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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

We won't


Para S. e T.

Ninguém parece ter se dado conta, mas John Hughes estaria prestes a completar seis décadas de vida – embora no imaginário coletivo em que se inscreveu juntamente com seus filmes, Hughes parecesse condenado à eterna juventude. Ou pelo menos essa era a imagem que eu conservava dele: a do primo mais velho (que nunca tive), embora não velho o bastante para perceber o que se passava na cabeça dos mais novos. Se a juventude é uma construção de sentido, então lá vai: não consigo visualizar John Hughes sessentão. Virem-se com essa os teóricos do assunto.
Não sei como a coisa se deu aí no Brasil, mas aqui em Portugal os jornais deram pouquíssimo destaque à morte de John Hughes (nem o Ípsilon do Público se redimiu), em parte porque um tremendo ícone da cultura pop nacional, o humorista Raul Solnado, acabou por escolher a mesma semana de verão para deixar a Terra. Guardadas as devidas proporções, Hughes meio que morreu como Michael Jackson, descontando-se, naturalmente, toda a parte da auto-caricatura e da exploração sensacionalista: refiro-me ao fato de ambos passarem a última década vivendo da glória alcançada nos anos 80 e terem conservado uma legião de fãs que, infelizmente, ficou na expectativa de um retorno triunfal jamais concretizado. Não deixa de causar uma certa tristeza constar que o último longa assinado por Hughes foi o fraco “Curly Sue”, no já distante ano de 1991, e que suas últimas contribuições ao cinema – assinados sob o pseudônimo de Edmond Dantés, que coincidência ou não, é o mesmo nome do protagonista de “O conde de Monte Cristo” – foram os roteiros de bobagens como “Beethoven 2” e “Maid in Manhattan”.

Fui adolescente nos anos 90, e na falta de um cinema teen com que me identificasse, resolvi buscar na década anterior uma luz que me ajudasse a atravessar em segurança o nevoeiro. Os filmes de Hughes chegaram de mansinho, e hoje, ao contrário de outros bastiões identitários da minha adolescência (err... “O grande dragão branco”, alguém?), ao revê-los não bate aquela sensação de “oh, merda, como pude gostar disso um dia!”. São filmes que continuam – diabos, odeio essa palavra – “atuais”, e a maior prova disso talvez seja o cinema de caras como Todd Philips e a curriola de Judd Apatow, admiráveis mash ups entre olhar afetuoso de Hughes para com seus personagens e a saudável grosseria da turma que, nos anos 80, nos deu clássicos como “Porky’s”, “A última festa de solteiro” e aqueles filmes cuja versão brasileira sempre terminava com “... da pesada”.


Da galeria de tipos criados por Hughes, tenho meus favoritos de sempre: o Duckie de “Alguém muito especial” (na verdade dirigido por Howard Deutch, embora escrito e produzido pelo mestre, assim como “Pretty in Pink”, outro clássico), o garoto suicida de “Clube dos cinco” e o Cameron de “Curtindo a vida adoidado”. Deste último, a cena em que o trio de protagonistas passeia pelo museu ao som de “Please please let me get what I want” me emociona toda vez que invoco a lembrança dela. Tal como agora, neste sábado de sol à beira do Tejo, quando aquela do Simple Minds subitamente começa a tocar na minha jukebox mental.

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O que seria dos meus solitários dias lisboetas sem as matérias bi-zar-ras do Correio da Manhã...

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Todo mundo deveria ter a chance de experimentar, pelo menos uma vez na vida, a sensação de andar de eléctrico por Lisboa durante a noite tendo o “Volume 1” do Dead Combo como trilha sonora.