Ou “da péssima tendência de conhecermos as pessoas apenas no instante em que elas se vão deste mundo”
Até a semana passada, não fazia a menor idéia de quem seria João Aguardela. Aí, a propósito do espetáculo Megafone 5, que transcorreria no Centro Cultural de Belém dia 4 de novembro, fiquei sabendo que Aguardela, falecido em finais de janeiro último, era a figura por trás de alguns dos projetos mais interessantes no âmbito da recuperação da música portuguesa dita “tradicional” e sua posterior hibridização com elementos modernos, seja no âmbito do pop-rock (fase Sitiados), do fado (fase A Naifa) ou mesmo da eletrônica (a série Megafone, composta por quatro álbuns pouco notados à época de seu lançamento e oportunamente redescobertos nos tempos que correm).
Em vez de um show tributo ou de uma festa-homenagem tradicional, o evento reuniu artistas portugueses contemporâneos que, em alguma medida, possuem propostas em sintonia com o espírito do Megafone. O grupo de artistas de rua Artelier abriu os trabalhos instaurando uma atmosfera felliniana no Grande Auditório do CCB, sendo seguido no alinhamento pelos Gaiteiros de Lisboa, cujo ponto forte me pareceram ser as percussões e as ricas harmonias vocais. A primeira parte do espetáculo foi encerrada à altura pelo combo Oquestrada, cujo primeiro registro em disco, espertamente intitulado “Tasca beat – o sonho português”, vem fazendo uma bela carreira pelos tops nacionais. Se em disco o Oquestrada sempre me deixou com aquela sensação de estar ouvindo uma versão menos castiça dos Deolinda, ao vivo a trupe comandada pelo sorriso iluminado de Miranda garante o clima contagiante. Após um breve intervalo, vieram as guitarras diabólicas dos Dead Combo, preparando o terreno para a apresentação carregada de beleza d’A Naifa, grupo no qual Aguardela militava pouco antes de falecer.
A boa notícia é que o projeto Megafone não se encerrou com o concerto do CCB. A idéia é que ele se transforme num prêmio anual, que celebre a produção de artistas multiplicadores do legado de João Aguardela. Há um site estalando de novo no qual é possível, além de conhecer a biografia do músico, fazer o download dos quatro primeiros discos do Megafone. Esta última parte, aliás, impõe-se como altamente recomendável: após adquirir (na Feira da Ladra!) um vinil de recolhas etnomusicológicas empreendidas por Michel Giacometti, Aguardela começou a viajar na possibilidade de fundir aqueles cantos e danças do Alentejo com elementos de jungle e drum & bass. O resultado é daquelas obras-primas que, de cara, a gente escuta e pensa, “péra lá, como é que ninguém nunca teve essa ideia ANTES?”, diante de um patrimônio musical tão rico e que sempre esteve ali, disponível. Porque, como dizia Gustav (o Mahler), a tradição não deve ser a adoração das cinzas, mas sim a transmissão do fogo. Transmitamos João Aguardela, pois.