quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Mais sobre cinema português

"Ó Evaristo, tens cá disto?"


É dura a vida de quem deseja conhecer mais sobre o cinema português. Na minha última visita à Lisboa, dei um pulo na Cinemateca Portuguesa na esperança de lá encontrar um bom acervo de produções lusas para trazer para o Brasil, já que megastores como a FNAC e o Corte Inglés me pareciam oferecer apenas e tão somente o feijão-com-arroz da cinematografia mais recente. Papeando com o balconista da ultrasimpática filial da Ler Devagar (lembram dela?) na Cinemateca, descobri que não há filmes portugueses em DVD para venda direta simplesmente porque não existe interesse do público em adquirir esses filmes, o que acaba restringindo os lançamentos às produções que obtiveram relativo sucesso comercial e às obras de alguns realizadores que são impossíveis de ignorar, como João César Monteiro, que mereceu um box sensacional contendo todos os seus filmes, entre longas e curtas, e Manoel de Oliveira.

E na internet, vocês me perguntam? Há filmes portugueses para serem baixados? Novamente, a sina se repete. De Monteiro e Oliveira é possível downloadar via Emule os filmes mais representativos – do primeiro, se não me falha a memória, apenas “Veredas” e os curtas-metragens que acompanham a edição em DVD do filme não estão disponíveis; de Oliveira, você encontra as produções mais recentes e alguns dos primeiros filmes (enquanto escrevo estas linhas, “Acto da primavera”, de 1963, está em 33%). Também no Emule encontrei boa parte da filmografia de Pedro Costa, “Transe” de Teresa Villaverde, “98 octanas” de Fernando Lopes, “Odete” de João Pedro Rodrigues e um documentário razoável sobre a banda de rock Heróis do Mar intitulado "Brava dança". “Call girl” e a já comentada versão modernosa de “O crime do Padre Amaro” idem, bem como alguns longas de João Canijo, João Botelho e o bom “A costa dos murmúrios” de Margarida Cardoso. Contudo, há que se ter uma boa dose de paciência para baixar esses filmes, pois como a quantidade de fontes disponíveis é sempre escassa, às vezes você demora MESES para concluir um mísero download de 600 MB.

Curioso perceber como toda uma fase do cinema português, aquela que compreende as décadas de 60 e 70 e todo o movimento do Cinema Novo, passa em brancas nuvens tanto no mundo das lojas físicas quanto no virtual. Em Portugal, vi para vender no Corte Inglés uma edição com poucos extras, e que eu julguei muito cara, de “Pedro Só”, longa de Alfredo Tropa que, junto com “Verdes anos”, de Paulo Rocha, meio que inaugurou o Cinema Novo luso. O único filme dessa safra que consegui achar na net foi “Uma abelha na chuva”, de Fernando Lopes, baseado em conto de Carlos de Oliveira.

Até que ontem, pesquisando nos sites de torrent, deparei-me com um arquivo intitulado “Cinema Português – Clássicos”. Julgando que pelo menos um ou outro longa do Cinema Novo estaria incluído na seleção, iniciei o download e só depois vim a descobrir, para minha surpresa, que o “Clássicos” se referia justamente à produção pré-cinemanovista – ou seja, historicamente situada durante o período da ditadura salazarista e contendo produções que, em alguma medida, endossavam o discurso oficial. São 10 filmes num arquivão de 8 GB: “A canção de Lisboa”, “A menina da rádio”, “Fado, história duma cantadeira”, “Aldeia da roupa branca”, “O Costa do Castelo”, “O leão da estrela”, O Pai tirano”, “O pátio das cantigas”, “As pupilas do senhor reitor” e “O grande Elias”. Como o download via torrent é mais veloz, já estou em 22% do total. E como ando às voltas com a leitura de um material muito bacana chamado “O cinema português através dos seus filmes”, organizado por Caroline Overhoff Ferreira, acredito que a dobradinha filmes+livro possa funcionar à perfeição.

Em meio a tanto desabono, um alento. A edição deste mês da Revista Cinética, excelente site dedicado à discussão cinematográfica (e que de certa forma veio ocupar o lugar da Contrcampo, cada vez mais burocrática) publicou uma mini-entrevista com o realizador português Miguel Gomes, de “Aquele querido mês de agosto”, um dos melhores filmes do último Festival do Rio e do qual sou um ferrenho entusiasta. A boa notícia é que o longa está previsto para estrear nos cinemas brasileiros em abril. Se a previsão se confirmar, é pra não perder nem por decreto: certamente ficará pouco tempo em cartaz, e num circuito reduzido, aquele que talvez seja o melhor filme português desde “Alice”.

4 comentários:

Anônimo disse...

O único problema é que falta quem faça seed...

Estou preso nos 87% porque quem postou já os retirou da Web.
Daí, a torrent está incompleta.


A sina continua, e não é só sua...

Tiago M disse...

Há uma estratégia que eu venho utilizando com regularidade e que fez o meu download avançar até 93,8%: experimente executar o BitTorrent diversas vezes em vez de deixá-lo conectado direto, com algumas horas de intervalo entre uma ligação e a próxima. No início da conexão, a taxa de transferência será sempre absurdamente alta - nos melhores dias, chegou a 400 kbps durante breves dois minutos, embora depois ela caia até zero e nunca mais suba outra vez. Há que se ter paicência, mas pelo menos isso me permitiu romper a bendita barreira dos 87%.

Anônimo disse...

Il semble que vous soyez un expert dans ce domaine, vos remarques sont tres interessantes, merci.

- Daniel

Anônimo disse...

Hey, I am checking this blog using the phone and this appears to be kind of odd. Thought you'd wish to know. This is a great write-up nevertheless, did not mess that up.

- David