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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Rituais à beira do Douro

“Conto de fadas do Tejo ao Douro” ou “Porque precisamos dos Pontos Negros”


Não sofra, Ana Bacalhau, tens Portugal aos teus pés – a consagração do Deolinda

Ennio Morricone meets Carlos Paredes: ladies and gentlemen, the Dead Combo



Projeção mutante: a surpresa dos Noiserv

Querem acabar com essa vista




Os belíssimos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto, sediaram nos dias 28 e 29 de agosto último o Festival Noites Rituais, vitrine anual da nova música pop/rock portuguesa que acontece há 18 primaveras na cidade banhada pelo Rio Douro. Foram ao todo 12 atrações musicais, distribuídas por dois palcos: o #1, dedicado às bandas consagradas, e o Ritual, que abrigou as bandas novas. Além dos concertos, a programação do Noites Ritual também compreendeu uma mostra fotográfica, uma feira “alternativa” (onde era possível encontrar de vinis e camisetas de banda a apetrechos sofisticadíssimos para usuários de cannabis) e sessões on repeat da primeira temporada do impagável talk show de Bruno Aleixo, obra-prima do humor português século XXI, num auditório com ar condicionado que me protegeu do calor por umas boas três horas.

Na sexta-feira, os trabalhos foram abertos pontualmente às 21h30, com a apresentação do One Man Hand no Palco Ritual – uma espécie de Legendary Tigerman dos pobres, obcecado por enfiar a expressão fuckin’ bitch em todos os versos que viessem pela frente. Felizmente para os meus ouvidos, foi uma apresentação curta, pois às 22h o Foge Foge Bandido, novo projeto de Manoel Cruz (dos Ornatos Violeta) já tomava de assalto o Palco #1. O cumprimentos dos horários, que em 99,9% dos Festivais costuma ser a maior fonte de irritação do público, aqui no Noites Ritual é obedecido à risca: e como o pessoal da organização parece estar contando o tempo com o auxílio de um cronômetro de precisão milissegundo, as apresentações acabam sendo excessivamente curtas. Não que o Foge Foge Bandido, com sua mistura de trovadorismo e experimentações à Radiohead, estivesse particularmente empolgante, mas nem o mais entediado dos presentes se recusaria a oferecer ao grupo de Cruz mais uns minutos de palco.

A solução encontrada pelo Noites Ritual para contornar a inevitável espera entre concertos no Palco principal é, de início, bem bacana, mas com o passar do tempo, ficar pulando de um palco para outro acaba sendo cansativo – e quanto mais lotados os Jardins vão ficando, mais difícil se torna o deslocamento em meio à carneirada que vai e vem. Quem preferiu criar raízes junto ao #1 perdeu a bela apresentação do Noiserv no Palco Ritual, qualquer coisa entre Nick Drake e Tindersticks com programação eletrônica, e ao fundo uma projeção de Corel Draw que ia sendo feita, desfeita e refeita ao sabor das canções. No mínimo, singelo – além de um ótimo aperitivo para o som atmosférico e cinematográfico do Dead Combo no Palco principal. A estilosa dupla de instrumentistas Tó Trips & Pedro Gonçalves fez uma apresentação bastante correta, mas que teria sido muito melhor caso uns pufes tivessem sido disponibilizados para a galera. Os destaques foram a minha favorita “Eléctrica cadente” e uma versão furiosa para “Temptation”, do mestre Tom Waits.
Hora de regressar ao Palco Ritual, onde o Peltzer já levava adiantado o seu eletro-rock sem grandes novidades, e que para piorar soava musicalmente incompatível com o timbre do vocalista. A esta altura, a imensa maioria dos presentes já se bandeava para o #1, prevendo que a ultra concorrida apresentação da Deolinda não deixaria muitos espaços vagos na platéia. Não deu outra: todo o furor e toda a expectativa depositada em torno da performance de Ana Bacalhau & cia se confirmaram diante dos meus olhos cansados, tamanha a energia e cumplicidade que fluíam livremente entre palco e audiência. E pensar que não faz muito tempo – mais precisamente, em outubro de 2008 – a Deolinda era apenas uma banda novata fazendo um concerto muito elogiado na Aula Magna da Universidade de Lisboa. A platéia – sobretudo a feminina – parecia saber de cor todos os versos de todas as canções do álbum êxito de vendas Canção ao lado, reagindo de forma entusiasmada aos hits “Fon fon fon fon” e “Movimento perpétuo associativo” (cujo verso referente ao Benfica foi espertamente alterado para uma menção ao FCP). O diálogo com a nossa música também está ali, na divertida “Garçonete da casa de fado”, toda ela cantada em “brasileiro”. E ninguém arredou pé até que as duas canções do bis (ou “encore”, como se diz por aqui) tivessem chegado ao fim.
No dia seguinte, os Jardins já se encontravam menos tumultuados, o que apenas reforçou o poder de atração exercido pela Deolinda na noite anterior. Os trabalhos foram abertos às 21h30 pelo Hot Pink Abuse no Palco Ritual, mais um exemplar de fotocópia musical levado a cabo por estas paragens (no caso, a matriz eram as bandas de guitarras sujas, batidas eletro e vocalistas femininas, tipo Yeah Yeah Yeahs). Nada de ofensivo ou de epifânico, embora houvesse uma música cantada em francês, chamada “Maria Antoinette”, que admito ter descido bem. Inaugurando a noite no palco principal, o panque-roque dos Pontos Negros, entre Strokes, Lou Reed e a Igreja Batista de Queluz. Cria de maior projeção midiática da gravadora Flor Caveira, os rapazes mostraram, num show curtinho de dar dó, canções de antigos EPs, do álbum “Magnífico material inútil” e um tema novinho em folha, nas quais se destacam as inteligentes e saborosas letras em português.
O sanduíche da noite foi bem pouco apetitoso. No palco Ritual, Paul da Silva emulava à perfeição o rock de Pearl Jam, Foo Fighters e congêneres – deu um sono... No #1, o som encorpado do Blind Zero – lançando seu último CD, “Luna park” – alcançava eventuais momentos empolgantes para logo em seguida patinar no óbvio, embora o esforço performático do vocalista fosse uma atração à parte. Coube ao Andrew Thorn encerrar o Palco Ritual, com um som entre o Franz Ferdinand e o Joy Division, mas sem nada de novo a acrescentar.
Já passava da meia-noite e meia quando o Mão Morta de Adolfo Luxúria Canibal & Cia subiu ao Palco Principal. Sobre a banda, as opiniões divergem: há quem considere as letras escatológicas e viscerais pura poesia, há quem não perceba a razão de tanto estardalhaço. Atrás de mim, havia um grupo de rapazes particularmente injuriado (“Mestes-me nojo!”, dizia um deles). Independente disso, não dá pra contornar a explosiva performance de Adolfo Luxúria Canibal, que se veste como um funcionário público das finanças enquanto vocifera o apocalipse moral da humanidade com uma voz gutural que faz o Tom Waits parecer um inocente menino do coro. Já era a segunda vez que conferia uma apresentação do Mão Morta – a primeira havia sido nas Festas Populares de Corroios – e dado o fato de se tratarem de eventos de perfis e apelos relativamente distintos, surpreendeu-me o line up dos shows ser praticamente o mesmo. Sintomaticamente, a diferença mais marcante esteve nas respectivas canções de abertura: enquanto em Corroios o show foi inaugurado com “Budapeste” (que está para o Mão Morta assim como, sei lá, “She don’t use jelly” está para o Flaming Lips, i.e., músicas-acessíveis-de-bandas-usualmente-esquisitas), no Noites Ritual a primeira do show foi uma longa canção declamada de 7 minutos sobre a caminhada noturna de um sujeito até uma maternidade.
A nota dissonante do Noites Ritual é que a sede do evento parece estar por um fio. Querem transformar os Jardins do Palácio num Centro de Convenções – manifestações contra essa iniciativa deram a tônica em alguns concertos (o discurso de Adolfo foi particularmente memorável). Maiores informações sobre isso podem ser encontradas em http://defesadopalacio.pegada.net/. Sei que a imensa maioria de vocês não tem nada a ver com isso, mas seria legal que um espaço tão bacana pudesse continuar a sediar eventos idem, como são as Noites Ritual.