segunda-feira, 7 de julho de 2008

Portugal na FLIP


Retorno ao cantinho do LABcult após cinco gloriosos dias em Paraty, onde estive acompanhando a já tradicional Festa Literária que, uma vez por ano, superlota as ruas da aprazível cidade do sul fluminense de amantes das letras, leitores-de-ocasião e muita, mas muita gente ansiosa por demonstrar capital cultural - as quilométricas filas de autógrafos depois das palestras de escritores totalmente desconhecidos por estas bandas não me deixam mentir. Mas isso deixa pra lá...

Ok que o dramaturgo Tom Stopard arrasou em seu misto de aula e espetáculo, e que Neil Gaiman ficou seis horas assinando milhões de exemplares de "Sandman", mas como bom obsessivo que sou, não pude deixar de acompanhar a participação portuguesa na FLIP. E se a presença de Portugal no evento não foi propriamente massiva, pode-se dizer que a Língua Portuguesa esteve muito bem representada, sobretudo pelos autores oriundos de África, como Pepetela e José Eduardo Agualusa, este último incorporando cada vez mais - e a sério - um certo charme cafajeste que, para o bem ou para o mal, converte o escritor angolano numa espécie de Marcos Pasquim da CPLP. Ambos participaram, na manhã de sábado (5), de uma mesa cujo tema era a literatura em tempos de guerra, notadamente no contexo africano pós-colonial. O ex-guerrilheiro do MPLA Pepetela (lançando no Brasil o romance "Predadores", justamente pela editora Língua Geral de Agualusa) deu seu recado, mas quem roubou a cena foi a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, de uma beleza ímpar e muito precisa em suas colocações.

Mas vamos por partes: na quinta-feira, dia 3, todas as (minhas) atenções estavam voltadas para a fala de Inês Pedrosa na mesa intulada "Sexo, mentiras e videotape", que com a graça de Deus deixou as mentiras e o videotape de lado para se concentrar no primeiro termo da fórmula. Mediada pelo escritor português José Luis Peixoto (que iniciou sua fala avisando de antemão que sua mãe, embora portuguesa, não possuía bigode - mais sobre José Luis Peixoto daqui a pouco), Inês Pedrosa (ex-editora da Marie Claire lusa) acabou roubando a cena (e os aplausos) de uma mesa que também comportava a divertida gaúcha Cíntia Moscovich e a arredia Zoë Heller (de "Notas sobre um escândalo", recentemente adaptado para o cinema). No decorrer de vários bate-bolas com Peixoto, Inês falou sobre sua experiência como jornalista e sobre as dificuldades de se falar abertamente sobre sexo em Portugal, sem rodeios nem metáforas do tipo "o meu mastro enfurna a sua vela" ou coisas do gênero. Também esteve em pauta o conservadorismo português no que tange ao questionamento dos papéis sociais masculinos e femininos, questão que se faz presente no último romance da escritora, intitulado "A eternidade e o desejo", ambientado no Brasil e recém-lançado por estas paragens via Alfaguara.

No mesmo dia, embora um pouco mais cedo e numa mesa off-off Flip, o onipresente Agualusa mediou um debate sobre Revistas Literárias, que contou com os brazucas João Moreira Salles e João Gabriel (representando, respectivamente, as revistas Piauí e Bravo) e os tugas Patrícia Reis e Francisco Viegas, cujas publicações (a Egoísta e a Ler, nessa ordem) tentam, em alguma medida, romper o marasmo de um mercado editorial que produz mais livros do que capacita leitores a lê-los (alguma semelhança com a realidade brasileira?). Viegas, com seu bom humor, foi particularmente feliz ao apontar as diferenças entre Portugal e Brasil no que tange às dimensões do mercado consumidor de livros ("Lá nos temos cerca de 10 milhões de habitantes, e todos portugueses", acrescentou, sendo recebido com risadas da platéia). Ao final, acenou-se com a possibilidade de a Ler vir a ser publicada em terras tupiniquins, mas fica a pergunta: se as revistas sobre literatura brasileira geralmente naufragam nas vendas e têm a circulação cancelada, será que uma publicação portuguesa sobre literatura contemporânea portuguesa (para além dos Pessoas, Eças e Saramagos de sempre) não teria destino semelhante?

A sexta-feira (4) teria sido um dia morto não fosse pelo misto de leitura e palestra conduzida por José Luis Peixoto num simpático restaurante paratiense intitulado O Café. Lançando no Brasil (pela Record) seu segundo romance, Cemitério de pianos, Peixoto cativou os presentes com sua prosa carregada de dolorosas memórias familiares e imagens fortes. O trecho lido foi particularmente perturbador, o que me levou diretamente à fila de autógrafos, onde tive a oportunidade de trocar algumas idéias com o escritor, que foi extremanente receptivo. Ainda não tomei coragem para encarar a leitura, mas fica a dica do romance para aqueles que desejarem conhecer o que de mais interessante tem sido produzido em Portugal mas não sabem muito bem por onde começar.

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