Há coisas que apenas a minha exclusiva metodologia de pesquisa à Inspetor Clouseau me permite: por exemplo, descobrir que a banda Autoramas acabou de gravar um EP com versões garageiras e muito bacanas para alguns clássicos do rock português.
Foi mais ou menos assim que aconteceu. Eu estava explorando o site da Optimus Discos, onde é possível fazer o download gratuito de pelo menos uma dúzia de, com o perdão do trocadilho infame, ótimos EPs de artistas e bandas da nova vaga do pop/rock português, como The Bombazines, Mazgani, Vicious Five, Bezegol, DJ Ride, entre outros. Os EPs da Optimus (operadora de telefonia móvel que existe por estas paragens) também se encontram à venda em formato “físico” nas FNACs por módicos 4 euros, e possuem o selo Henrique Amaro de qualidade – Henrique Amaro é o produtor e apresentador do programa Portugália da rádio Antena 3, vitrine privilegiada da nova música portuguesa, além de um dos idealizadores das coletâneas Novos Talentos FNAC e das séries Optimus Discos.
Navegando pelo site e perdido em meio à oferta de tantos discos bacanas, dei de cara com uma ilustração bastante curiosa, na qual o mapa do Brasil fazia um pequeno desvio em sua trajetória geográfica para fazer fronteira com Portugal. Descobria, assim, o EP “Brasil na CEE”, cujo título faz referência ao clássico “Portugal na CEE” dos GNR, uma das canções-lema do boom do rock português dos anos 80. Passo a palavra ao líder dos Autoramas, Gabriel Thomaz, em texto disponível na página do EP – onde, a esta altura do texto, eu espero que você já tenha ido.
É incrível como dois países como Portugal e Brasil sabem tão pouco sobre a música um do outro. Numa época em que não existem mais fronteiras e o mundo inteiro está à distância de um toque, ainda é impossível adivinhar o que acontece musicalmente em muitos países. Mas é aí que entram os Autoramas, banda brasileira de Rock'n'Roll, que a Rough Trade inglesa chamou de "excellent garage pop, the most important independent band in Brazil". Banda que já fez turnês no Japão, Inglaterra, França, Espanha, Bélgica, Holanda, Alemanha, Uruguai, Argentina, Chile e, é claro, Portugal. Até à poucos anos atrás eu só conhecia um destes temas que gravámos, porque uma outra banda brasileira já o tinha feito. Os punks do 365, gravaram "Grândola, Vila Morena", e por causa disso, aprendi a letra e cheguei a cantar o tema num show em Coimbra em que tocámos num 25 de Abril.
A verdade é que tivemos que ir a Portugal para ter real conhecimento do Rock Português. Os singles (que no Brasil chamamos de compactos) do Salada de Frutas e dos GNR comprei em 2ª mão a uns vendedores numa praça de Lisboa, “Se Eu Enlouquecer” de Daniel Bacelar e Os Gentlemen ouvi num dos volumes dos Portuguese Nuggets e “Coudn’t Care At All” conheci através de um cd que me foi oferecido em Coimbra. Nessa cidade de grandes bandas, vim a descobrir enquanto lá estava que afinal era um fã tardio dos Tédio Boys e, talvez por isso, decidimos gravar um tema de uma banda de um ex-integrante deles, o D3O.
Nas nossas viagens a Portugal conhecemos muitas outras músicas de outros artistas Rock, foi até difícil escolher os temas. Para este Ep tentámos fazer um apanhado de diferentes alturas e que tivessem a ver com o nosso som e com a mistura que fazemos. Este é um projecto importante para nós, é o nosso primeiro trabalho com a nova baixista, Flávia Couri e contámos com o nosso produtor Fausto Prochet que foi sensacional com seu talento e apoio, abraçando connosco o projecto, realizado no Estúdio Atemporal, no Rio de Janeiro.
Agora fica a pergunta no ar: qual será a banda portuguesa que vai gravar as suas músicas preferidas do Rock Brasileiro?
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Eu já havia me derramado em elogios ao show do Noiserv num post anterior, após tê-los assistido no último Noites Ritual do Porto. Só não imaginava que o disco do Noiserv, intitulado “One hundred miles from thoughtlessness”, conseguisse ser ainda melhor. É das coisas mais belas e tristes a fazer vibrar minha membrana auditiva recentemente, assim-assim, ó, com o já clássico EP “Theme from to Kill a dead Man” do Portishead. E no mais supremo dos mimos, o álbum ainda vem com as páginas do encarte repletas de desenhos em branco e um lápis para colorir – o que, como mui espertamente apontou a livreira da Trama que me vendeu o disco, é uma tremenda mais-valia.