sexta-feira, 4 de abril de 2008
Atendendo a pedidos...
Enjoy it!
http://tiagom.muxtape.com/
quinta-feira, 3 de abril de 2008
O Genival luso
Conheci a obra do ‘Mestre’ Quim Barreiros durante a viagem que fiz a Portugal, no início de 2007. Estávamos tomando um café no Cais da Ribeira, no Porto, quando alguns gaiatos colocaram a jukebox do bar para tocar uma música em ritmo de forró que falava qualquer coisa sobre “gostar de mamar nos peitos da cabritinha”. Perguntei do que se tratava para o meu primo-cicerone, que já dobrou a casa dos 60, e ele respondeu com a maior naturalidade: “Ora, é o Quim Barreiros!”. Em seguida, iniciou uma longa explanação sobre a “filosofia” da música do Quim, tentando me fazer entender que as letras eram maliciosas, que ele dizia uma coisa quando queria dizer outra... Enfim, como se eu não tivesse vindo de um país que pariu alguns dos maiores Mestres do Trocadilho, como Genival Lacerda, Manhoso e Falcão, e tais esclarecimentos fossem necessários.
De volta ao Brasil, comecei a me aprofundar na trajetória (!) e na vasta obra (!!!) do sanfoneiro Quim Barreiros, cuja carreira se inicia ainda na década de 70, como cantor de música regional da região do Minho (onde nasceu), e só a partir dos anos 80 envereda pela seara do duplo sentido. Depois, descobri que as apresentações de Quim Barreiros são disputadíssimas em Portugal, sobretudo nas recepções aos calouros universitários. E que entre os críticos de cinema brazucas da revista on line Contracampo, a poética do sanfoneiro era bastante cultuada, principalmente depois que o iconoclasta cineasta português João César Monteiro (já falecido), incluiu duas músicas de Quim na trilha sonora de seus filmes: “Bacalhau à portuguesa” (“Mariazinha, deixa-me ir à cozinha pra cheirar teu bacalhau”) em Recordações da Casa Amarela (1987) e “O sorveteiro” (“Chupa Teresa, chupa Teresa, que este gelado gostoso é feito de framboesa”) em A comédia de Deus (1996), filme sui generis sobre um vendedor de sorvetes (interpretado pelo próprio Monteiro) que coleciona pêlos pubianos femininos e assedia belas raparigas.
Sabem as tais apropriações negociadas de que nos fala Stuart Hall? De repente me ocorreu que as músicas de Quim Barreiros, longe de apenas reforçarem determinados estereótipos relacionados à cultura portuguesa (a matriz rural, o sexismo, a baixa escolaridade), poderiam justamente articular esses estereótipos de forma consciente, jocosa e lúdica, pressupondo um público que “compraria” a brincadeira, por reconhecer a familiaridade dos códigos, em vez de tomá-los por verdade essencial sobre a cultura lusa. Nesse sentido, ele se aproximaria ideologicamente do nosso Falcão. Não à toa, os dois são muito populares junto ao público jovem universitário e também costumam ser apropriados por uma certa parcela da intelectualidade, que deteria o capital cultural necessário para efetuar a "leitura nas entrelinhas" do trocadilho aparantemente mais banal.
Em algum lugar do cosmos, Bourdieu nos sorri.
PS: Mais sobre Quim Barreiros, no site oficial http://www.quimbarreiros.pt. A foto que ilustra o post é a capa do disco que marca a virada da carreira de Quim Barreiros na direção do humor, em