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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Lipovetsky meeting Tiririca



No último dia de minha estada em Porto Alegre tive a oportunidade de assistir a conferência de Gilles Lipovetsky na PUCRS. Infelizmente, não pude contar com a companhia eloquente de meu querido amigo filósofo Jayminho que me disse que ia, mas não apareceu. Imagino que deva ter se rendido aos encantos Ossip bar no dia anterior. Foi uma intervenção rápida, durou pouco mais de uma hora seguida de duas ou três perguntas apenas, pois o filósofo tinha vôo marcado para o meio-dia.

Lipovetsky, assim como Habermas, é partidário da idéia de hipermodernidade que, em contraposição a uma pós-modernidade, indica não uma mudança de paradigma, mas uma radicalização de um projeto ainda inacabado de modernidade.

Em sua palestra intitulada, Ética, Mídia e Hipermodernidade, o filósofo chamou atenção para o fim dos ideais de sacrifício (como morrer pela pátria ou por uma causa, por exemplo) já que nem mesmo a igreja diz mais que devemos nos sacrificar por alguma coisa. Dialogando com o conceito de politeísmo de valores de Weber e da representação da moral através do patriotismo segundo Durkheim, Lipovetsky indicou que, em uma sociedade hiperindividualista, as pessoas não concordam quanto aos valores, pois a lógica democrática é aplicada também ao campo da moral. Isso resultaria em uma sociedade egoísta, narcisista e sem ideais. Lipovetsky aceita essa concepção, mas relativiza-a argumentando que há um conjunto de princípios comuns: ninguém aceita mais a escravidão, por exemplo. Esse consenso de valores morais, ou seja, a regulação ética da sociedade se da através da mídia que junto aos Estados e mercados, elegem as prioridades da comoção pública que se dão não por uma lógica racional do dever como colocada por Kant, mas a partir da configuração de uma “ética emocional indolor”.

Um exemplo recente que pode ilustrar essas reflexões é a eleição de Tiririca à Câmara dos Deputados. Sua campanha talvez tenha sido a mais ética desta eleição, cujos slogans eram os seguintes: "Você está cansado de quem trambica? Vote no Tiririca";“Tirirca, pior que tá, não fica”;"Oi, eu sou o Tiririca da televisão. Sou candidato a Deputado Federal. O que é que faz um Deputado Federal? Na realidade eu não sei, mas vote em mim que eu te conto."; "Para Deputado Federal, Tiririca. Vote no abestado". Uma ética racional? Não. Uma ética emocional “hipersincera”. Racionalmente contraditória, para não dizer oposta, aos valores morais que estruturam a ética política, mas alucinantemente honesta com o eleitor.

Por isso, Lipovetsky ao final da palestra chamou atenção para uma educação emocional da moral conduzida pela experiência de exemplos e não pelo aprendizado racional de regras.

Em 1980 a França poderia ter elegido o palhaço Coluche, não para Deputado, mas para Presidência da República. Antes de qualquer campanha, ele já contava com 16% das intenções de voto e com o apoio de intelectuais tais como Pierre Bourdieu, Félix Guattari e Gilles Deleuze, mas desistiu após várias ameaças de morte e do assassinato de seu gerente de espetáculos. Cinco anos mais tarde morreu em um acidente de moto... Um de seus slogans era bem parecido com o de Tiririca: "Coluche, o único candidato que não tem razões para mentir".

Tiririca, antes mesmo de ser eleito, também foi assassinado. “Tiririca morreu” foi um dos trendtopics do Twitter por alguns dias. Visto isso, cabe uma provocação: se a mídia estrutura uma ética emocional indolor onde os ideais de sacrifício se perderam, a verdade dói?