Pensei em diversas maneiras de iniciar este post, mas que diabos, quem precisa de rodeios quando a notícia em si já vale por dez mil narizes de cera?
Há exatos sete dias fui a um show do Roberto Leal. Pronto, falei. E embora faltando dez passos para pisar no interior do Cabaret Maxime o mosquito do constrangimento tenha me dado uma ferroada daquelas, decidi embrenhar-me em meio às velhinhas laqueadas e às celebridades de ocasião, sacando oito euros da carteira para conferir o concerto do Homem que certamente apavorou não apenas a minha, como também a infância de muitos que hoje estão pela casa dos 25-35 anos, sejam eles luso-descendentes ou não – embora aqueles tenham o dobro de chance de terem convivido com o Homem das Madeixas Louras não só nos programas de auditório de Bolinha, Chacrinha e congêneres, como também em eventuais audições vinílicas proporcionadas por pais, tios e avós (sobretudo avós) durante o almoço de domingo.
E como você não se torna um verdadeiro pesquisador até ser capaz de enxergar questões de cunho teórico inclusive nas frestas mais recônditas do piso da sua cozinha, ouso dizer que o show de Roberto Leal no Maxime forneceu-me um punhado delas.
Aos (supostos) fatos, que de eventuais gonzoarias também é feito este meu cantinho: Roberto Leal cansou-se da fama de crooner lamecha, embaixador da Terrinha no Brasil e “mais brasileiros dos cantores portugueses” e decidiu dar uma virada na carreira. Ou, conforme o próprio site do cantor anuncia, empreender a “a primeira operação de rebranding de um artista português” – qual seja, abandonar os “Arrebitas”, “Viras” e “Bate-o-pés” que o consagraram e mergulhar fundo no patrimônio musical português. Sim, senhores, a palavra de ordem é TRADIÇÃO, que se fazia presente já no álbum anterior, “Canto da terra” e parece reforçada no atual, chamado – atenção, atenção! – “Raiç/Raiz”, cujo lançamento para a imprensa era o pretexto do concerto a que assisti. Repleto de cantares tradicionais, muitos deles no idioma mirandês (da região transmontana de Miranda do Douro), e cercado de um time de instrumentistas responsável pelos arranjos que sabem a uma Idade Média temperada por influências mouriscas, o que se vê no palco seria irreconhecível e surpreendente, não estivesse no comando do espetáculo um cantor cujos trejeitos d’antanho parecem se recusar a abandoná-lo. Em outras palavras, Roberto Leal, o autor do conceito, consegue ser sistematicamente sabotado pelo Roberto Leal performer – embora, diga-se de passagem, a imensa maioria da audiência estivesse se lixando para isso.
Eu, que ali permanecia como antropólogo e como cínico, confesso ter achado um par de arranjos genuinamente belos, e – sejamos sinceros – entre a guinada às raízes de uma Tereza Salgueiro pós-Madredeus e a mutação transmontana de Roberto Leal, ouso dizer que prefiro este último, pelo simples de fato de, por vezes, “Raiç/Raiz” se assemelhar à corrida desabalada rumo ao precipício de um sujeito que aparenta não ter nada a perder (Tereza e seu álbum “Matriz”, ao contrário, parecem a cada faixa querer provar alguma coisa ao ouvinte, nem que isto a provar seja sua presumida independência em relação ao Madredeus, e tal postura, além de pretensiosa, acaba soando musicalmente chata, muito chata).
Como nada se faz hoje em dia sem o auxílio das tais novas tecnologias de informação e comunicação, eis que o lançamento de “Raiç/Raiz” é acompanhado de uma estratégia de mídia focada na internet. “Roberto Leal mudou de música. E se mudasse de nome?”, diz o folheto distribuído aos presentes no Maxime. “Se acha que o Roberto deve mudar de nome para esta nova etapa musical, vá a WWW.robertomudadenome.com. A decisão é sua”. Entrando no site, somos saudados por um vídeo gravado por personalidades portuguesas – até Zé Pedro dos Xutos dá as caras – e duas opções de voto. Optando pelo “sim”, somos encaminhados a uma nova página, na qual se lê que
09/09/09 será uma data para recordar! Não tanto pelo ´comboio` de 9´s, mas pelo dia que marca a primeira operação de rebranding de um artista português. Roberto Leal, ou melhor António Fernandes mudou de música - agora mais sofisticada, mais urbana, mais elitista - e também mudou de imagem. Deverá ele mudar também de Nome? Se acha que sim, envie-nos a sua sugestão; em texto ou em vídeo. E se o seu Nome for o escolhido para (re)baptizar o Roberto Leal, ganhará um prémio-surpresa com a participação especial do Artista.
E como imagem tem a ver com identidade, nada mais lógico que a capa do supracitado novo álbum apresente um par de mãos marcadas pelo tempo posicionadas contra o fundo de um tradicional xale transmontano – nenhum vestígio das célebres Madeixas Louras, portanto.
Fosse Roberto Leal um pai de santo e tivesse Dulce Pontes desencarnado, arriscaria dizer que o que testemunhei no Maxime fora, mais do que um concerto, uma sessão espírita, mas uma sessão espírita na qual o pai-de-santo muito marotamente cochicha para a entidade, “Eh, pá, baixa mas não baixa de todo, que ali está uma senhorinha que vai achar tudo isto muito estranho”. Provocações (saudáveis) muito à parte, que de piadas também se faz a vida, se de uns tempos pra cá eu já vinha desconfiando que as diferenças entre Michel Giacometti, Vitorino e Quim Barreiros talvez sejam mais tênues do que parecem à primeira vista, “Raiç/Raiz” tem tudo para adicionar uma boa dose de lenha à carcomida fogueira. Que venha o novo disco de Roberto Leal, pois. Ou de António Fernandes. Ou de seja lá qual nome você queira dar a ele.