[para ser lido ao som das canções que servem de trilha sonora para as imagens a seguir: "Grândola Vila Morena", de José Afonso; "Coro da primavera", também de José Afonso, em versão rock and roll do Xutos & Pontapés (1994); e "Novos pobres", de Pedro Abrunhosa (1999), releitura crítica dos efeitos da Revolução na sociedade portuguesa, que sampleia trechos do discurso que o MFA transmitiu via rádio na madrugada do 25 de abril]
Há exatos 34 anos, no dia 25 de abril de 1974, um movimento liderado por Capitães do Exército Português derrubou o governo do presidente Marcelo Caetano, pondo fim a mais de 40 anos de Estado Novo autoritário e conservador.
Algumas correntes históricas mais propensas ao revisionismo têm se esforçado no sentido de dessacralizar a Revolução de Abril, revelando que, por trás do verniz socialista, da inspiração libertária e da índole pacífica do movimento (em vez de dispararem tiros, os Capitães teriam distribuído flores à população, daí a alcunha "Revolução dos Cravos" para designar os acontecimentos daquele ano), o que havia era um impulso profundamente conservador, que longe de romper violentamente com as estruturas de poder vigentes e transformar Portugal numa nação comunista, apenas forneceu as bases para que o liberalismo democrático se consolidasse de fato no país (um tanto quanto atrasado, é verdade, já que o restante da Europa havia feito isso há pelo menos cinco décadas). Não à toa, a euforia revolucionária durou pouco mais de um ano, quando o Movimento das Forças Armadas, composto por militares de baixa patente, foi prontamente substituído por um governo de tintas conciliadoras e mais hierarquizado. E é bem verdade que o regime já não andava muito bem das pernas desde que seu mentor intelectual e principal líder político, o ditador Antonio de Oliveira Salazar, sofreu um derrame cerebral e se afastou da presidência do Conselho de Ministros.
No entanto, o cinismo característico dos tempos que correm não foi capaz de eliminar a aura mítica que cerca o dia de hoje, feriado nacional na Terrinha. Mesmo um filme profundamente crítico em relação aos eventos daquela época, como o Capitães de Abril (dirigido por Maria de Medeiros, com elenco internacional encabeçado pelo galã italiano [?] Steffano Accorsi), que relata, de forma algo jocosa, episódios como o dos tanques do MFA parando nos sinais vermelhos a caminho de Lisboa, não se furta de celebrar o clima de esperança que tomou conta de amplas parcelas do povo português.
A Revolução dos Cravos talvez tenha sido o primeiro movimento sociopolítico da história de Portugal que soube perceber o papel estratégico desempenhado pelos artefatos da cultura midiática. Após quase meio século de censura e repressão, era evidente o sentimento de urgência que movia o país, em direção à reescritura de sua narrativa identitária, sobretudo através da televisão, do cinema e da música popular. Foi assim que uma das primeira iniciativas do movimento dos Capitães consistiu na tomada dos estúdios do Rádio Clube Português: após a invasão, uma mensagem da liderança revolucionária anunciando a queda do Estado Novo foi transmitida para todo o país, no meio da madrugada, enquanto soavam os primeiros acordes da canção "Grândola Vila Morena", do trovador José Afonso - espécie de Chico Buarque luso, um dos artistas mais perseguidos pela ditadura salazarista, e muito popular entre a juventude universitária de esquerda.
Não há dúvida que o 25 de abril converteu-se num marco a partir do qual as novas gerações de portugueses articulam e constroem as suas identidades. E como hoje em dia tais processos são invariavelmente mediados pelas representações e discursos que circulam na mídia, nada mais lógico do este post ser embalado por algumas canções que freqüentavam/freqüentam o imaginário português e que, ainda hoje, devidamente "atualizadas", entre continuidades e rupturas, continuam ecoando por aí.
(Pronto. Último post sobre Portugal, eu prometo - ou, pelo menos, neste mês de abril).
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sexta-feira, 25 de abril de 2008
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