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sexta-feira, 11 de abril de 2008

O autor morreu? Viva o autor! (Sobre Shine a light, de Martin Scorsese)

A questão primeiro surgiu num dos posts anteriores deste blog. Ontem, a questão virou discussão, e agora ela retorna como post. Na sexta-feira passada, entrou em cartaz o novo filme do diretor Martin Scorsese, anunciado como um documentário sobre os Rolling Stones, batizado de Shine a light – em referência à canção homônima originalmente gravada no discaço Exile on Main Street, de 1972. Destaco as palavras diretor, documentário e Stones pois elas invariavelmente se faziam presentes nas resenhas críticas, sinopses e mesmo no cartaz do filme em questão.

Quer dizer, não bastava ser um filme qualquer sobre os Stones: é um documentário sobre os Stones dirigido por Martin Scorsese. Ser um documentário pressuporia, de acordo com uma determinada corrente de interpretação, que o filme daria ao espectador a oportunidade de acessar de forma imediata a realidade mais íntima da veterana banda de rock. Ser um documentário de Martin Scorsese, por sua vez, implicaria a assinatura de um cineasta que sempre desfrutou de um status diferenciado dentro da lógica do cinema hollywoodiano. Em certos aspectos, Scorsese é quase um autor, nos moldes do que defendia a Politique des auteurs (espécie de fundamento teórico de toda a Nouvelle Vague francesa dos anos 60). Seus filmes possuem uma identidade, derivada, claro, da personalidade de seu criador, e reunidos, constituem uma espécie de obra, dotada de coesão e coerência internas. As críticas de seus filmes, e mesmo a nossa percepção cotidiana de qualquer nova criação de Martin Scorsese, são invariavelmente “contaminadas” (no melhor dos sentidos da palavra “contaminação”, até porque não consigo pensar numa percepção que esteja fora dessa relação) pelos discursos que já foram proferidos sobre Scorsese.

Isso ficava muito claro nas críticas que eram feitas a Os infiltrados, última produção do cineasta antes de Shine a light, que conferiu ao diretor ítalo-americano seu primeiro Oscar de direção, há muito anunciado e nunca conquistado. Todos eram unânimes em afirmar que Os infiltrados era um Scorsese inferior, a léguas de distância de filmes muito mais provocativos e arrojados como Táxi driver, Touro indomável e A última tentação de Cristo (este último, meu preferido). Mas por ser um Scorsese, ainda que menor, merecia ter levado o prêmio, nem que como forma de fazer justiça às derrotas anteriores, estas sim, imerecidas – embora, sob um olhar mais crítico (mais cínico?), Os infiltrados não seja lá muito diferente de alguns Supercines que volta e meia freqüentam as noites de sábado globais.

A percepção da obra retorna com toda a força nas críticas a Shine a light, que sejam elas favoráveis ou negativas, acabam sempre por se amparar na comparação com momentos anteriores da trajetória de Scorsese em que ele flertou com a música pop, sobretudo com o universo do rock. Aí, Shine a light nunca vai ser “o documentário definitivo sobre os Stones”, da mesma forma que, digamos, No direction home é sobre Bob Dylan. Ou então, será tão “belamente filmado” como The last waltz, o registro filmado por Scorsese, em finais dos anos 70, do último show da The Band.

(By the way, reparem no vovô simpático que empunha a hand camera nas primeiras seqüências de Shine a light – é Albert Maysles, diretor do antológico Gimme shelter, de 1969, sobre show dos Stones em Altamont, durante o qual um fã foi assassinado por membros do Hell’s Angels diante das câmeras. Sendo Gimme shelter, hoje, alçado ao posto de obra-prima do direct cinema e saudado como – este sim! – um “documentário definitivo” não apenas sobre os Stones, mas também sobre o “fim da utopia contracultural” e outros quejandos, não me admira que Scorsese tenha demonstrado tanta gentileza para com o velho documentarista, o que nos permite concluir que nenhum convite desta natureza é totalmente desinteressado).

Há tempos que a invenção formal não freqüenta o cinema de Scorsese, na minha modesta opinião. E embora Shine a light possua alguns bons momentos de meta-cinema, sobretudo no início e na brincadeirinha final, tenho plena consciência de que minha apreciação se dá contra o pano de fundo tanto dos discursos que já foram elaborados sobre Scorsese, quanto do meu carinho declarado pela, vá lá, obra do cineasta. Tudo isso pra dizer que Shine a light, pelo menos pra mim, foi capaz de proporcionar duas horas de belas imagens e boa música. Mas é aquele negócio, é um documentário de Scorsese sobre os Stones. Fosse um registro de show do NXZero dirigido pelo Zé das Couves [obrigado, Pedro], seria lançado direto em DVD (e eu muito provavelmente passaria longe).