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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Noites lisboetas #6 - o dia em que apanhei um cravo no chão e o coloquei na lapela


Desde que dei início à minha atual pesquisa, secretamente alimentava grandes expectativas diante da possibilidade de algum dia estar em Portugal durante o 25 de abril. Quando soube que o último LUSOCOM ocorreria uma semana antes do 35º. Aniversário da Revolução dos Cravos, não pensei duas vezes antes de prolongar minha estadia em Lisboa por mais uns diazinhos. E em que se pese o fato de o meu primeiro 25 de abril em Portugal ter sido ocupado com questões outras, desagradáveis demais para serem relatadas em todo o seu pormenor aqui neste espaço, garanto que fiz a escolha certa.

Partamos do seguinte pressuposto: nós, brasileiros (e só eu sei o quão arriscado pode ser fazer uma afirmação generalista deste naipe), tendemos a ser bastante céticos em relação a feriados nacionais de cunho político, que ou costumam se converter em meros pretextos para se folgar no trabalho e viajar com a família, ou são simplesmente ignorados em seu significado sociohistórico mais profundo. Basicamente, portanto, meu receio em relação ao 25 de abril era de que (1) a data passasse em branco ou, pior, (2) tivesse se transformado numa celebração fossilizada das glórias passadas – e qualquer pessoa minimamente inteirada da história portuguesa recente sabe o que de fato foi feito do ideário de abril. E embora haja vestígios de cristalização aqui e ali – mais ou menos conforme comentou um colega de LUSOCOM, “é sempre a mesma coisa, distribuem-se cravos, protesta-se à larga e canta-se a ‘Grândola’ [referência à canção de José Afonso que, ao ser transmitida via rádio pelos Capitães durante a madrugada do 24 para o 25 de abril é tida como deflagradora da Revolução]” – ao fim e ao cabo ainda vale, e muito, a pena estar em Portugal durante este dia.

Eu sempre achei que nós, brasileiros (de novo!), fôssemos tremendamente mal resolvidos em relação ao nosso recente período ditatorial, sobretudo se comparados a muitos dos nossos vizinhos latino-americanos: basta ver o modo tímido como nosso cinema exuma o cadáver dos desaparecidos políticos, ou mesmo o ocasional surgimento de fantasmas verde-oliva (ora no poder, ora correndo atrás do dito cujo) que insistem em sustentar, em plena rede nacional, que o que aconteceu no Brasil entre 1964 e 1985 foi uma Revolução, e não um Golpe... Mas enfim, digressiono. Talvez graças a esse caráter mal resolvido, mas, talvez, também em virtude do fato de os valores que nortearam o nosso processo de abertura ou estarem rotos desde o berço ou terem se pervertido com o passar dos anos (e nos levado até Collor, por exemplo), infelizmente, nós não temos por hábito celebrar o fim da Ditadura dos Generais, embora eu ache que o espírito de liberdade que tomou (ou deve ter tomado, sei lá, ainda estava morto nessa época) conta dos corações e mentes das pessoas naquele momento histórico deva ser constantemente celebrado. Posso estar sendo ingênuo, mas acredito e quero acreditar que, tal e qual uma tuberculose do bem, esse espírito se espalhe pelo ar e contagie todos aqueles dispostos a constatar que os tempos, de fato, mudaram.

Nesse sentido, não apenas o 25 de abril em si como o modo pelo qual ele vem sendo comemorado em Portugal fornecem algumas pistas interessantes nesse sentido. Para lembrar os portugueses de que no dia 24 de abril de 1974 eles foram dormir não podendo falar e escrever certas coisas, e acordaram no dia seguinte com este direito fundamental restituído, a revista semanal Visão lançou uma edição especial simplesmente genial do ponto de vista da sinergia entre os setores gráfico e de criação, na qual as diversas matérias eram veiculadas como que submetidas ao famigerado “lápis azul” da censura salazarista, de modo que os leitores pudessem perceber a quantidade de coisas a que eles não teriam acesso se a censura ainda vigorasse.

É óbvio que quem estiver atrás de um approach mais conservador da Revolução (!) vai encontrar motivos para se esbaldar, sobretudo sintonizando a TV aberta portuguesa: há documentários biográficos, mesas redondas e a inoxidável reprise do longa-metragem Capitães de Abril, de Maria de Medeiros, circa meia-noite. Mood semelhante pontuou o discurso das lideranças locais que antecedeu o show dos Xutos no Seixal, já comentado neste blog, quanso ficou nítido, pelo menos para mim, que o uso politiqueiro de festividades nacionais de cunho estritamente contestador não é exclusividade destas paragens. Aí, dependendo do lugar de fala e dos interesses de quem faz o discurso, ora elementos de ruptura, ora elementos de continuidade, serão menos ou mais reforçados (e voltando para Lisboa de táxi após o concerto, o motorista que me levou não cansava de se perguntar quantos mil-euros a Câmara Municipal do Seixal haveria desembolsado para trazer os Xutos de graça para o público local, de quebra angariando uns pontinhos a favor nas eleições que se avizinhavam).

Decerto há coisas mais interessantes para se ver... Faltando uma semana para o 25 de abril, começaram a pipocar em Lisboa alguns shows comemorativos, de longe as iniciativas possuidoras da proposta mais original de sempre: reunir artistas de várias gerações em torno do “espírito de abril” – o que é consideravelmente distinto de se falar nas “canções de abril”, pois embora as trovas de Zeca Afonso e seus contemporâneos sejam de uma beleza deslumbrante, vamos combinar que algumas dessas músicas já deram o que tinham que dar. Movida por esse impulso contracorrente, a boate Music Box organizou uma série de concertos intitulada “Lisboa, Capital, República”, que durou três noites: a primeira, que contou com o veterano cantautor Sergio Godinho (reposnável por impregnar “Os vampiros”, de Zeca, dum surpreendente espírito rock and roll), o duo brasileiro Couple Coffee e o chicobuarquiano JP Simões, foi das coisas mais lindas e musicalmente intensas que tive o prazer de testemunhar. As noites seguintes aglutinariam estilos e artistas tão distintos entre si quanto o fado de Camané e o hip hop de Sam the Kid.

Mas o grande barato do 25 de abril é e sempre será caminhar a esmo pelas ruas do centro de Lisboa, deixando-se levar pelas passeatas que saem da rotunda do Marquês de Pombal e deságuam no Rossio, descendo a Avenida da Liberdade abaixo, ao som de uma cacofonia de palavras de ordem e no compasso de todos aqueles que ganham as ruas na esperança de se fazerem ouvir.



quinta-feira, 30 de abril de 2009

Colóquio "Literatura e revolução - 35 anos do 25 de abril" na PUC-Rio


Pausa no diário das minhas recentes aventuras pela noite lisboeta para divulgar o Colóquio "Literatura e revolução - 35 anos do 25 de abril" promovido pela Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses do Departamento de Letras da PUC-Rio. O evento ocorre nos dias 5 e 6 de maio de 2009, no Auditório do CTC (Prédio Cardeal Leme, 11 andar). Maiores informações na Secretaria do Depto. de Letras, em (21) 3527-1770, através do email catedra@let.puc-rio.br ou no site www.letras.puc-rio.br/catedra. Clicando na imagem ao lado, ela fica maior e dá pra ver a programação em detalhes. It's a miracle, como dizia aquela cançãozinha do Queen!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A Revolução foi televisionada (e teve trilha sonora)

[para ser lido ao som das canções que servem de trilha sonora para as imagens a seguir: "Grândola Vila Morena", de José Afonso; "Coro da primavera", também de José Afonso, em versão rock and roll do Xutos & Pontapés (1994); e "Novos pobres", de Pedro Abrunhosa (1999), releitura crítica dos efeitos da Revolução na sociedade portuguesa, que sampleia trechos do discurso que o MFA transmitiu via rádio na madrugada do 25 de abril]



Há exatos 34 anos, no dia 25 de abril de 1974, um movimento liderado por Capitães do Exército Português derrubou o governo do presidente Marcelo Caetano, pondo fim a mais de 40 anos de Estado Novo autoritário e conservador.

Algumas correntes históricas mais propensas ao revisionismo têm se esforçado no sentido de dessacralizar a Revolução de Abril, revelando que, por trás do verniz socialista, da inspiração libertária e da índole pacífica do movimento (em vez de dispararem tiros, os Capitães teriam distribuído flores à população, daí a alcunha "Revolução dos Cravos" para designar os acontecimentos daquele ano), o que havia era um impulso profundamente conservador, que longe de romper violentamente com as estruturas de poder vigentes e transformar Portugal numa nação comunista, apenas forneceu as bases para que o liberalismo democrático se consolidasse de fato no país (um tanto quanto atrasado, é verdade, já que o restante da Europa havia feito isso há pelo menos cinco décadas). Não à toa, a euforia revolucionária durou pouco mais de um ano, quando o Movimento das Forças Armadas, composto por militares de baixa patente, foi prontamente substituído por um governo de tintas conciliadoras e mais hierarquizado. E é bem verdade que o regime já não andava muito bem das pernas desde que seu mentor intelectual e principal líder político, o ditador Antonio de Oliveira Salazar, sofreu um derrame cerebral e se afastou da presidência do Conselho de Ministros.

No entanto, o cinismo característico dos tempos que correm não foi capaz de eliminar a aura mítica que cerca o dia de hoje, feriado nacional na Terrinha. Mesmo um filme profundamente crítico em relação aos eventos daquela época, como o Capitães de Abril (dirigido por Maria de Medeiros, com elenco internacional encabeçado pelo galã italiano [?] Steffano Accorsi), que relata, de forma algo jocosa, episódios como o dos tanques do MFA parando nos sinais vermelhos a caminho de Lisboa, não se furta de celebrar o clima de esperança que tomou conta de amplas parcelas do povo português.

A Revolução dos Cravos talvez tenha sido o primeiro movimento sociopolítico da história de Portugal que soube perceber o papel estratégico desempenhado pelos artefatos da cultura midiática. Após quase meio século de censura e repressão, era evidente o sentimento de urgência que movia o país, em direção à reescritura de sua narrativa identitária, sobretudo através da televisão, do cinema e da música popular. Foi assim que uma das primeira iniciativas do movimento dos Capitães consistiu na tomada dos estúdios do Rádio Clube Português: após a invasão, uma mensagem da liderança revolucionária anunciando a queda do Estado Novo foi transmitida para todo o país, no meio da madrugada, enquanto soavam os primeiros acordes da canção "Grândola Vila Morena", do trovador José Afonso - espécie de Chico Buarque luso, um dos artistas mais perseguidos pela ditadura salazarista, e muito popular entre a juventude universitária de esquerda.

Não há dúvida que o 25 de abril converteu-se num marco a partir do qual as novas gerações de portugueses articulam e constroem as suas identidades. E como hoje em dia tais processos são invariavelmente mediados pelas representações e discursos que circulam na mídia, nada mais lógico do este post ser embalado por algumas canções que freqüentavam/freqüentam o imaginário português e que, ainda hoje, devidamente "atualizadas", entre continuidades e rupturas, continuam ecoando por aí.

(Pronto. Último post sobre Portugal, eu prometo - ou, pelo menos, neste mês de abril).