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domingo, 20 de setembro de 2009

O fim do download?

Muito boa a matéria que o Jornal A Tarde, de Salvador, fez sobre as práticas de consumo musical na rede. O gancho era a pergunta sobre o fim do download, uma vez que a tendência de ouvir música em streaming tem sido bem forte.

Entrevistaram um monte de gente - eu inclusive - e levantaram uma ótima discussão.

Publico aqui a íntegra do artigo que escrevi a pedido deles - e que na matéria, saiu editado.


"A pergunta de um milhão de dólares?


Qual a saída para a indústria fonográfica? E para os novos artistas, que disputam a atenção dos potenciais ouvintes sem o capital cultural traduzido por milhares de fãs arrecadados na era “de ouro” das gravadoras, que já ficou para trás?


Para desapontamento do mercado, não existem fórmulas nem mesmo uma resposta única para o que é considerado a “crise” das grandes gravadoras. O futuro chegou. Mas, ao invés de destruir as velhas mídias, ele instaurou relações muito mais complexas entre o novo e o antigo.


No entanto, se não há receita pronta para o combate à crise, aposto em três elementos que devem ser levados em conta para entendermos o novo cenário.


O primeiro deles é o de que o principal papel da indústria fonográfica sempre foi o de filtragem dos talentos, aproximando artistas de seu possível público. Este papel, de mediação, não desapareceu com a cultura digital.


Assim, se artistas e público estão mais próximos, uma vez que qualquer banda pode disponibilizar seus trabalhos on-line, os desafios permanecem. Quem vai ouvir, como atingir o público certo; e, dilema dos dilemas, como ganhar dinheiro com isto?


A graça deste momento é que estes mediadores se multiplicaram, descentralizaram e transformaram a filtragem numa atividade compartilhada. Eles estão nos blogs de críticos não profissionais, no twitter, nos nossos perfis de Orkut ou Facebook.E também na grande maioria dos serviços em streaming, por isto mesmo também chamados de sistemas de recomendação musical. Serviços que não fazem outra coisa senão mediar a experiência dos ouvintes ao recomendar novas músicas a partir do perfil do usuário; e assim, construir uma experiência musical que é central à cultura digital.


Outros recursos presentes nestas plataformas de música on-line são também importantes como ferramentas de mediação. Penso nas possibilidades de acesso a informações enciclopédicas sobre as músicas e artistas. Ou na criação de perfis de usuários, a partir dos quais estabelecemos redes sociais com base no gosto em comum, estimulando o florescimento da cultura participativa central a qualquer experiência de entretenimento na atualidade.


Como segundo ponto, aposto que uma das novidades deste momento é que meios de comunicação e conteúdos se “descolaram”. Assim, um suporte ou meio físico pode transportar diversos serviços, tal como demonstra o celular multi-funções a cada momento de nossa vida.


Por outro lado, um mesmo serviço, como por exemplo uma rádio, pode ser acessada a partir de diversos suportes ou meios, tais como o celular, a Internet ou o próprio rádio “físico”, cada um deles propiciando uma experiência que é única.


Finalmente, como consequência da pista anterior, chamo atenção para o fato de que, cada vez mais, estamos interessados em múltiplas experiências de consumo musical. Assim, o download e armazenamento das músicas favoritas para serem ouvidas no player; a escuta de novidades em streaming através dos sistemas de recomendação de músicas; as rádios on-line; as idas a shows ao vivo; e até mesmo a escuta de discos de vinil em pick-ups são algumas das formas de fruição da música hoje – cada uma delas proporcionando um prazer específico e complementar.


É preciso, portanto, levar em conta, então, que nossas escolhas se dão a partir da funcionalidade, do prazer estético, do nosso afeto por alguns artistas, da possibilidade de compartilhamento com amigos – dentre outras razões. Tudo isto pesa na hora de se discutir estratégias para o lançamento de um produto musical, tornando a cadeia de produção, circulação e consumo mais complexa, instável e imprevisível. Ao mesmo tempo, o cenário abre oportunidades inusitadas.


Decididamente, o tempo das fórmulas se foi. Mas, conforme cantava o R.E.M numa velha canção – é o fim do mundo como nos o conhecemos – e eu me sinto bem!"