| Confesso: sou apaixonado por músicas e compositores que criam rompendo com as classificações, com os limites estabelecidos, mesclando tempos históricos, gêneros, informações de distintos lugares. As mesclas culturais sempre me pareceram mais interessantes. A defesa do purismo, das origens primevas sempre estiveram em baixa em minha cotação do gosto pessoal. Não é por nada que em minha tese de doutorado resolvi analisar os anos 90, no Brasil e na Argentina, e me fixar em grupos e cantores que faziam (e continuam fazendo) canções que brincavam com fronteiras, rompendo-as para estabelecer diálogos com o outro, os vários outros que os rodeavam ou com os quais resolveram estabelecer contato. E fui entrando no mundo criativo de Divididos, Chico Science e Nação Zumbi, Zeca Baleiro, Los Redondos...
| Mas toda essa introdução na verdade é para falar do show do Bajofondo - Mar Dulce - que assisti no sábado, dia 09, no Vivo Rio. Já conhecia seu trabalho de CDs e também pela internet. As mesclas já começam pela formação: argentinos e uruguaios, alguns vivendo em seus países, outros, como é o caso do líder-fundador, Gustavo Santaolalla, vivendo em Los Ângeles. Começaram hibridando tango e música eletrônica, o chamado "eletrotango", em pegada muito próxima a já feita pelo Gothan Project. Mas não pararam por aí. Vieram os diálogos com músicos e sonoridades latino-americanas, como candombe, e passadas pelo rap e pelo hard rock.
Mas não quero fazer um histórico aqui, nem tampouco uma crítica formal. Quero sim falar da experiência que foi estar presente e participar do espetáculo.
| Cara, confesso que vi configurado no palco um pouco de tudo que havia estudado para minha tese: hibridação, tradução e reciclagem cultural. Entrei de cabeça na festa de sons (bandoneón, violino, bateria, sons programados em computador, toca-discos e outras parafernálias eletrônicas, mesclados hábil e criativamente), luzes e imagens. E sob a batuta de Santaolalla, o mesmo cara que havia entrado em contato inicialmente ao estudar o Rock Argentino, o líder da banda Arco Iris, uma das primeiras bandas do rock dos hermanos portenhos. Gustavo comandou a festa, músicos e público entraram no seu ritmo contagiante.
| E ainda teve a participação especialíssima de Dado Villa-Lobos e Bonfá, há séculos sem tocar juntos no palco, tocando e cantando "Índios" (meio mal, afinal cantar não é o forte de Dado, mas pouco importava naquele momento), com imagem de Renato Russo no telão.
| Foram três momentos perfeitamente interligados. Um primeiro, chamado por Gustavo de "Pesado", em cima de um som mais forte e grave ditado pela bateria e programações eletrônicas; o segundo, mais "Calmo", que incluiu a execução solo por Santaolalla de uma peça que ele fez para "Diários de Montocicleta. Por fim, "Pa´Bailar", parte final do show, e aí foi impossível ficar parado. Incitado pelos músicos, o público se soltou e parte dele, entre os quais me incluo, subiu no palco, e, literalmente, o Vivo Rio se transformou numa rave. Músicos e público integrados no palco, rompendo também aí os limites precisos e as fronteiras demarcadas. Veja um pouco do que foi isso no vídeo abaixo, que gravei enquanto dançava e invadia o palco. Nada normal, nada certinho, nada regrado, decididamente amador, mas que resgata um pouco do clima do espetáculo. Decididamente, como diz Charly García, "la alegría no es solo brasilera".
E depois do vídeo-dançante e totalmente amador, reproduzo um vídeo de "El Mareo", retirado do youtube, de uma das músicas que mais gosto dos caras.
