
[O post a seguir contém alguns spoilers. Se você ainda não assistiu ao filme ou é daqueles que se incomoda em saber coisas do tipo "o personagem do Bruce Willis estava morto em 'O sexto sentido'" ou "em 'Clube da luta', o personagem do Brad Pitt só existe na imaginação do personagem do Edward Norton", por favor me ignore a partir de agora]
Não contendo a expectativa e tendo comprado ingresso antecipado, fui assistir a "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" na última quinta-feira. Havia lido alguns comentários a respeito e sabia mais ou menos o que esperar do filme. Só não esperava que, depois de 20 anos, Spielberg, Lucas & cia. tivessem amadurecido uma consciência tão plena do valor simbólico contido no material com o qual estavam lidando. Desde a sua primeira aparição, apanhando o clássico chapéu no chão, até a cena final, passando por incontáveis enquadramentos em
contra plongée que redimensionam a figura imponente de Indiana Jones, não há margem para dúvidas: estamos diante de um Mito, daqueles que a Cultura da Mídia e do Entretenimento tão habilmente constroem, alimentam e que constantemente se reconfiguram diante dos nossos olhos. Com o perdão do exagero, ter a oportunidade de testemunhar um desses momentos de reconfiguração dá uma sensação de relevância histórica daquelas...
Não, "O reino..." não está pra tetralogia de Indiana Jones como "A ameaça fantasma" estava pra saga de Star Wars. É um filme muito mais contido em sua tentativa de atingir as novas platéias. Sei que vou soar como um velho reaça agora, mas me arrisco a dizer que é precisamente nos momentos em que o filme tenta parecer "moderno" que ele mais derrapa. O que sempre me fascinou nas aventuras do arqueólogo interpretado por Harrison Ford foi a sua habilidade em conjugar a inverossimilhança mais descarada com um pezinho na, digamos assim, realidade objetiva das coisas. Dito de outra forma: a sensação de "cara, que caô" convivia de maneira relativamente harmônica com uma impressão de que aquilo ali poderia estar acontecendo. No âmbito da técnica, os efeitos mecânicos e o uso de dublês ajudavam - e muito - a reforçar essa impressão de realidade (coisa que decerto não se verifica em emulações recentes do universo jonesiano, como em "O retorno da múmia" ou nos filmes da série "National treasure", com o Nicolas Cage). Em "O reino...", essa harmonia é diversas vezes comprometida pela praga do CGI. Toda a seqüência que começa no Rio Amazonas e termina nas Cataratas do Iguaçu (sic), com direito a ataque de formigas selvagens e um passeio de cipó na companhia de macacos, é exemplar nesse (mau) sentido.
Eu dizia que Speilberg, Lucas & cia haviam amadurecido a compreensão do valor simbólico materializado no personagem Indiana Jones. Sob essa perspectiva, entre mortos e feridos, "O reino..." tende a ser mais agradável para que já era fã da antiga trilogia do que para aqueles que estão conhecendo o herói agora. E o mais legal é que o filme não se furta de acenar carinhosamente tanto pros antigos quanto pros novos fãs, embora eu tenha a impressão de que os primeiros certamente irão se divertir mais (como esse lugar de fala de "fã das antigas" é o espaço que me cabe, temo não ser capaz de efetuar uma leitura diferenciada). As constantes menções a personagens queridos porém ausentes (o Dr. Jones de Sean Connery decerto ocupa um lugar de destaque neste panteão, mas quem recebe as homenagens mais bacanas, ao meu ver, é o Marcus Brody de Denholm Elliot, já falecido) são a manifestação mais evidente desse desejo, mas como diria o Álvaro Garnero, "O reino da caveira de cristal" ainda tem muito a oferecer: eu confesso que fiquei arrepiado quando, na seqüência inicial, os russos abrem a porta daquele depósito e na trilha sonora toca um trecho do tema que, no primeiro filme da série, anunciava a aparição da Arca Perdida. É uma associação tão sutil que talvez só consiga ser percebida por aqueles que assistiram à saga incontáveis vezes. Neste preciso momento, dar uma risadinha no cinema é uma forma de demonstrar, para si mesmo e para os demais presentes, que você foi capaz de "pescar " uma informação que a grande maioria muito provavelmente não conseguiu. Ponto para Bourdieu.
Não quero transformar esta esboço de, vá lá, crítica numa demonstração ostensiva de capital cultural, mas só pra concluir, gostaria de destacar a maneira precisa como o quarto filme se insere na lógica dos demais episódios. Andaram criticando o fato de "O reino da caveira de cristal" misturar arqueologia e alienígenas, mas se a gente parar pra pensar, faz todo o sentido: se nos três primeiros filmes Spielberg dialogava com a
matriz cultural do filme-de-aventuras da década de 30, o episódio atual se apropria da
matriz cultural da ficção científica dos anos 50, o que é perfeitamente coerente com a época em que a(s) trama(s) se ambienta(m). E tanto "Caçadores da Arca Perdida" quanto "O templo da perdição" e "A última cruzada" incorporavam explicações de ordem mística no desfecho de suas tramas: se antes os Nazistas derretiam ao se confrontarem com o Poder de Deus; se corações eram arrancados e o sujeito continuava vivo; e se beber a água do Cálice errado levava ao envelhecimento acelerado, por que não atribuir a origem da Caveira de Cristal a um ser de outro planeta? Se é Deus, ok, mas com ETs fica forçado? Eu hein.
E há toda a questão da passagem do tempo, dos laços familiares, da figura paterna pela qual Spielberg é obcecado desde o início de sua carreira como cineasta. Há um trecho particularmente tocante que é quando o reitor interpretado por Jim Broadbent diz para Indy que eles entraram naquela idade em que as coisas mais importantes começam a ser perdidas. Menos de 10 minutos depois, Indy conhece aquele que, futuramente, será revelado como sendo seu filho (aliás, "conhecimento" é uma palavra chave para se
ler "O reino da Caveira de Cristal": a idéia está presente tanto nas revelações de insuspeita paternidade quanto na motivação dos alienígenas ao construirem o Templo). Perdas e ganhos. Rupturas e continuidades. Modernidade e tradição. Quem foi que disse que um
blockbuster de Hollywood não dá o que pensar?
PS.: by the way, a propósito de toda a
polêmica envolvendo a representação estereotipada dos russos (como comunistas bebedores de vodka e dançarinos de balalaika) pelo filme, uma coisa eu fiz questão de comemorar: que bom que os 19 anos longe das telas não tiraram de Indiana Jones a boa e velha incorreção política...