(cinco ou seis questões que a suposta censura a "A serbian film" poderia estar fomentando)
A coisa toda começou na quarta ou quinta-feira da semana passada, quando o Grupo Estação programou à boca miúda uma sessão extraordinária do controverso "A serbian film", dirigido por Srdjan Spasojevic, às 22h de sábado no Odeon. No dia seguinte, o Segundo Caderno do jornal O Globo publicou uma nota dando a entender que a tal sessão extraordinária ocorreria em função do cancelamento da exibição do filme no contexto do Festival Rio Fan 2011, que rolava na Caixa Cultural desde o início da semana. Em nota divulgada no site do evento, os organizadores mencionavam uma suposta decisão dos administradores do espaço, motivada pela aura maldita que cercava o longa-metragem, cujo cardápio de perversões inclui violência extrema, sexo explícito, necrofilia, pedofilia e incesto (ou incestopedonecrofilia, em determinado momento do filme), na saga de um ex-ator pornô envolvido na produção de um snuff movie em sua Sérvia natal.
Na noite de sexta-feira, rumores na Internet davam conta de uma provável apreensão da cópia de "A serbian film" que seria exibida no Odeon, com o consequente cancelamento da sessão, supostamente após ação impetrada pelo diretório regional do partido DEM. A decisão não apenas trouxe à baila antigos temores relacionados ao exercício da censura prévia no Brasil durante os anos do Regime Militar como, de imediato, detonou uma manifestação organizada via Facebook e agendada para as 22h de sábado em frente ao cinema Odeon, no centro do Rio. O filme estava programado para estrear em circuito no dia 5 de agosto, num esquema midnight movie e sem quaisquer cortes, decisão que singularizaria o Brasil em relação aos outros lugares onde o longa foi exibido, nos quais chegaram a ser efetuados 49 cortes na metragem do filme.
Como toda polêmica envolvendo quaisquer obras de arte que lidem com conteúdos extremos, o debate em torno de "A serbian film" é pontuado por considerações tão pertinentes quanto equivocadas. Longe deste humilde escriba, após semestral recesso labcultiano motivado por defesa de tese iminente, querer resolver ou esgotar a questão, mas já que é de Estudos de Mídia que este espaço em alguma medida se trata, por que não aventar uns pitacos acerca de toda esta contovérsia?
1. Um produto midiático por si só (qualquer um) não é capaz de condicionar o comportamento do público, remember? Me parece que boa parte do repúdio que algumas pessoas vêm demonstrando em relação ao longa de Srdjan Spasojevic teria a ver com a possibilidade de as imagens abjetas mostradas pelo filme de alguma forma estimularem comportamentos semelhantes por parte da audiência. Meu Deus, já passamos deste estágio, certo? O sentido de uma obra de arte só se completa no momento da fruição, quando, aos sentidos articulados pelo discurso do filme, agregamos nossos valores, crenças, preconceitos e submetemos tudo isso às mediações que nos constituem enquanto seres sociais. Se o camarada vê "A serbian film" e sai barbarizando por aí, tendo a crer que isto se deve menos ao filme em si e mais aos processos que se configuram entre filme e audiência.
2. Se o sentido de uma obra de arte só se completa no momento da fruição, por que diabos tanta gente está se manifestando - a favor ou contra - "A serbian film" sem ver o filme?? Há de tudo na internet (fóruns, posts do FB, comentários às matérias de jornal): desde pessoas que, na linha do "não vi, não gostei, cruz credo", condenam os autores da obra (e eventuais admiradores da mesma) a penas que vão da internação psiquiátrica à execução sumária (comportamento que, vou te dizer, o realizador do snuff-dentro-do-filme aplaudiria de pé), até aqueles que acabam por transformar "A serbian film" numa espécie de estandarte contra a censura, a supressão das liberdades individuais, o retorno do recalcado ditatorial e por aí afora (como se todo país no qual o filme foi proibido e/ou cortado também tivesse um background parecido). Custa ver o filme primeiro e se posicionar depois (o Isohunt e o The PirateBay estão aí pra isso)? Isto vale tanto para a Juíza que supostamente impetrou a ação quanto pra muita gente boa que alinhou à manifestação de ontem apenas pela "questão maior" que o gesto ecoa.
3. Apenas um resmungo, como diria a Ana Enne: faz pelo menos um ano que eu escuto falar de "A serbian film". Antes de ser programado pelo RioFan, o longa de Srdjan Spasojevic passou por um festival no Maranhão e outro em Porto Alegre, isto sem falar nas trezentas e vinte e cinco mostras internacionais por onde a obra passou, sempre despertando polêmica. E se a RioFan está sediada na Caixa Cultural (espaço vinculado a uma instituição pública, portanto), é porque um projeto foi submetido, avaliado, aprovado e midiatizado. Como me parece pouco provável que os curadores do festival tenham inserido "A serbian film" na programação aos 45 do segundo tempo, se aproveitando da distração do guarda ou qualquer estratégia do gênero, alguém me explica, por favor (aceito desenhos): como é que só na quarta-feira a Caixa Cultural se deu conta do potencial explosivo daquilo que tinha em mãos?
4. A obra de arte prescinde de "mensagem". Os defensores de "A serbian film" no mais das vezes tentam legitimar o lançamento da obra justificando sua relevância pelo fato de não ser "apenas um filme gore": trata-se de uma obra marcadamente política, na qual a jornada de degradação física e moral percorrida pelo protagonista seria uma metáfora da atual situação política, econômica e social da Sérvia, além de uma consequência do traumático e bárbaro conflito que o país atravessou em meados da década de 1990, etc etc etc. Ok, até pode ser, mas... essa dourada de pílula é realmente necessária? E se não for nada disso, e se este verniz político não passar de uma camada de leitura que o filme pode ou não articular, dependendo do repertório de quem o assiste e tudo o mais? Srdjan Spasojevic passa de subversivo alegórico à demente contumaz? Tais estratégias de legitimação são bastante frequentes no âmbito do cinema de horror, gênero sempre renegado em termos de relevância sociocultural, embora de uns tempos pra cá mesmo esta postura tenha se flexibilizado um bocado. Ainda assim, tenho a impressão de que um filme de terror (ainda mais em suas vertentes mais extremas) só se torna "legítimo" quando é lido como metafórico ou alegórico: "Dawn of the dead" (de George Romero) e o consumismo, "Poltergeist" e as angústias da classe média americana (obrigado, Douglas Kellner), e assim por diante, como se o mérito de uma obra de horror não pudesse residir apenas na sua habilidade em transmitir determinada sensação (medo, nojo, repulsa), de preferência levando esta proposta às últimas consequências. O italiano Lucio Fulci assinou filmes gore maravilhosos nos quais nem o mais criativo dos analistas seria capaz de agregar camadas políticas ou existenciais, e no entanto estes filmes "alienados" e vazios de transcendência, mas repletos de sangue e vísceras, se revelaram preciosos companheiros num momento da minha vida em que, estando doente com alguma seriedade, o contato com imagens extremas me fazia reavaliar a gravidade da minha própria situação. Catarse das boas, portanto. Algum mal nisso?
5. E não me venham com "autorismos". Outro argumento frequente que a controvérsia despertada por "A serbian film" vem multiplicando é a associação do longa com outras obras que, em outros momentos da história do cinema, também provocaram comoção semelhante - quase sempre, vale destacar, em demérito da obra de Spasojevic. A correspondência mais comum é entre "A serbian film" e "Salò, os 120 dias de Sodoma", derradeira criação de Pier Paolo Pasolini a partir de livro homônimo do Marquês de Sade. Mas aí é aquele negócio, enquanto a legitimidade autoral de Pasolini parece suficiente para transformar a sessão de tortura, humilhação e coprofilia de "Salò" numa obra de arte perturbadora e impactante, como Srdjan Spasojevic é um wtf qualquer, "A serbian film" se trata apenas um exploitation vagabundo, sádico e perverso como provavelmente seu autor também o é. Ademais, qual o sentido em se comparar duas obras de arte distantes no tempo cerca de três décadas, produzidas em contextos absolutamente singulares e, nunca é demais lembrar, dispondo de recursos técnicos igualmente
distintos? Na edição 2009 do MoteLx, festival de cinema de terror de Lisboa, vi um filme francês extraordinário chamado "Martyrs", obra extrema da melhor qualidade sobre uma organização secreta que torturava moçoilas órfãs de modo a capturar em seus rostos, no instante máximo do sofrimento, um vestígio da mesma transcendência e contato direto com o Divino que, supunha-se, os mártires do início da Era Cristã também experimentavam. Eu poderia dizer que o subtexto metafísico do longa lembra o melhor Bergman, ou que o modo como o diretor francês Pascal Laugier filma os rostos em suplício de suas atrizes evoca a Joana D'Arc de Carl Dreyer, mas, sinceramente, isto é realmente necessário para que "Martyrs" seja uma obra-prima?
6. Contra a ditadura da "sutileza". Outro senso comum, pra encerrar esta deambulação sobre "A serbian film": por que parece haver uma espécie de consenso geral quanto à necessidade de um filme de horror, para ser levado a sério, necessariamente recusar quaisquer extremos, em nome do "sugerido", do "que nunca aparece", "daquilo que é apenas imaginado pelo espectador"? Cinema é, dentre muitas outras coisas, sobre o ato de ver, então nada mais legítimo que um realizador deseje explorar ao máximo este potencial visual do dispositivo. Isto nem de longe é uma regra ou deve ser tomado como obrigação por parte de nenhum cineasta, muito pelo contrário: há filmes de terror sutis aterradores ("O iluminado", "Os inocentes"), da mesma forma que obras supostamente "extremas" e "transgressoras" que não raro resultam apenas patéticas ("O albergue"). O problema está em quando um determinado modus operandi, em nome do "bom gosto" médio, é promovido a único modelo válido.
Isto posto, e antes que alguém pergunte o que eu acho disso tudo: vi "A serbian film" há coisa de uns dois meses, baixado da net, numa versão supostamente uncut (não consigo conceber algo mais hardcore do que aquilo). É um filme que leva às últimas consequencias aquilo a que se propõe, sendo por isso mesmo bastante incômodo. Obviamente, não se trata de uma obra para todos os públicos e todas as circunstâncias, e seu eventual lançamento em circuito no Brasil deveria vir acompanhado de algumas informações que orientassem o público em relação ao que ele estaria prestes a ver (mais ou menos como o "Anticristo" do Lars Von Trier foi lançado em Portugal). Aqueles que acreditam que cabe à arte tensionar (todos?) os limites devem conferi-lo sem restrições, contudo (embora ainda ache o supracitado "Martyrs" mil vezes mais cinema).
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domingo, 24 de julho de 2011
A brazilian film
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