segunda-feira, 27 de abril de 2009

Noites lisboetas #1 - o Dia da Grande Explosão



Ok, admito ser um sujeito que, dada a relativamente curta extensão da minha existência enquanto ser social, configura-se como um homem de poucos shows, mas dificilmente qualquer experiência musical a ser vivida por mim nos anos que me restam poderá sequer chegar perto do concerto devastador de Emir Kusturica e sua No Smoking Orchestra que rolou no Campo Pequeno (a antiga Praça de Touros de feições mouriscas bem no coração de Lisboa) naquela noite friorenta e chuvisquenta de 18 de abril. Se em CD ou mesmo no DVD as diatribes punk-balcânicas de Kusturica e sua entourage já são contagiantes – e caso isso ainda não tenha lhe ocorrido, baixe AGORA as trilhas dos filmes “Underground” e “Life is a miracle”, ou então o documentário “Memórias em super 8”, sobre a No Smoking Orchestra, todos dirigidos pelo próprio Kusturica – ao vivo a explosiva combinação de circo, virtuosismo e fanfarronice se traduz numa performance no mínimo inesquecível. No palco, Kusturica & co. são daqueles que lançam mão de todas as cartas altas numa mesma jogada, como se o show fosse durar apenas 15 minutos e em 15 minutos eles tivessem a obrigação moral de botar a casa abaixo.

De toda a banda, Kusturica é o que menos se destaca em termos de presença cênica - tirando o momento no qual empunha uma guitarra que, a certa altura, começa a girar como a hélice de um helicóptero e a emitir luzes multicoloridas, ou ainda quando duela com o violinista da No Smoking Orchestra, esfregando seu instrumento (ôpa!) contra um arco de violino gigante que mais parece uma vara de salto olímpico. O cineasta e dublê de guitar hero, contudo, é o maestro regente de um exército de Brancaleone musical capaz de aglutinar uma figura mais bizarra do que a outra: um saxofonista feio de dar pena, um baixista que é a cara do Chimbinha da banda Calypso sem as luzes no cabelo, e um segundo guitarrista que, como bem definiu o labcultiano Zé Cláudio (meu parceiro nesta nau dos insensatos) é uma espécie de “Slash from Transylvania”. Isso para não falar do inacreditável vocalista da NSO, que usa uma collant azul de wrestler mexicano com asas de morcego debaixo dos braços e parece ser especialmente tarado por convocar moçoilas da platéia e ficar se esfregando nelas em cima do palco, o que lá pelas tantas produz um efeito bastante suspeito debaixo do collant, fenômeno que ele disfarça mui apropriadamente mostrando a bunda para a audiência e balançando a pança.

Aliás, os momentos nos quais a platéia feminina era convocada a subir pro palco foram inúmeros: invasões de raparigas lisboetas doidas por perder a linha eram constantes. Nesse quesito, Iggy Pop e os Stooges no Claro que é Rock de 2005 perdem feio em termos de anarquia performática. A cada insanidade cometida pela banda (não foram poucas), a audiência reagia ensandecida, formando rodas de pogo, fazendo mosh e demonstrando por a+b que, pelo menos no que tange às platéias portuguesas, esse papo de frieza européia merece ser relativizado. Tanta euforia me fez temer por uma série de coisas, desde a simples manutenção dos itens que carregava no meu bolso (carteira, passaporte, máquina fotográfica) até, no momento mais extremo da festa, pelo meu próprio status de bípede dotado de consciência motora.

Tendo levado um par de apalpadelas na bunda durante “Devil in the business class”, daquelas que você dá graças a Deus por não identificar a autoria pois o meio circundante não parecia lá muito animador, e suado feito um retirante, saí do Campo Pequeno naquela noite com a sensação de que (1) havia visto uma apresentação antológica, (2) o Rio de Janeiro precisa de um show desses urgentemente e (3) que o show tem tudo para ser um sucesso desde que (a) o comentário sobre Maradona ser o maior jogador de futebol de todos os tempos seja suprimido ou ganhe uma corzinha local (Kusturica acabou de dirigir um documentário sobre a, errrr, carreira do craque argentino) e (b) a piada “quem é melhor, Benfica ou Sporting?” não seja adaptada para “Flamengo ou Fluminense?”, sob o risco de o Maracanã, a Apoteose, o Citibank Hall ou onde quer que o show aconteça se transforme numa praça de guerra, bem ao gosto da galera dos Bálcãs.

Nota sobre (a falta de) fotos do concerto: não sei se em virtude da baixa resolução da minha câmera, se o chão do Campo Pequeno estava tremendo ou se por inépcia minha mesmo, o fato é que 98% das fotos que tirei, ou tentei tirar, do concerto de Kusturica ficaram uma grandessíssima bosta. Salvaram-se apenas os 2% aí do lado – e deixando a modéstia muito de lado, que 2% abençoados foram esses, eh?

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