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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ping, a rede social musical da Apple

A Apple lançou recentemente mais um serviço que promete alavancar as vendas de música da iTunes Store. Trata-se doPing, uma rede social voltada para a música, onde é possível comprar músicas com um clique, já que a rede está atrelada à iTunes Store. O lançamento ocorreu junto com a nova versão do iTunes, o software reprodutor de música oficial da Apple (que pode ser baixado de graça aqui). Na minha opinião, trata-se de uma junção dos serviços prestados pela Last.fm, pelo MySpace - ambos já começando a apresentar sinais de desgaste - e pelo Twitter, porém dentro da loja virtual, o que dá toda uma outra dimensão às práticas de venda de música online.

A Last.fm está no mercado há alguns anos e, resumindo muito toda a complexidade do site, trata-se de um site de rede social onde nós compartilhamos com nossos contatos, gostos e preferências musicais que estão acoplados ao nosso perfil de usuário. O mecanismo funciona por causa do "scrobbler", um plug-in que instalamos no computador e associamos ao player de música - inclusive o iPod - que capta o que estamos ouvindo e joga no nosso perfil. A partir disso, podemos, por exemplo, medir nosso nível de compatibilidade musical com o de outros amigos. Além disso, o site também conta com perfis das bandas e artistas que são atualizados, muitas vezes, pelos próprios usuários da página, que contribuem com informações de biografia, agenda e comentários críticos de shows, entre outros. Outro atrativo são as formas de recomendação de música que funcionam de forma "automática" - onde o programa indica músicas que você gostaria, baseado no padrão que você constrói à medida que ouve música no computador e estas vão para o perfil - e "manual" - onde usuários indicam músicas para você.

Com um pouco mais de idade que a Last.fm, o MySpace entrou de sola nos outros sites de redes sociais, ficando muito popular e, inclusive atraindo a atenção de músicos, tanto “independentes” quanto “estabelecidos” no cenário musical contemporâneo. Para isso, foi criado um braço musical, o MySpace Music. O perfil de usuário feito no MySpace Music é ligeiramente diferente do perfil de usuário comum. Enquanto uma banda, você pode uploadear faixas de sua autoria/ interpretação para streaming ou para download, compartilhar letras de música e informar ao público sobre suas influências musicais, gêneros aos quais sua música pertence, que tipo de vínculo você tem com a indústria fonográfica (sem contrato, indie, major, qual gravadora etc.). O interessante, no entanto, é a possibilidade de nós, enquanto usuários comuns, podermos ser “amigos” - com todas as ressalvas que o termo pede - tanto de usuários comuns, quanto de bandas, de gravadoras etc.

Referências levantadas, de volta ao que importa. No Ping, você pode “seguir” (follow, em termos twitterianos) seus artistas preferidos e seus amigos. A partir do perfil dos seus artistas preferidos, você recebe as suas atualizações de status (ao molde do Facebook ou do Twitter) e recebe recomendações para compra de música a partir do que o artista está ouvindo e de suas referências e gostos musicais.

E, como dito no parágrafo acima, a sua lista de contatos também é composta de “amigos”, com suas preferências, recomendações, “o que está ouvindo”, últimas compras etc. A ideia é que a compra de música efetuada no iTunes crie padrões de relacionamento / conexões entre usuários e entre artistas, ou seja, uma rede social que se organiza a partir da música adquirida pela iTunes Store.

Tudo certo. Até aí não há muita novidade. Já vimos isso antes em outras empreitadas. A diferença é que toda essa experiência de consumo musical na internet é transferida para dentro de uma loja virtual, no caso, a iTunes Store. Com um clique, podemos comprar a música que um amigo nosso está ouvindo, por exemplo.

Não estou aqui defendendo de que o Ping será a salvação da indústria fonográfica no meio de toda essa confusão com a venda de música, no entanto, precisamos reconhecer que o que parece importante nessa história toda seja não mais oferecer somente música e, sim, experiência. Em tempos de reconfiguração dos modelos de negócio da indústria fonográfica, precisamos pensar também sobre o que mais está mudando. Nessa direção, me parece que a jogada do Ping é justamente explorar essas mudanças no ambiente digital ao dar espaço para que se construa laços através da música, borrar fronteiras entre artistas e fãs e mediar relações interpessoais através da música gravada. Claro que a iniciativa precisa de alguns anos para que a eficiência seja provada. Enquanto isso, observemos que, num cenário adverso onde a venda de música está em franca decadência, a Apple faz mais uma aposta para alavancar a rentabilidade de sua loja virtual incluindo num software a experiência de rede social presente em outros modelos.