Minha aventura no Seixal à cata dos Xutos & Pontapés começou dando mostras de que ia ser uma tremenda furada. O Seixal está para Lisboa assim como Niterói está para o Rio de Janeiro, pelo fato de também estar situado do outro lado de uma barreira aquática (no caso, o Rio Tejo). Mas o Seixal também possui o seu quê de Baixada Fluminense, pois ao contrário do que acontece com Niterói, os transportes para o Seixal - barcos, comboios e autocarros - simplesmente deixam de circular around midnight. Quando me dispus a cruzar o rio para conferir o concerto gratuito que os Xutos (plus Tereza Salgueiro e sua Lusitânia Emsemble e o grupo de percussão Tocá Rufar, espécie de Olodum da Terrinha) dariam em comemoração ao 25 de abril, portanto, estava plenamente consciente de que a jornada de volta a Lisboa seria de lascar. O que não imaginava é que já a ida teria sua cota de turbulência: comecei escolhendo o meio de transporte errado (crianças que em visita à LX pretendam conhecer o Seixal, atenção: não caiam no papo de quem disser que vocês devem ir de trem; as barcas que saem do Terreiro do Paço continuam sendo a melhor opção), continuei me ferrando ao saltar na estação errada (um lugar chamado Foros de Amora) e depois pegar o autocarro errado (dica #2: em Portugal, o fato de em determinado lugar haver uma avenida principal chamada Primeiro de Maio não significa que o Largo Primeiro de Maio - onde rolaria o show - fique perto; muito pelo contrário, às vezes significa que o supracitado largo fica a pelo menos uns 6 km de distância, devidamente percorridos por este que vos escreve debaixo de forte ventania e ainda sob os efeitos de um resfriado), e terminei o inventário das minhas tragédias lisboetas às 4 da manhã, morrendo em cerca de 30 euros num táxi cujo taxímetro, por ser de outra junta de freguesia, começou a correr com o dobro da velocidade ao entrar em Lisboa.
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quarta-feira, 6 de maio de 2009
Noites lisboetas #2 - o dia do show gratuito de 30 euros
Depois da apetitosa entrada oferecida pelos contagiantes tambores do Tocá Rufar, e de um chatíssimo preâm
bulo das lideranças políticas locais a pretexto do 25 de abril vindouro e de olho nas eleições que se aproximam (vamos combinar que o cachê dos Xutos não deve ser exatamente barato, ainda mais em se tratando de um show gratuito, logo...), é chegada a hora de Tereza Salgueiro subir ao palco. Confesso que seu atual trabalho com a Lusitânia Ensemble, de recuperação sistemática de algumas matrizes da tradição musical portuguesa, provocou alguns bocejos neste humilde blogueiro. Excessivamente submisso às tais matrizes, coisa que o antigo grupo de Tereza, o Madredeus, de alguma forma conseguia superar de maneira mais criativa, o show é uma sucessão de canções da Época Medieval (uma coisa, assim, meio Legião Urbana fase "V") e danças típicas (o malhão que com algum esforço consegui registrar em vídeo talvez seja o momento mais animado do concerto).
Meia-noite, outro intermezzo político, e uma queima de fogos muito da mixuruca saúda o 25 de abril. Pronunciam-se os célebres discursos anti-fascistas, jogam-se cravos para a platéia, canta-se a "Grândola, vila morena", nada de novo no front e all I want to do is rock.
Agora a constatação do óbvio: por mais que eu tente colocar em palavras e exercitar minha postura antropológica de me colocar no lugar do outro e tal, não há modo de descrever o impacto que os Xutos & Pontapés há exatos 30 anos vem provocando no imaginário cultural português. Se é algo difícil para um meio-português entender, que dirá para alguém totalmente exterior a essa realidade... O rock de arena dos Xutos é "anacrônico", sobretudo se comparado às viagens de bandas recentes como Peixe:Avião e a gang de Tiago Guillul? Pode até ser, mas talvez seja esse saudável anacronismo (quando Appadurai diz que toda world music também é uma "somewhere music", se ampliarmos a questão espacial prum approach temporal talvez possamos concluir que toda música também é, de certa forma, datada, posto que produzida dentro de determinada configuração social, cultural, etc) o responsável pela adesão ilimitada e incondicional da audiência, sem restrições de idade.
E como diria Caubi, cantei. Ah, se cantei. Conforme mencionado num post anterior, foi através dos Xutos que me alfabetizei no universo do rock português, e algo me diz que se não fosse por canções como "Contentores", "Circo de feras", "O homem do leme", "A minha casinha", "Enquanto a noite cai", "Chuva dissolvente", "Para ti, Maria" e "Remar, remar", de longe a minha favorita, que BERREI a plenos pulmões, essa pesquisa talvez sequer existisse. Devo ou não devo agradecer àqueles cinco provectos senhores, que a despeito de uns quilinhos a mais aqui, e até de uma muleta ali (o baterista Kalu havia feito uma cirurgia e tocou devidamente amparado por uma bengala), demonstram um exemplar domínio de palco e, com sua performance catártica, ainda conseguem colocar a plateia na palma da mão? Aos que duvidam da resposta, eis uma breve amostra do que foi aquela bela noite no Seixal.
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