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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Bacalhaus e pimbalhadas

Quem tem por costume frequentar os aposentos luso-friendly aqui do Labcult sabe que eu nutro um apreço declarado pelos gêneros e formatos da música portuguesa contemporânea habitualmente considerados "menores", seja pela imprensa especializada, seja por uma certa hipocrisia do senso comum, para o qual tais manifestações musicais se resumiriam a artefatos esteticamente inócuos e de mau gosto apropriados por um público tido por ignorante ou estúpido em um contexto social situado entre o bárbaro e o indigno - festas de aldeia, eventos estudantis, arraiais de verão e por aí vai. Praticamente invisível na "grande mídia", afora aparições esporádicas nos programas matutinos de TV, esta música tão desprestigiada costuma alcançar vendagens bastante expressivas, sobretudo entre os meses de junho e agosto e, à sua maneira, também atua no sentido de projetar uma certa identidade musical de Portugal para o exterior, por exemplo, através do circuito das comunidades migrantes. Alguns chamam-na de chunga, outros de pimba, eu chamo de Música Popular para o Verão - ou pelo menos chamava, até me deparar, numa das minhas andanças pela net, com a página do PortalPimba, na qual a arte de Nel Monteiro, da Família Malhôa e congêneres é honrosamente nomeada de Música Popular Alternativa.

Todos sabemos que os nomes que atribuímos aos produtos culturais estão longe de serem inocentes ou aleatórios, antes sendo atravessados pelos diversos discursos que nos precedem e nos afetam, expressando, assim, uma dada visão de mundo. Em suma, todo rotulação cultural é, em última instância, um gesto político. Ao nomear de Música Popular Alternativa um formato que costuma ser desqualificado pelos mais diversos públicos (embora, ouso dizer, consumido como guilty pleasure por esse mesmo público, sob um argumento semelhante ao utilizado pelo sujeito que diz só tolerar o funk se for como trilha sonora pro exercício da academia ou pra imprimir ritmo à faxina), o PortalPimba opera um duplo golpe: naqueles que só alocam no escaninho da "Música Popular" ou os formatos tradicionais/ folclóricos/ rurais ou os reprocessamentos urbano-elitistas dos mesmos (via Zeca Afonso, José Mário Branco ou Fausto - e sem desmerecer a obra destes gênios, pelo amor de Deus); e naqueles que só alocam no escaninho do "alternativo" determinados subgêneros vinculados ao universo do rock ou da música eletrônica. Em outras palavras, elevando o popular massivo e midiático em sua configuração menos prestigiada ao status que lhe é devido nos termos de seu reconhecimento e da função social que desempenha. Felizmente, estas vozes não ecoam solitárias no deserto: de certa forma, percebo ressonâncias deste discurso afirmativo nalgumas declarações do pessoal da FlorCaveira (Tiago Guilull assumiu certa feita que seu "Fados do Apocalipse contra a Babilônia" possui faixas inspiradas pelo "Rapaziada vamos dançar", de Emanuel) e mesmo num filme do quilate de "Aquele querido mês de agosto", genuína ode ao circuito festivaleiro periférico que atravessa Portugal de lés a lés durante o verão.

Passei boa parte do mês de maio fuçando as postagens mais antigas do PortalPimba, e quando finalmente me decidi a escrever este post... cadê o PortalPimba? No antigo link, há apenas uma mensagem de erro e uma suspeita - espero, infundada - de que a página fora suspensa. Se for verdade, é uma pena: o portal disponibilizava, para audição e visualização em streaming, um acervo de MPA vastíssimo, inclusive alguns videoclipes geniais, produzidos artesanalmente pelos próprios músicos naquele esquema no peito e na raça que a gente tanto admira. Outro conteúdo indispensável que o PortalPimba também veiculava era a série Supermercados, gozadíssima exploração mockumental do universo das bancas de frutas, peixes e legumes de Portugal, e que felizmente ainda pode ser acessada em http://videos.sapo.pt/supermercados. Uma amostra do PortalPimba até 2007 vocês encontram em www.portalpimba.blogspot.com/.

E é isso aí.

***

Programa imperdível para amanhã à noitinha: quinta-feira, dia 2 de setembro, às 18h30 na Cinemateca do MAM, rola a sessão inaugural do Bacalhau Cinema Clube (o nome é um achado!), desdobramento do Festival Caminhos do Cinema Português que aconteceu no mesmo espaço ano passado JUSTO QUANDO EU ESTAVA EM LISBOA [aaaaahhhhh]. A programação inclui os curtas

- História trágica com final feliz (2007) de Regina Pessoa, 7'

Corações de Plástico (2008) de Sérgio Brás d’Almeida, 17’
Fim-de-semana (2007) de Cláudia Varejão, 9’
Deus não Quis (200...7) de António Ferreira, 15’ -

sendo o primeiro recomendadíssimo por este que vos escreve, como uma das coisas mais líricas e tristes já feitas na face da Terra. O último também deve valer a pena, posto que António Ferreira é um cineasta de Coimbra cujo longa de estreia ("Esquece tudo o que eu te disse") demonstrava uma maturidade surpreendente (já antevista no curta "Respirar debaixo d'água", de memorável trilha sonora).

Que a iniciativa perdure!