segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Reflexões natalinas sobre um pós-doc de inverno






Tenho postado pouco aqui no blog. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, nesta reta final da minha estada por aqui. na McGill.


Fico até janeiro.Mas, já estou sentindo o gosto de reta final porque fechamos o curso do Sterne, na semana passada. Com direito a chopp e almoço festivo.( E mais uma festa final que ainda vai acontecer no dia 13...oba! )

E, após participar de uma banca de doutorado, na última sexta, me senti, de certa maneira, concluindo os compromissos acadêmicos "oficiais".

Pois, dezembro, aqui como aí, é mês de celebrações.

Mas, porque este papo todo meio "nariz de cera"? Porque as pessoas têm me perguntado se estou gostando a experiência. E, do início até este finalzinho de temporada, minha sensação é de enorme satisfação pessoal e profissional.


Primeiro, pelo lado acadêmico da história. Ao invés de ficar "solta" como fazem muitos colegas, escolhi me vincular e me dedicar efetivamente ao grupo de pesquisa e ao curso de pós do Jonathan Sterne. Isto resultou não só numa possibilidade de reflexão e discussão muito produtiva em torno do tema dos "Sound Studies", como em conversas muito legais.

Confesso que nos primeiros encontros eu me sentia numa posição meio incômoda. Devo falar ou não, o que é que eu faço na sala de aula? Afinal, há uns dez anos que só sento na cadeira de professora e aqui eu não sou nem professora nem aluna."Visitor Professor" é a minha posição.Um pouco professor, mas um tanto "visitor".

Mas, depois de umas aulas, relaxei. E aí foi bem legal participar das discussões, apresentar a minha pesquisa para os alunos e entrar em contato com a cultura universitária daqui. Muitas idéias, um calhamaço de leituras e inspiração pra discussões que pretendo compartilhar com os alunos no Brasil já no primeiro semestre, no curso que vou ministrar na pós utilizando a bibliografia pesquisada .(em breve divulgo as informações sobre o curso).

E, junto com isto, a alegria de confirmar minha expectativas de interlocução com o Sterne para o meu trabalho - a quem eu só conhecia da obra Audible Past. Arguto, delicado, irônico, um tanto workholic como nós, com um humor delicioso e comentários acadêmicos precisos, o cara é ainda melhor ao vivo do que no livro - se é que isto é possível. Pra vcs terem uma idéia - eu fui comentar que tinha vontade de conhecer os subúrbios da cidade e ele inventou um passeio pelos arredores cujo ápice foi um restaurante indiano suburbano, cafona e delicioso, neste sábado passado, dizendo que ele também adora estas incursões mas nunca tem companhia pra ir.

Tem também o Will Straw - meu colega e vizinho de "office" do andar de baixo da McGill- nossas salas ficam perto uma da outra e a gente volta e meia se esbarra na escada, toma um café e troca boas idéias acadêmicas.Uma das figuras mais encantadoras, gentis, delicadas, sensíveis e inteligentes...cuja amizade, por sinal, herdei de outro querido, que é o Jeder Janotti, da UFBa.

Participei de uma banca a convite dele, Will, na sexta. Sobre a indústria da música no Canadá de 1970 a 1998. (a referência completa é "Making Canadian Music Industry Policy 1970-1998." Autor - Richard Sutherland). 350 páginas de informação detalhada e documentada, que valeu o esforço da leitura, pois a discussão foi ótima, sem falar no papo e no vinho depois da defesa.


E acho que o conjunto destas experiências é muito legal, pois envolve afetos e experiências que se estendem para além do estritamente profissional.

Mas, junto com isto, tem outras coisas bacanas que o pós-doutorado permite. Em primeiro lugar, tempo - para ler, pensar, parar, fazer nada de vez em quando, processar as reflexões.

Segundo, lidar com a diferença cultural e tudo que isto implica - desde a "etiqueta acadêmica", ao cotidiano de outra língua (no caso, DUAS), os hábitos culturais e tudo mais.

E ainda tem a mudança cultural mais ampla - descobrir uma cidade adorável como Montreal, explorar os bares, as livrarias, os museus;voltar aos lugares que a gente gostou, tomar um café, andar de bicicleta, ir ao Jardim Botânico, ficar amiga do casal que aluga o apartamento pra gente e que acaba de ter um baby chamado Stella, que mora no andar de cima. Descobrir que o frio pode ser razoável quando se tem uma boa bota e um casaco de pena de ganso, ver a primeira neve cair, encontrar uma echarpe linda que custa 3 dõlares no brechó da esquina de casa, mais uma bota italiana espetacular por dez dólares.

E ainda ir pra acadenia de ginástica com a temperatura a menos 10, e achar que se está na Jamaica - pois toca reggae, tem céu azul e sol do lado de fora e o lugar está superaquecido, com todo mundo de camiseta, suando. E à noite, quanto mais frio, mais os bares enchem, mais se bebe e se enlouquece por aqui. Pequenos prazeres que valem a vida, né!


Por conta disto tudo, adoro esta cidade.Pois ela não é grandiosa, mas é absurdamente cosmpolita e charmosa. Me sinto à vontade, em casa, tanto quanto no Rio.Mesmo quando os termômetros lá fora marcam menos doze graus, como hoje, dá pra ser feliz em Montreal. E, sim, "contra dor, moléstia, crime", todo professor merece um pós-doc num lugar legal. No mínimo seis meses, que ninguém é de ferro!!


PS - A foto é da estátua do Mr Mcgill, lá no campus, todo branquinho da primeira neve que caiu em Montreal.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

De frente pro crime?


Acabei de ler uma matéria sobre o projeto "Immersion" do foto-jornalista britânico Robbie Cooper. A partir de câmeras instaladas atrás de telas translúcidas, técnica criada pelo documentarista americano Errol Morris, Cooper registrou as expressões faciais de crianças ao serem expostas a jogos tidos violentos e cenas de TV e internet retratando guerras.




O projeto está associado à uma pesquisa acadêmica do Centro de Mídia da Bournemouth University, na Grã-Bretanha que vai tentar analisar as reações de cada criança em seus aspectos psicológicos e sociais.




O fotógrafo diz que não possui ainda uma expectativa sobre a pesquisa. Mas essa é, sem dúvida, mais uma oportunidade para se discutir (ou apontar) a relação entre violência e o impacto midiático. E algo me diz que a mídia vai sair perdendo.

"Tira o PÓ do chão"

Só para completar o post do Heitor. Afinal, nada como ver e ouvir para crer no Axé-católico.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PÓ PARAR COM PÓ



Esse é o título do sucesso (que já conta com mais de 250 mil acessos no Youtube) da cantora Jake, uma católica fervorosa que se dedica a juntar micaretas e fé em sua pioneira cruzada pelo axé católico. A música composta por Jake é uma clara mensagem contra o vício em cocaína (engraçado que "Pó Parar com Pó", rima com "Ó Paí Ó!" - Alguém - Jefferson?!? - pode explicar os fundamentos dessa baianidade nagô do axé?rs). O sonho da moça é puxar uma micareta com o Padre Marcelo Rossi na Avenida Paulista, de acordo com essa matéria.

Encontrei o link do youtube, mas não consegui fazer o upload do vídeo!

Fórum Livre do Direito Autoral na UFRJ

A Escola de Comunicação da UFRJ promoverá, nos dias 15, 16 e 17 de dezembro, o "Fórum Livre de Direito Autoral - O Domínio do Comum", em parceria com o Ministério da Cultura (MinC) e a Rede Universidade Nômade.

De acordo com a assessoria, "o Fórum se propõe a ampliar as discussões sobre os impasses da atual legislação de propriedade intelectual, buscando compatibilizar a proteção legal dos direitos com o acesso à cultura, num cenário de mudanças sociais e tecnológicas que subverte as relações tradicionais com o direito autoral. (...) A Cultura do compartilhamento e da cópia, o uso educacional e não-comercial de filmes, livros e música, o direito de acesso aos bens culturais, a criminalização dos consumidores, as novas formas de negócios "abertos", o domínio público, as novas formas de licenciamento e de remuneração do autor e os impasses e desafios para criadores, produtores e consumidores de cultura e seus agentes serão debatidos por teóricos, professores universitários, advogados, líderes de movimentos sociais e empresários, estudantes de Comunicação, Direito, Economia, criadores, etc".

Ao final do Fórum, as propostas discutidas ao longo de três dias serão encaminhadas para o Ministério da Cultura em carta aberta da sociedade civil propondo mudanças na legislação.

Inscrições e maiores informações no site: http://forumdireitoautoral.pontaodaeco.org/

Endereço:
Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ (Auditório Pedro Calmon)
Avenida Pasteur 250 - Campus Praia Vermelha - Rio de Janeiro

Programação:
Segunda-feira 15 de dezembro
8h às 9h - Credenciamento e Café da Manhã
9h - Abertura: Ministério da Cultura (CGDA-MinC), Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ e Rede Universidade Nômade

Mesa 1 (9h30) - A Constituição do Comum. Produção Intelectual no Capitalismo Cognitivo (com tradução)
Michael Hardt, co-autor de Império e Multidão (Universidade de Duke, Carolina do Norte)
Yann Moulier-Boutang (Université de Technologie de Compiègne, França)
Mediador: Tatiana Roque (IM/UFRJ)
Debatedor: Cesar Altamira (Universidad Nómada, Argentina)

Mesa 2 (14h-17h) - Proprietários e Piratas. A crise dos limites entre legalidade e ilegalidade: Mudanças na Lei
Pablo Ortellado (GPOPAI/USP)
Joaquín Herrera (Universidad Pablo Olavide-UPO, Espanha)
Henrique Antoun (ECO/UFRJ)
Guilherme Carboni (FAAP/Direito)
Mediador: Alexandre Mendes (Direito/UERJ)
Debatedor: Francisco de Guimaraens (PUC/Rio)

Mesa 3 (18h-21h) - Conferência de Abertura: Antonio Negri (com tradução)
Antonio Negri é autor de 'Império' e 'Multidão'. A mesa conta com aparticipação de Tarso Genro (Ministro da Justiça), Aloísio Teixeira (Reitorda UFRJ), Ivana Bentes (ECO/UFRJ e Universidade Nômade) e Giuseppe Cocco (ESS/UFRJ e Universidade Nômade)

Terça-feira 16 de dezembro
8h - Café da Manhã

Mesa 4 (9h) - O Consumidor-Produtor (com tradução)
Christian Marazzi (Scuola Universitaria della Svizzera Italiana)
Estela Waksberg Guerrini (Instituto de Defesa do Consumidor - IDEC)
Fabio Malini (UFES)
Paulo Henrique de Almeida (UFBA)
Mediador: Gilvan Vilarim, Revista LUGAR COMUM
Debatedor: Allan Rocha de Souza (UERJ e INPI)

Mesa 5 (11h30) - Interesse Público e Proteção Privada - Usos livres, educacionais e não-comerciais de Conteúdos Protegidos
Jorge Machado (GPOPAI-USP)
Leandro Mendonça (UFF)
Muniz Sodré (Biblioteca Nacional)
Flávia Goulart (Vice-presidente da Abeu e diretora da Editora da UFBA -EdUFBA)
Mediador: Alex Patez Galvão (ANCINE)
Debatedor: Mauricio Rocha (UERJ)

Mesa 6 (14h30-17h) - Redes Colaborativas, Pontos de Cultura e Mídia, Travas Tecnológicas
Sérgio Amadeu (Faculdade Cásper Libero)
Célio Turino (SPPC- MinC)
Ivana Bentes (ECO/UFRJ)
Barbara Szaniecki (Revista Global/Universidade Nômade)
Mediador: Leonora Corsini, LABTeC/UFRJ e Universidade Nômade
Debatedor: Sarita Albagli (IBICTS)

Quarta-feira 17 de dezembro
8h - Café da Manhã

Mesa 7 (9h) - Novas Formas de Licenciamentos
Bráulio Araújo - Intervozes
Claudio Prado - Laboratório Brasileiro de Cultural Digital
João Baptista Pimentel Neto (Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros)
Oona Castro (Overmundo)
Mediador: Giuliano Djahjah (Pontão de Cultura Digital da ECO)
Debatedor: Antonio Martins (Le Monde Diplomatique)

Mesa 8 (13h) - Encerramento: Fórum Livre
Desconferências a partir da inscrição dos participantes e pré-inscritos (10min.) para sintetizar os 3 dias de debates e direcionar para a proposta do documento em relação às mudanças da lei.

ARGs marcam presença no Game_Cultura

No final de novembro, foi dada a partida na terceira edição do Game_Cultura, um dos principais eventos de games do Brasil, organizado pelo SESC. São quase dois meses de atividades relacionadas aos jogos eletrônicos –exposições, workshops, mostra de jogos, palestras, campeonatos, mesas temáticas e debates.
Hoje, às 19:30, irei ministrar a conferência “Pervasive Games & Marketing Viral. O papel do ARG em Meu Nome Não é Johnny”. A idéia é descrever como foi meu trabalho na criação e produção do Alternate Reality Game do principal sucesso de bilheteria do cinema nacional, em 2008. Além disso, pretendo contribuir para a popularização dos ARGs no cenário brasileiro.
Para quem quiser conferir, o evento será no SESC Pompéia, localizado na Rua Clélia, 93, Pompéia, São Paulo-SP. A palestra começa as 19:30 e a entrada é franca.

Jornalismo e games no III CONECO

Na semana passada, estive no Rio de Janeiro participando da terceira edição do CONECO – Congresso dos Estudantes de Pós-Graduação em Comunicação. Além do orgulho de ver crescer o evento do qual fui um dos idealizadores, em 2006, pude participar pela terceira vez em um grupo de trabalho diferente. Desta vez, o GT escolhido foi o de Jornalismo e a minha questão foi “espinhenta”: existe alguma relação entre os jogos eletrônicos e os blogs jornalísticos?

No artigo “Games em Pauta. A relação entre jogos eletrônicos, blogs e jornalismo online” trabalhei um formato novíssimo chamado Newsgames – jogos eletrônicos feitos a com base em fatos jornalísticos ou acontecimentos em curso. Fiz minha a pesquisa a partir de uma consistente revisão bibliográfica da teoria recente acerca dos estudos de jornalismo e Web 2.0, realizada durante a disciplina de Jornalismo Online aqui na UFBA. Em seguida, foram dois “longos” meses jogando games como Corra, Ronaldo, Corra!; o clássico Madrid, Bill Gates VS Steve Jobs; Super Obama World; Street Obama, dentre outros. Depois destas duas etapas, pude concluir que estes Newsgames, a exemplo dos Blogs jornalísticos, traduzem uma forma de jornalismo participativo. Além disso, o formato vai de encontro a algumas teorias da Cibercultura, traduzindo uma forma de remediação da notícia, contrariando quem chama estes jogos de emuladores de notícia. O que está em jogo é a alternativa de, em vez de ler a matéria em algum Jornal, assistir na televisão, ouvir no rádio ou acessá-la na internet eu posso jogar com o fato, em forma de videogame.

Li em outro blog que a versão móbile pode tornar estes jogos mais populares, um a vez que assim poderemos interagir com notícia em mobilidade no espaço urbano, pelo celular, da mesma maneira que leio um jornal.

Em breve o artigo estará disponível no site do CONECO e deixarei o link aqui no Blog.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

"A tasca do Chico convida-o a cantar o fado às segundas e quartas-feiras. Aqui, a tradição ainda é o que era."

...talvez em contraposição às casas que cobram no mínimo 20 e no máximo 60 euros por pessoa para se jantar e assistir aos espetáculos da fado. Na Tasca do Chico, não se paga consumação e não se faz reserva. Fado vadio com data e hora marcada – algo, a princípio, contraditório com os próprios códigos do gênero. Há pôsteres na parede, fotos de revista e matérias de jornal envolvendo grandes nomes do fado, mas também cartazes do Cabaret Maxime, clube muderno lisboeta por excelência.

Às 21h30, terminado o jogo do F.C. Porto que estava sendo transmitido pela TV, reduzem-se as luzes e a cantoria começa. Eu, que cheguei cedo e consegui me acomodar confortavelmente no canto do salão, perto da janela e da porta de saída, agora estou imprensado contra a parede, por um casal que sentou-se ao meu lado. A Tasca do Chico enche consideravelmente durante a rodada de fados e depois esvazia de novo, antes que um novo time de fadistas comece a cantar. Rotatividade elevada. Por motivo de segurança (financeira) da casa, o pagamento pelos comes e bebes é feito no momento em que o pedido chega à mesa. E talvez em respeito à tradição do silêncio absoluto que pontua as apresentações de fado, durante a cantoria o atendimento é suspenso.
Os preços são salgados. Na platéia, predominam turistas. Fico me perguntando se a diferença entre a Tasca do Chico e as casas oficialmente turísticas, como o Faia e o Senhor Vinho, não seria a construção de uma idéia de espontaneidade que tornaria a experiência vivida no Chico mais autêntica do que nas demais, espécie de equivalente lusitano à diferença entre uma roda de samba no Estrela da Lapa e um show de mulatas no Plataforma.

A despeito da ausência de uma taxa de ingresso salgada, permanece o mesmo espírito ritualístico, materializado em gestos minimamente calculados, que caracteriza o fado as we know it. Mas que há uma maior abertura ao impoderável, lá isso há. Na segunda rodada de fados da noite, um velhinho muito velhinho se põe a cantar e, não se sabe se em virtude do ruído intermitente dentro e fora da Tasca, ou por obra e graça da idade, esquece a letra da canção (ok, prefiro não ser cínico ao ponto de pensar numa amnésia programada). O mestre de cerimônias da noite desloca o homem da guitarra portuguesa para assumir os vocais, e ele responde de bate pronto, tirando da cartola um punhado de melodias. É quando acontece a surpresa mais surpreendente da noite, uma versão fadista de “Veja bem meu bem”, dos Los Hermanos, que na Tasca do Chico virou “Veja lá meu bem”, o que me faz lembrar que eu preciso ser mais rápido no gatilho e ter sempre um gravador em mãos para registrar esse tipo de coisa. Ao reacenderem-se as luzes, atravesso o caminho do guitarrista-então-cantor para perguntar, inocentemente, de quem era aquela canção. “Da Maria Rita, a filha da Elis”, ele me garante, “de um disco que não é o último”, ao que eu imediatemente retruco, já depois de uns copitos de vinho e movido por um questionável impulso rock and roll brazuca, “Não é não. É de um camarada chamado Marcelo Camelo”. Quem diria que eu viria a Portugal para bancar o fã de Los Hermanos...

Lá pelas tantas, sobe ao “palco” a primeira fadista da noite. Daniela aparenta ter seus 20 e menos anos e usa um vestido amarelo com flor de tricô na lapela que autorizaria fácil fácil sua entrada numa Casa da Matriz da vida. Esqueçam os xales negros: indie toda a vida, Daniela toma o último gole de sua taça de vinho, dá uma pigarreada e começa a cantar. O barulho que tanto havia incomodado os performers anteriores desaparece de súbito. Há um crescer de expectativas quando uma mulher se põe a cantar o fado. Grandes fadistas homens sempre houve e sempre haverá, basta lembrarmos de Alfredo Marceneiro, da lenda viva Carlos do Carmo e do jovem Camané, cada qual com seu estilo particular, mas a performance destes tende a estar muito mais alinhada com a tradição da chanson européia, da estirpe de um Jacques Brel, por exemplo, do que com aquilo que se consagrou como fado no imaginário coletivo. Este é, com certeza, percebido como um gênero “feminino por excelência”. Do improviso descompromissado de uma Daniela, sempre pode despontar uma nova Mariza, uma nova Dulce, uma nova Amália, se calhar mesmo uma nova Severa, cuja lenda reza ter sido a primeira fadista a romper a barreira de classe que separava os salões da elite e os baixos estratos da sociedade (marinheiros, prostitutas, criminosos arraia-miúda) em cujo o seio o fado, de certa forma, “nasceu”, após chegar do Brasil na bagagem dos escravos, numa configuração bastante distinta.

“Canta bem, mas falta-lhe presença”, foi o comentário sobre a apresentação de Daniela que ouvi ao deixar a Tasca do Chico. Pode até ser. Mas o fado de o repertório da moça não ter incluído os (óbvios) hits fadistas “Foi Deus” ou “Estranha forma de vida” já fez a noite valer a pena.