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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O cinema de Pedro Costa no CCBB-RJ

Começou no último sábado e vai até dia 23 de setembro, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, a mostra O Cinema de Pedro Costa, dedicado ao realizador português de maior projeção no circuito internacional da atualidade. Em sua terra natal, as opiniões costumam ser polarizadas ao extremo: há quem considere seus filmes sublimes e inovadores, e há quem ache que os mesmos nada mais fazem do que repisar uma certa estética algo hegemônica no contexto do cinema português “de arte”, o que implicaria uma comunicação com o grande público inversamente proporcional à legitimidade desfrutada pela crítica cinematográfica internacional. Eu, que sempre tive dificuldade para tomar posições, também não consigo me situar em nenhum dos pólos deste debate: algumas obras de Costa em encantam profundamente (“Ne change rien”, seu último longa, sobre a cantora e atriz francesa Jeanne Balibar, fotografado num preto e branco cortante e costurando pelo menos uns três ou quatro planos extraordinários), enquanto outras desafiam de tal maneira minha concepção de tempo e narrativa que eu acabo sendo jogado para fora do filme mais do que gostaria (caso de “Juventude em marcha”, em que se pese a existência de sequências maravilhosas como a do diálogo entre Ventura, o protagonista, e seu amigo nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian,em Lisboa).


Há que se levar em conta, também, o fato de que muitos dos filmes de Costa “pedem” a tela grande, porque a composição de quadro singular aperfeiçoada pelo diretor pelo menos desde “No quarto de Vanda” acaba sendo pouco aproveitada nas dimensões de um televisor doméstico. É provável, portanto, que aproveite meu parco tempo livre para conferir não apenas os filmes a que nunca tive oportunidade de assistir (“Casa de lava”, “Onde jaz o teu sorriso”) como também rever aqueles que já conferi no (des)conforto do meu lar. Para quem está começando, eu recomendaria ao leitor do LabCULT iniciar o percurso pelo longa de estreia do diretor, intitulado “O sangue”, e que ano passado foi relançado comercialmente em Lisboa: é uma narrativa até certo ponto mais convencional, mas nem por isso menos tocante ou bela. Pesquisadores e/ou espectadores interessados em uma discussão sobre o pós-colonial e as consequências das dinâmicas migratórias devem garantir ingressos para “Ossos”, “No quarto de Vanda” e “Juventude em marcha”, além do filme em episódios “O estado do mundo”, do qual faz parte o curta “Tarrafal”.

A cereja no bolo do ciclo Pedro Costa, contudo, não leva a assinatura do realizador, embora em alguma medida tenha afetado profundamente não apenas a trajetória do diretor como também todo um cinema português pós-década de 80 que se propõe a borrar as fronteiras entre “documentário” e “ficção”. Refiro-me ao seminal “Trás os Montes” (1976), de António Reis e Margarida Cordeiro, um dos filmes mais instigantes já rodados Além-Mar, e cujo DNA eu consigo perceber tanto em filmes do mesmo período (caso de “Veredas”, de João César Monteiro) quanto em obras contemporâneas, como “Aquele querido mês de agosto”, de Miguel Gomes. Na falta de melhor definição, conceituo “Trás os Montes” como um percurso poético pela região portuguesa homônima, na qual os próprios moradores das aldeias “interpretam” histórias e performatizam tradições de região, longe de quaisquer cristalizações folclóricas. Se for exibido em 35mm, então, a sessão de hoje à noite (quarta 15, 19h30) se torna não mais do que obrigatória.

Maiores informações no blog da Mostra (http://ocinemadepedrocosta.blogspot.com/). A programação a partir das sessões de hoje segue logo abaixo.


15/09, quarta
17h30: O sangue
19h30: Trás-os-Montes

16/09, quinta

17h30: Beauty #2
19h30: Casa de lava

17/09, sexta

15h30: Tudo refloresce
17h30: Juventude em marcha
20h: Conversa com Pedro Costa

18/09, sábado

17h: No quarto da Vanda
20h: Mesa redonda: No quarto da Vanda, um filme mutante
com César Guimarães e Eduardo Escorel e mediação de Daniel Ribeiro Duarte

19/09, domingo

17h: Onde jaz o teu sorriso?
19h: Gente da Sicília + 6 bagatelas

21/09, terça

17h30: Onde jaz o teu sorriso?
19h30: Juventude em marcha

22/09, quarta

17h30: No quarto da Vanda
20h: Número zero

23/09, quinta

17h: O estado do mundo

19h30: O sangue / exibição em blu ray

sábado, 28 de março de 2009

Fórum na Tela exibe filmes do português Pedro Costa

Cena de "Juventude em marcha", de Pedro Costa, um dos cartazes da Mostra do FCC/UFRJ


Reproduzo a seguir nota publicada por Luna Meirelles no site do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro a respeito do ciclo dedicado ao cineasta português Pedro Costa, que começa na próxima segunda (30 de março) e vai até sexta, 3 de abril. Gostaria de convidar a todos para o debate que acontece após a sessão do filme "Ossos" (cartaz de quinta-feira, 2), com a presença do cineasta Joel Zito Araújo (do bom documentário "A negação do Brasil"), mediação do professor e pesquisador Denilson Lopes e humildes pitacos deste que vos blogueia. A iniciativa faz parte da Mostra Jovens Desconhecidos, parte integrante do projeto Fórum na Tela, que tem por objetivo trazer à luz filmes com pouca visibilidade no país. Sempre com entrada franca, as sessões começam às 19h e rolam no Salão Moniz de Aragão do FCC (Avenida Pasteur 250, segundo andar).

"Pedro Costa nasceu em Lisboa, em 1959, e fez o curso de edição e direção, de Antonio Reis, na Escola Superior de Cinema de Lisboa. Em seguida, trabalhou como assistente de direção em diversos filmes portugueses. Seu primeiro curta, Cartas à Julia, foi feito em 1987 e neste mesmo ano também realizou uma série de filmes infantis para a TV portuguesa. Dois anos depois, produziu seu primeiro longa: "O sangue".

O primeiro filme do Ciclo, na segunda, 30 de março, é "Casa de Lava" (Portugal/França/Alemanha, 1994, 110min, cor, com legendas em português). No elenco, Inês de Medeiros, Isaach de Bankolé, Edith Scob e Pedro Hestnes. O filme conta a história de Mariana que, tentando sair do inferno, estende a mão a um homem morto. Ela acredita que pode trazê-lo para o mundo dos vivos. Mas sete dias e sete noites depois, ela percebe que estava enganada: trouxe um homem vivo para o mundo dos mortos.

"No quarto de Vanda" (Portugal/Suiça/Itália/Alemanha, 2000, 170min, cor, com legenda em espanhol) é o filme da terça, 31. Vanda Duarte, Zita Duarte, Lena Duarte e Antonio Semedo Moreno fazem parte do elenco. Na trama, Vanda é uma jovem simples e sensível que não consegue superar o problema da droga. Fechada em seu quarto, isolada do mundo exterior, vive com mágoa seu desconforto e desencanto que partilha com alguns familiares e amigos. Enquanto isso, o bairro onde ela vive começa a ser destruído pelos buldozeres da Câmara de Lisboa, em Portugal, e ela inquieta-se em relação a seu futuro.

Na quarta, 1º de abril, será a vez de "Juventude em marcha" (Portugal/França/Suiça, 2006, 154min, com legendas em espanhol). O filme conta a história de um grupo de moradores do bairro das Fontainhas, no dia da demolição da última barraca, pelas máquinas da Câmara Municipal. Clotilde decide se separar do marido, imigrante caboverdiano que, perdido entre o antigo bairro degradado e seu novo alojamento, decide “adotar” todas as crianças do local como se fossem suas. O longa concorreu à Palma de Ouro, em Cannes, 2006.

"Ossos" (Portugal/1997, 94min, cor, com legendas em espanhol) vai ser exibido na quinta, 2. A trama se passa em Estrela d'África, bairro negro do subúrbio de Lisboa, Portugal. Uma criança, com poucos dias de vida vai sobreviver a várias mortes. O longa é um drama humano e realista e recebeu prêmio de melhor fotografia no Festival de Veneza de 1997. Ainda na quinta, haverá debate com o cineasta Joel Zito de Araújo e com o professor e pesquisador Tiago Monteiro.

Encerrando a semana, "Onde jaz o teu sorriso?" (Portugal/ França, 2001, 104min, cor, com legendas em espanhol), filme da sexta, 3, faz parte da série de documentários Cinéma de Notre Temps, série de retratos de cineastas conduzida por André Labarthe. No longa, o casal de cineastas Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, é filmado na intimidade pela câmera de Pedro Costa durante a edição de seu filme Gente da Sicília. Conhecido pelo rigor, o casal mescla teoria e prática, discorrendo sobre o árduo trabalho de composição de cenas e da montagem."

Conto com a presença de todos!