domingo, 15 de junho de 2008

Preto & branco e(m) cores



Os fãs da sonoridade dark-psicótica do Joy Division devem estar dando pulos de alegria. Com cerca de duas semanas de intervalo, entraram em cartaz nos cinemas cariocas dois (bons) filmes sobre a seminal banda de Manchester. Além de uma farra para os ouvidos, ambas as produções ajudam a pôr lenha na fogueira do já tradicional embate "documentário versus ficção": Control é a cinebiografia de tons romanceados e algo folhetinescos, baseada no livro "Touching from a distance", escrito pela viúva de Ian Curtis, Deborah. Fazendo jus à fonte do material, o diretor Anton Corbjin (estreando em longas metragens após uma profícua carreira de fotógrafo e diretor de videoclipes - reparem nas semelhanças entre a bela fotografia do filme e a capa do disco "Echo and the Bunnymen", da banda homônima, clicada por Corbjin no distante ano de 1987) optou por basear sua narrativa no relacionamento entre o suicidado Ian e a ex-mulher.

Não que a música seja coadjuvante na história, muito pelo contrário: é louvável o esforço de Cobjin em situar o espectador no contexto daqueles anos loucos, em que a cinzenta e melancólica cidade industrial inglesa paria duzentas e quinze novas bandas por semana, a quase totalidade delas levando um som neurótico e depressivo (quer uma prova? Pois escute"Industrial estate" e "Repetition", ambas do The Fall, e tire suas próprias conclusões) e influenciada pelos "mestres" David Bowie, Iggy Pop e os Brian Eno e Ferry, ambos do Roxy Music. Mas fica a impressão de que o uso das canções por Corbjin apenas raramente se afasta do óbvio: então, temos as brigas de Ian e Deborah embaladas por "Love will tear us apart" e a cremação do líder da banda, após seu suicídio, em 1980, ao som da tétrica "Atmosphere".

Joy division, por sua vez, é o título do documentário de Grant Gee, que antes havia dirigido o excelente Meeting people is easy, sobre a enlouquecedora turnê de divulgação do álbum "OK computer" do Radiohead pré-download gratuito. A primeira diferença que salta aos olhos é imagética: sai o preto e branco classudo e o didatismo de Corbjin, entram as cores esfuziantes e as intervenções visuais de Gee - aproveitando-se, muitas vezes, do próprio estado degradado das imagens de tv que lhe serviram de base. Diferentemente de Control, Joy Division é mais focado no processo criativo da banda do que nas puladas de cerca de Ian Curtis - prova disso é que o livro de Deborah Curtis apenas pontua a narrativa com citações, e a viúva em nenhum momento dá as caras.

Perfeito? Mais ou menos. A despeito das invencionices, é um filme super careta, baseado quase que totalmente em entrevistas com os "sobreviventes" do Joy Division (que depois fundaram o New Order e ficaram milionários - os depoimentos de Peter Hook, o baixista do NO, são exemplares nesse sentido, pois fica claro que desde o princípio ele achava que a banda devia fazer um som mais pra cima) e participantes-chave da cena de Manchester, como empresários, produtores e o jornalista gonzo Tony Wilson (que já foi devidamente "biografado" há coisa de cinco anos, por Michael Winterbottom, no cínico toda a vida A festa nunca termina). Incomoda também o tom hagiográfico da narrativa, que tenta nos convencer a todo custo da genialidade transcendente de Curtis. E faltam, sobretudo, conexões com o "antes", o "durante" e o "depois" da música pop direta ou indiretamente vinculada à cena de Manchester. The Fall? Smiths? Happy Mondays? Charlatans? O Clube Hacienda? Pode esperar sentado.

No frigir dos ovos, fiquei com a impressão de que o filme perfeito sobre Ian Curtis e o Joy Division misturaria a sofisticação visual de Corbjin, o conhecimento musical de Gee e a perspectiva da cena que Winterbottom abordou em A festa nunca termina - o que não retira, em nenhum momento, a excelência e a obrigatoriedade dos filmes em cartaz. Aproveite antes que o NX Zero estreie seu rockumentary.

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