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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O verdadeiro vira de Roberto Leal

A prova do crime


Pensei em diversas maneiras de iniciar este post, mas que diabos, quem precisa de rodeios quando a notícia em si já vale por dez mil narizes de cera?

Há exatos sete dias fui a um show do Roberto Leal. Pronto, falei. E embora faltando dez passos para pisar no interior do Cabaret Maxime o mosquito do constrangimento tenha me dado uma ferroada daquelas, decidi embrenhar-me em meio às velhinhas laqueadas e às celebridades de ocasião, sacando oito euros da carteira para conferir o concerto do Homem que certamente apavorou não apenas a minha, como também a infância de muitos que hoje estão pela casa dos 25-35 anos, sejam eles luso-descendentes ou não – embora aqueles tenham o dobro de chance de terem convivido com o Homem das Madeixas Louras não só nos programas de auditório de Bolinha, Chacrinha e congêneres, como também em eventuais audições vinílicas proporcionadas por pais, tios e avós (sobretudo avós) durante o almoço de domingo.

E como você não se torna um verdadeiro pesquisador até ser capaz de enxergar questões de cunho teórico inclusive nas frestas mais recônditas do piso da sua cozinha, ouso dizer que o show de Roberto Leal no Maxime forneceu-me um punhado delas.

Aos (supostos) fatos, que de eventuais gonzoarias também é feito este meu cantinho: Roberto Leal cansou-se da fama de crooner lamecha, embaixador da Terrinha no Brasil e “mais brasileiros dos cantores portugueses” e decidiu dar uma virada na carreira. Ou, conforme o próprio site do cantor anuncia, empreender a “a primeira operação de rebranding de um artista português” – qual seja, abandonar os “Arrebitas”, “Viras” e “Bate-o-pés” que o consagraram e mergulhar fundo no patrimônio musical português. Sim, senhores, a palavra de ordem é TRADIÇÃO, que se fazia presente já no álbum anterior, “Canto da terra” e parece reforçada no atual, chamado – atenção, atenção! – “Raiç/Raiz”, cujo lançamento para a imprensa era o pretexto do concerto a que assisti. Repleto de cantares tradicionais, muitos deles no idioma mirandês (da região transmontana de Miranda do Douro), e cercado de um time de instrumentistas responsável pelos arranjos que sabem a uma Idade Média temperada por influências mouriscas, o que se vê no palco seria irreconhecível e surpreendente, não estivesse no comando do espetáculo um cantor cujos trejeitos d’antanho parecem se recusar a abandoná-lo. Em outras palavras, Roberto Leal, o autor do conceito, consegue ser sistematicamente sabotado pelo Roberto Leal performer – embora, diga-se de passagem, a imensa maioria da audiência estivesse se lixando para isso.

Eu, que ali permanecia como antropólogo e como cínico, confesso ter achado um par de arranjos genuinamente belos, e – sejamos sinceros – entre a guinada às raízes de uma Tereza Salgueiro pós-Madredeus e a mutação transmontana de Roberto Leal, ouso dizer que prefiro este último, pelo simples de fato de, por vezes, “Raiç/Raiz” se assemelhar à corrida desabalada rumo ao precipício de um sujeito que aparenta não ter nada a perder (Tereza e seu álbum “Matriz”, ao contrário, parecem a cada faixa querer provar alguma coisa ao ouvinte, nem que isto a provar seja sua presumida independência em relação ao Madredeus, e tal postura, além de pretensiosa, acaba soando musicalmente chata, muito chata).

Como nada se faz hoje em dia sem o auxílio das tais novas tecnologias de informação e comunicação, eis que o lançamento de “Raiç/Raiz” é acompanhado de uma estratégia de mídia focada na internet. “Roberto Leal mudou de música. E se mudasse de nome?”, diz o folheto distribuído aos presentes no Maxime. “Se acha que o Roberto deve mudar de nome para esta nova etapa musical, vá a WWW.robertomudadenome.com. A decisão é sua”. Entrando no site, somos saudados por um vídeo gravado por personalidades portuguesas – até Zé Pedro dos Xutos dá as caras – e duas opções de voto. Optando pelo “sim”, somos encaminhados a uma nova página, na qual se lê que

09/09/09 será uma data para recordar! Não tanto pelo ´comboio` de 9´s, mas pelo dia que marca a primeira operação de rebranding de um artista português. Roberto Leal, ou melhor António Fernandes mudou de música - agora mais sofisticada, mais urbana, mais elitista - e também mudou de imagem. Deverá ele mudar também de Nome? Se acha que sim, envie-nos a sua sugestão; em texto ou em vídeo. E se o seu Nome for o escolhido para (re)baptizar o Roberto Leal, ganhará um prémio-surpresa com a participação especial do Artista.

E como imagem tem a ver com identidade, nada mais lógico que a capa do supracitado novo álbum apresente um par de mãos marcadas pelo tempo posicionadas contra o fundo de um tradicional xale transmontano – nenhum vestígio das célebres Madeixas Louras, portanto.
Fosse Roberto Leal um pai de santo e tivesse Dulce Pontes desencarnado, arriscaria dizer que o que testemunhei no Maxime fora, mais do que um concerto, uma sessão espírita, mas uma sessão espírita na qual o pai-de-santo muito marotamente cochicha para a entidade, “Eh, pá, baixa mas não baixa de todo, que ali está uma senhorinha que vai achar tudo isto muito estranho”. Provocações (saudáveis) muito à parte, que de piadas também se faz a vida, se de uns tempos pra cá eu já vinha desconfiando que as diferenças entre Michel Giacometti, Vitorino e Quim Barreiros talvez sejam mais tênues do que parecem à primeira vista, “Raiç/Raiz” tem tudo para adicionar uma boa dose de lenha à carcomida fogueira. Que venha o novo disco de Roberto Leal, pois. Ou de António Fernandes. Ou de seja lá qual nome você queira dar a ele.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sem passaporte não dá!

Dizer que o Roberto Leal é bizarro, que suas músicas possuem arranjos toscos e que aquele cabelo cor de ovo em fim de feira é o que há de pior no universo (ainda mais de uns anos pra cá, quando ao cabelo cor de ovo em fim de feira foram acrescidas inúmeras plásticas faciais que deixaram o cantor a cara da Glória Menezes) é que nem bater em cachorro manco. Parece fácil atribuir ao intérprete de “Arrebita”, “Fata morgana” e inúmeras pérolas onipresentes na TV brasileira durante boa parte dos anos 80, a culpa pela imagem estereotipada que conservamos de Portugal e da cultura portuguesa, sobretudo no que diz respeito à música. O desafio, ao meu ver, está em se tentar enxergar não apenas a obra de Roberto Leal, como a de outros artistas vinculados ao que se convencionou chamar de nacional-cançonetismo, para além da (suposta falta de) qualidade estética de suas canções, considerando a relevância sociocultural que tais artefatos podem possuir para determinados públicos – pensemos, por exemplo, nos migrantes que vieram d’Além-Mar para o Brasil nos anos 50 e 60 e que, em alguma medida, se identificam com o Portugal idílico, devoto, repleto de aldeias bucólicas e saudades inconfessas manifesto em boa parte dessas músicas.

Poucas canções são tão paradigmáticas nesse sentido quanto “Português sem passaporte”, cujo videoclipe (!?) segue abaixo a título de ilustração – e também para dar aquela desopilada básica no fígado, por que não? A letra exalta as virtudes do “povo navegante” que, por estar em constante deslocamento pelo globo, seria uma espécie de cidadão do mundo, capaz de assumir um pouco da identidade de cada lugar por onde passa. O que eu acho mais genial nessa música é como ela consegue reunir, de forma hiperbólica, várias “marcas identitárias” lusitanas – construções de sentido percebidas como dado essencial e natural – tais como a forte religiosidade (“Nossa Senhora reza do azulejo, eu te protejo, bom português”), o apego melancólico ao passado (“Tu tens na cara um sorriso triste/E quem resiste a esse teu olhar/Que às vezes fala de uma saudade/De outro tempo ou de algum lugar”) e a honradez na pobreza (“E mesmo pobre, quando pões a mesa/Pões a fartura de tudo o que tens”), tudo isso em uma dúzia de versos!



As conexões entre o imaginário nacional-cançonetista, a consolidação de uma imagem Portugal enquanto destino turístico e as representações hegemônicas da cultura portuguesa no Brasil são o tema do paper que apresentarei no 8º. LUSOCOM, a ser realizado na cidade de Lisboa nos próximos dias 14 e 15 de abril. O evento, sediado pela Universidade Lusófona, é parte de um super-pacote de congressos de temática lusófona e ibérica que vai do dia 14 a 18 de abril e também compreende o 6º. SOPCOM e o 4º. IBÉRICO, além do II Colóquio Portugal-Brasil, cujo primeiro encontro rolou no Intercom do ano passado. Fico na capital portuguesa até o dia 26 de abril, pois por nada no mundo perderia a chance de estar em Lisboa durante as comemorações pelos 35 anos da Revolução dos Cravos, no dia 25. E um dia antes, no Seixal (distante uns 20 km do centro de LX), rola concerto gratuito dos Xutos & Pontapés. É ou não é – como se diz em Portugal – “a não perder”?

Até a volta ou em edições extraordinárias, de Lisboa!