contexto da visita dos apresentadores do programa e questão a aldeias do interior onde há algum tipo de festa ou romaria. Que tradição é esta que tais programas colocam em pauta e contra a qual os ranchos do Avante protestavam, então?


Vale a pena registrar, ainda, a eficiência do sistema de transportes da Margem Sul, que em parceria com os comboios Fertagus ou com o Transporte Fluvial, garante que a galera que não veio com disposição para acampar consiga chegar do outro lado do Tejo sã e salva após a Festa.