Há tempos que a produção da gravadora (por enquanto, assim a chamemos) independente portuguesa Flor Caveira vinha chamando a minha atenção, ou pelo menos desde outubro, quando adquiri o brilhante disco Tiago Guillul IV por módicos oito euros na FNAC do Chiado. Faixas como “Beijas como uma freira” e “Lou Reed quer ser preto” escondiam, por detrás dos títulos surreais, canções muito bem urdidas que fundiam, em alguma medida, o punk rock de inspiração anglo-estadunidense às melodias e ao discurso lírico de uma certa vertente tradicional da música portuguesa, apropriada sob o viés da sátira e do escracho. “Canção para o Rodrigo” tornou-se desde então uma das minhas favoritas, com seu crescendo épico que sempre me faz lembrar o combo canadense Arcade Fire. E “Dentes de Lobo” tem um quê de dança folclórica, pervertida pelas guitarras dissonantes. Tudo isso, misturado ao discurso religioso que pontua boa parte das canções (a maioria dos membros da “família Flor Caveira”, como eles mesmos se nomeiam, são vinculados à Igreja Batista de Queluz) e à herança de artistas como António Variações, reclamada por Tiago Guillul, Os Pontos Negros e B Fachada, entre outros, tornava a produção dessa galera um fascinante estudo de caso.
A FC existe desde 1999, mas só agora alcança alguma projeção em nível nacional, motivada, em parte, pelo êxito do disco homônimo dos Pontos Negros (aquele do delicioso single “Conto de fadas de Sintra à Lisboa”), lançado pela Universal no ano passado – e que, por sua vez, abriu caminho para que B Fachada trilhasse a mesma vereda com seu Um final de semana no Pônei Dourado, que chegou às lojas no final de abril. O fato de lançarem discos por uma major, contudo, não desvinculou os artistas da “família”: no Festival da Cave, a ocorrer no dia de 26 de junho na Cave da Igreja Batista de Queluz (“A Flor Caveira regressa às origens” é o mote do evento), por exemplo, os Pontos Negros dividirão o palco com Guillul – espécie de mentor da FC – Samuel Úria & as velhas glórias e Te voy a matar, que de certa forma ainda “militam” no underground.
A FC tem uma volumosa produção de singles e EPs que, como manda o figurino, são im-pos-sí-veis de serem encontrados nas megastores de quatro letras. Um link no site da gravadora, entretanto, permite que o internauta interessado em adquirir o catálogo da FC encomende os discos que quiser, mediante transferência bancária. Quando estive em LX para o último Sopcom, aproveitei o embalo e encomendei o catálogo completo (algo em torno de 17 discos, média de 3 euros por peça, totalizando pouco mais de 60 euros) – detalhe que em menos dois meses quatro novos álbuns foram acrescidos à lista, incluindo aí o novo CD de João Coração e um intitulado Variações & Lutero, de Guel, Guillul & e o Comboio Fantasma, que pelo título parece ser impagável – solicitando que os discos me fossem entregues na pensão onde estava hospedado. As formalidades entre mim e o pessoal da FC duraram menos de duas mensagens de email: na terceira missiva o Paulo, encarregado das encomendas, já estava sugerindo que os discos me fossem entregues pessoalmente, já que ambos estaríamos em Lisboa. Aceitei a proposta e combinei um encontro na entrada da FNAC Chiado, às 19h45 de uma segunda-feira, 20 de abril. Me sentindo o personagem de um thriller noir, informei que estaria usando uma blusa verde, uma echarpe preta e seguraria uma Time Out na mão, como se ao invés de discos de “louvores e panque roque”, estivéssemos intercambiando drogas ou qualquer coisa do gênero.
Minha suspeita de que algo daria errado e rolaria algum tipo de desencontro se dissipiram pontualmente às 19h46, quando chega Paulo, vestido de preto dos pés à cabeça e ostentando uma respeitosa barba. Os discos me são entregues num envelope de papel pardo, forrado com plástico bolha contendo meu nome (Portugal é o único lugar em que escrever meu nome com “h” nunca é a primeira opção) e o número da encomenda. Ao mencionar a pesquisa que estou desenvolvendo, Paulo me revela alguns detalhes palpitantes sobre a gravadora: primeiro, que a estrutura da FC é mínima – para além dos músicos, compreende apenas cinco “funcionários”, sem uma sede ou escritório fixo. Depois, discorre a respeito de uma parceria que a Flor acabou de firmar com a toda-poderosa Valentim de Carvalho, que dará suporte logístico a uma turnê nacional com o elenco da gravadora, a acontecer no segundo semestre, e ao final da qual alguns membros da “família” poderão ter discos gravados pela major, subsidiária da EMI em Portugal. Paulo confessou ainda que Tiago Guillul vem demonstrando interesse em internacionalizar o trabalho da Flor Caveira e anda ouvindo muita música brasileira (embora Paulo diga preferir Capital Inicial e Engenheiros do Hawai, o que me deixou um bocado confuso, pois se Capital Inicial e Engenheiros do Hawai não fazem música brasileira, então o que diabos Tiago Guillul anda ouvindo?). Por fim, e sem esconder uma pontinha de orgulho, fico sabendo que sou o primeiro ser humano fora de Portugal a encomendar o catálogo da FC.
A Flor Caveira continua me deixando intrigado: seu esquema de divulgação e distribuição de discos é bastante sui generis, sobretudo em tempos de distribuição de música on line; há o discurso da “família” e do underground, e ao mesmo tempo o estabelecimento de uma parceria com a Valentim de Carvalho; seus EPs possuem uma arte gráfica elaboradíssima (a capa do Viola braguesa de B Fachada é um deslumbre de cor, e mesmo discos de arte mais simples como Mais dez fados religiosos de Tiago Guillul denotam um apuro visual incontestável), embora os discos em si consistam em CDs graváveis com o nome do álbum e do artista escritos à mão, que nem eu costumava fazer lá em casa. As notas nas contracapas também são repletas de observações e comentários espirituosos (“AVISO: isto tem menos de ¼ d’hora” em Samuel Úria & as velhas glórias; “Esta gravação estereofónica em gloriosa baixa fidelidade não foi masterizada. Sound verité.”, em Cinco subsídios para o panque roque do Senhor), o que torna a experiência de possuir o catálogo duplamente saborosa. Regressei ao Brasil 17 discos mais rico. Agora é dar conta de ouvir isso tudo...
A FC existe desde 1999, mas só agora alcança alguma projeção em nível nacional, motivada, em parte, pelo êxito do disco homônimo dos Pontos Negros (aquele do delicioso single “Conto de fadas de Sintra à Lisboa”), lançado pela Universal no ano passado – e que, por sua vez, abriu caminho para que B Fachada trilhasse a mesma vereda com seu Um final de semana no Pônei Dourado, que chegou às lojas no final de abril. O fato de lançarem discos por uma major, contudo, não desvinculou os artistas da “família”: no Festival da Cave, a ocorrer no dia de 26 de junho na Cave da Igreja Batista de Queluz (“A Flor Caveira regressa às origens” é o mote do evento), por exemplo, os Pontos Negros dividirão o palco com Guillul – espécie de mentor da FC – Samuel Úria & as velhas glórias e Te voy a matar, que de certa forma ainda “militam” no underground.
A FC tem uma volumosa produção de singles e EPs que, como manda o figurino, são im-pos-sí-veis de serem encontrados nas megastores de quatro letras. Um link no site da gravadora, entretanto, permite que o internauta interessado em adquirir o catálogo da FC encomende os discos que quiser, mediante transferência bancária. Quando estive em LX para o último Sopcom, aproveitei o embalo e encomendei o catálogo completo (algo em torno de 17 discos, média de 3 euros por peça, totalizando pouco mais de 60 euros) – detalhe que em menos dois meses quatro novos álbuns foram acrescidos à lista, incluindo aí o novo CD de João Coração e um intitulado Variações & Lutero, de Guel, Guillul & e o Comboio Fantasma, que pelo título parece ser impagável – solicitando que os discos me fossem entregues na pensão onde estava hospedado. As formalidades entre mim e o pessoal da FC duraram menos de duas mensagens de email: na terceira missiva o Paulo, encarregado das encomendas, já estava sugerindo que os discos me fossem entregues pessoalmente, já que ambos estaríamos em Lisboa. Aceitei a proposta e combinei um encontro na entrada da FNAC Chiado, às 19h45 de uma segunda-feira, 20 de abril. Me sentindo o personagem de um thriller noir, informei que estaria usando uma blusa verde, uma echarpe preta e seguraria uma Time Out na mão, como se ao invés de discos de “louvores e panque roque”, estivéssemos intercambiando drogas ou qualquer coisa do gênero.
Minha suspeita de que algo daria errado e rolaria algum tipo de desencontro se dissipiram pontualmente às 19h46, quando chega Paulo, vestido de preto dos pés à cabeça e ostentando uma respeitosa barba. Os discos me são entregues num envelope de papel pardo, forrado com plástico bolha contendo meu nome (Portugal é o único lugar em que escrever meu nome com “h” nunca é a primeira opção) e o número da encomenda. Ao mencionar a pesquisa que estou desenvolvendo, Paulo me revela alguns detalhes palpitantes sobre a gravadora: primeiro, que a estrutura da FC é mínima – para além dos músicos, compreende apenas cinco “funcionários”, sem uma sede ou escritório fixo. Depois, discorre a respeito de uma parceria que a Flor acabou de firmar com a toda-poderosa Valentim de Carvalho, que dará suporte logístico a uma turnê nacional com o elenco da gravadora, a acontecer no segundo semestre, e ao final da qual alguns membros da “família” poderão ter discos gravados pela major, subsidiária da EMI em Portugal. Paulo confessou ainda que Tiago Guillul vem demonstrando interesse em internacionalizar o trabalho da Flor Caveira e anda ouvindo muita música brasileira (embora Paulo diga preferir Capital Inicial e Engenheiros do Hawai, o que me deixou um bocado confuso, pois se Capital Inicial e Engenheiros do Hawai não fazem música brasileira, então o que diabos Tiago Guillul anda ouvindo?). Por fim, e sem esconder uma pontinha de orgulho, fico sabendo que sou o primeiro ser humano fora de Portugal a encomendar o catálogo da FC.
A Flor Caveira continua me deixando intrigado: seu esquema de divulgação e distribuição de discos é bastante sui generis, sobretudo em tempos de distribuição de música on line; há o discurso da “família” e do underground, e ao mesmo tempo o estabelecimento de uma parceria com a Valentim de Carvalho; seus EPs possuem uma arte gráfica elaboradíssima (a capa do Viola braguesa de B Fachada é um deslumbre de cor, e mesmo discos de arte mais simples como Mais dez fados religiosos de Tiago Guillul denotam um apuro visual incontestável), embora os discos em si consistam em CDs graváveis com o nome do álbum e do artista escritos à mão, que nem eu costumava fazer lá em casa. As notas nas contracapas também são repletas de observações e comentários espirituosos (“AVISO: isto tem menos de ¼ d’hora” em Samuel Úria & as velhas glórias; “Esta gravação estereofónica em gloriosa baixa fidelidade não foi masterizada. Sound verité.”, em Cinco subsídios para o panque roque do Senhor), o que torna a experiência de possuir o catálogo duplamente saborosa. Regressei ao Brasil 17 discos mais rico. Agora é dar conta de ouvir isso tudo...
5 comentários:
Sou um portugues nascido no Brasil, como muitos outros brasileiros. Amigo da flor-caveira, feliz em saber que seu material foi para o brasil... ah, Caetano Veloso (coisa antiga, tropicalismo) hahahaha
Quando o Paulo me disse que Tiago Guillul estava interessado em internacionalizar a FC, secretamente eu pensei "estou levando os discos, o ideal agora seria arranjar uma forma de trazer os caras". Imagina só, uma Consoada Tropical? Como estarei Além-Mar no segundo semestre, espero de coração poder acompanhar essa digressão nacional...
Abraço!
Tiago M
Olá Tiago,
Isso era o ideal: levar a FlorCaveira até ao Brasil. Uma Consoada Tropical é uma excelente ideia. Quando voltares dá um toque. Vai haver muito concertos, entre eles a participação no Festival Sudoeste.
Abraço
Paulo Ribeiro
Maravilha, Paulo! Devo chegar em Lisboa no dia 26 de julho - não sei se durante o Sudoeste já terei resolvido todas as burocracias com a agência de fomento que está financiando a minha viagem, mas escrevo sim!
Viva,
Não dava para dar ou vender em Mp3 samuel uria e as velhas glorias , não consigo arranjar .
thx
miguel.arjo@gmail.com
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