Às 21h30, terminado o jogo do F.C. Porto que estava sendo transmitido pela TV, reduzem-se as luzes e a cantoria começa. Eu, que cheguei cedo e consegui me acomodar confortavelmente no canto do salão, perto da janela e da porta de saída, agora estou imprensado contra a parede, por um casal que sentou-se ao meu lado. A Tasca do Chico enche consideravelmente durante a rodada de fados e depois esvazia de novo, antes que um novo time de fadistas comece a cantar. Rotatividade elevada. Por motivo de segurança (financeira) da casa, o pagamento pelos comes e bebes é feito no momento em que o pedido chega à mesa. E talvez em respeito à tradição do silêncio absoluto que pontua as apresentações de fado, durante a cantoria o atendimento é suspenso.
Os preços são salgados. Na platéia, predominam turistas. Fico me perguntando se a diferença entre a Tasca do Chico e as casas oficialmente turísticas, como o Faia e o Senhor Vinho, não seria a construção de uma idéia de espontaneidade que tornaria a experiência vivida no Chico mais autêntica do que nas demais, espécie de equivalente lusitano à diferença entre uma roda de samba no Estrela da Lapa e um show de mulatas no Plataforma.
A despeito da ausência de uma taxa de ingresso salgada, permanece o mesmo espírito ritualístico, materializado em gestos minimamente calculados, que caracteriza o fado as we know it. Mas que há uma maior abertura ao impoderável, lá isso há. Na segunda rodada de fados da noite, um velhinho muito velhinho se põe a cantar e, não se sabe se em virtude do ruído intermitente dentro e fora da Tasca, ou por obra e graça da idade, esquece a letra da canção (ok, prefiro não ser cínico ao ponto de pensar numa amnésia programada). O mestre de cerimônias da noite desloca o homem da guitarra portuguesa para assumir os vocais, e ele responde de bate pronto, tirando da cartola um punhado de melodias. É quando acontece a surpresa mais surpreendente da noite, uma versão fadista de “Veja bem meu bem”, dos Los Hermanos, que na Tasca do Chico virou “Veja lá meu bem”, o que me faz lembrar que eu preciso ser mais rápido no gatilho e ter sempre um gravador em mãos para registrar esse tipo de coisa. Ao reacenderem-se as luzes, atravesso o caminho do guitarrista-então-cantor para perguntar, inocentemente, de quem era aquela canção. “Da Maria Rita, a filha da Elis”, ele me garante, “de um disco que não é o último”, ao que eu imediatemente retruco, já depois de uns copitos de vinho e movido por um questionável impulso rock and roll brazuca, “Não é não. É de um camarada chamado Marcelo Camelo”. Quem diria que eu viria a Portugal para bancar o fã de Los Hermanos...
“Canta bem, mas falta-lhe presença”, foi o comentário sobre a apresentação de Daniela que ouvi ao deixar a Tasca do Chico. Pode até ser. Mas o fado de o repertório da moça não ter incluído os (óbvios) hits fadistas “Foi Deus” ou “Estranha forma de vida” já fez a noite valer a pena.
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