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terça-feira, 17 de março de 2009

"Oiçam todos, oiçam todos!"

As ruas de Vila Ruiva (Concelho de Nelas, Portugal) estão desertas porque tá todo mundo lendo o LabCULT... ;-)


Remexendo nos arquivos antigos do LabCULT, descobri que na próxima sexta, dia 20 de março, completam-se exatos 365 dias da minha primeira postagem neste blog. Intitutava-se “Não é piada” e informava, em linhas gerais, as bases e pressupostos da minha pesquisa sobre a cena musical popular massiva portuguesa contemporânea que, à época, apenas engatinhava. Hoje, deixando a modéstia um pouco de lado, sinto um baita orgulho do meu filhote: apesar de ter sido um ano hardcore em termos de leituras e reflexões, vejo que os resultados começaram a se materializar, seja em congressos aos quais tive a oportunidade de levar alguns dos resultados iniciais da investigação, seja em eventuais publicações que, devagar-devagarinho, transportam a temática da música & cultura portuguesas para universos cada vez mais amplos. Isso sem contar o processo de imersão no âmbito da cultura lusa contemporânea, que me levou a descobrir bandas, cineastas, sites e espaços de show incríveis, numa lista que só tende a aumentar ao longo de 2009, quando – se Deus quiser, e ele há de – terei a oportunidade de conferir, in loco, a pertinência das hipóteses que venho formulando.

Como se não bastasse o meu espírito reflexivo-rememorativo, na sexta-feira passada, durante a reunião inaugural do LabCULT, fui informado pela Simone, grande parceira e orientadora desta pesquisa, que muitos dos visitantes que turbinaram o número de acessos ao nosso blog durante o ano que passou teclavam de localidades Além-Mar, como Vila Real, Aveiro, Faro, Braga, Guarda, Setubal, Vila Nova de Gaia e Lisboa. Ô gente, que felicidade! Espero de coração que vocês estejam curtindo. E tanto para os leitores daqui quanto pros de lá, vai o meu recado: continuem acessando o LabCULT, comentem os posts (todo comentário é uma contribuição do tamanho do mundo pra minha pesquisa de doutoramento) e divulguem o blog para vossos amigos presenciais e virtuais. Valeu!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Alguém me explica?

Era só o que faltava. Já é raro que o Brasil receba o show de algum artista português. Quando acontece, escalam a pessoa pra cantar música brasileira. Depois dessa, alguém ainda tem coragem de dizer que a nossa relação musical com Portugal não é assimétrica?


Cantora do Madredeus, Teresa Salgueiro canta clássicos da MPB em turnê brasileira

Um dos grandes nomes da música portuguesa contemporânea, Teresa Salgueiro apresenta clássicos da MPB em excursão brasileira, com shows em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, nos dias 24 e 31 de maio e 2 e 3 de junho, respectivamente.

Soprano de notável extensão vocal, Teresa Salgueiro sempre manteve projetos paralelos ao seu trabalho com o Madredeus. Já homenageou a música popular brasileira com o álbum "Você e Eu" (2007) e interpreta clássicos como "Chorando na Roseira" (Antônio Carlos Jobim), "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso), "Maracangalha" (Dorival Caymmi), entre outros.

A cantora é acompanhada por um octeto formado por João Cristal (Piano), Paulo Dafilin (guitarra), Marcos Vieira (baixo), Daniel Paula (bateria), Nailor Azevedo (sax e clarineta), Denise Piotto (cello), Adriana Drê e Maria Diniz (vocais).

TERESA SALGUEIRO NO RIO
Quando: 31/5, às 21h
Onde: Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Quanto: De R$ 30 a R$ 480
Informações: 0/XX/21/3235-8545

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Sobre pop e borboletas

O post da Simone a partir da reportagem publicada pelo Megazine d'o Globo na semana passada (aquela sobre o 'novo hype') me fez recordar de uma crítica-crônica de autoria do jornalista, ensaísta e polemista português Miguel Esteves Cardoso. Durante sua passagem pelas revistas especializadas O Se7e e Música e Som, entre finais dos anos 70 e início dos 80, Cardoso testemunhou o boom do rock português, mantendo quase sempre uma postura ácida e crítica em relação ao que ele considerava uma "invenção de atilados empresários e jornalistas ingênuos, criando separações artificiais e provocando expectativas injustas". Concordando-se ou não com os argumentos do autor (e na maioria das vezes eu discordo), há que se reconhecer a precisão de seu estilo e a qualidade de seu texto. Alguns de seus mais vigorosos petardos contra a sociedade portuguesa podem ser encontrados no livro A causa das coisas, edição portuguesa da Assírio & Alvim (1987) que eu pesquei num sebo carioca certa feita.

Já o trecho a seguir vem da coletânea sobre música Escrítica pop - um quarto da quarta década do rock (1980-1982), publicado pela mesma Assírio & Alvim e disponível apenas para consulta no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.

"Como as borboletas, a música pop tem uma vida de três dias. Assim, os lepidopterologistas Pop só têm de escolher entre duas práticas. Uns, para preservar e analisar a borboleta, montam-na num expositor. Outros, deslumbrados com a cores e com o vôo, limitam-se a segui-la com o olhar. Aqueles, porém, têm de matá-la primeiro. Ou ostros apenas têm de deixá-la morrer depois. Mas não valerá mais vivo durante três dias do que morto toda a vida?"

E aí? Que tipo de Lepidopterologista Pop nós queremos ser?


quinta-feira, 20 de março de 2008

Não é piada

Reflita durante alguns segundos sobre a expressão “música portuguesa”. Qual destas imagens ou sonoridades passou mais vivamente diante de seus olhos e ouvidos?

(a) o fado melancólico de Amália Rodrigues
(b) o infame “vira” de Roberto Leal
(c) bolinhos de bacalhau (ok, eles não têm muito a ver com música, mas enfim...)
(d) Vasco da Gama (o time de futebol, e não o navegador)

Aos que assinalaram a opção (a) ou (b), uma conferida no site/blog http://rockemportugal.blogspot.com/ pode servir para oxigenar as idéias. Seu criador, Aristides Duarte, além de atuar como professor do Ensino Fundamental (!) no Distrito da Guarda (Concelho de Sabugal – em Portugal, onde mais?), acabou de lançar a terceira edição, revista e actualizada, do livro Memórias do rock português. Funcionando para o “rock de tamancos” como o BRock de Arthur Dapieve funciona para o “rock de bermudas” (estereótipos à parte), o livro parte de uma breve trajetória histórica do rock and roll em Portugal desde os anos 60 até hoje, para em seguida se deter nas biografias das bandas e artistas mais representativos, como os veteranos do Xutos & Pontapés, GNR, UHF e Rui Veloso, bem como os novos Clã e Mão Morta.

Em que se pesem as eventuais derrapadas que toda obra gestada no peito e na raça geralmente apresenta (como foi editado pelo próprio autor, o livro é bastante problemático no quesito revisão), as Memórias... de Aristides acabam se configurando como referência bibliográfica indispensável sobre o assunto, já que A arte eléctrica de ser português – 25 anos de rock’n Portugal (1984), de Gonçalo Duarte, está esgotado há décadas. O blog, por sua vez, disponibiliza vídeos, fotos e capas de alguns discos clássicos. É curioso perceber como as trajetórias midiáticas destes dois “rocks nacionais” em muito se assemelham, embora saibamos muito pouco ou quase nada a respeito do rock d’Além-Mar.

A pesquisa “Ruídos e assimetrias no intercâmbio Brasil-Portugal: consumo musical e identidades juvenis entre a ‘modernidade’ e a ‘tradição’”, que desenvolverei como aluno do doutorado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense a partir deste ano, gira em torno destas e de outras questões, relacionadas à música popular massiva portuguesa contemporânea, sobretudo em seu diálogo (às vezes silencioso, na maioria das vezes inexistente) com o imaginário musical brasileiro. Lançar uma luz sobre esse rock português, virtualmente desconhecido entre nós, será um dos objetivos das minhas intervenções neste espaço do LabCULT.

Sejam bem vindos à discussão, ó pá.