terça-feira, 2 de dezembro de 2008

"A tasca do Chico convida-o a cantar o fado às segundas e quartas-feiras. Aqui, a tradição ainda é o que era."

...talvez em contraposição às casas que cobram no mínimo 20 e no máximo 60 euros por pessoa para se jantar e assistir aos espetáculos da fado. Na Tasca do Chico, não se paga consumação e não se faz reserva. Fado vadio com data e hora marcada – algo, a princípio, contraditório com os próprios códigos do gênero. Há pôsteres na parede, fotos de revista e matérias de jornal envolvendo grandes nomes do fado, mas também cartazes do Cabaret Maxime, clube muderno lisboeta por excelência.

Às 21h30, terminado o jogo do F.C. Porto que estava sendo transmitido pela TV, reduzem-se as luzes e a cantoria começa. Eu, que cheguei cedo e consegui me acomodar confortavelmente no canto do salão, perto da janela e da porta de saída, agora estou imprensado contra a parede, por um casal que sentou-se ao meu lado. A Tasca do Chico enche consideravelmente durante a rodada de fados e depois esvazia de novo, antes que um novo time de fadistas comece a cantar. Rotatividade elevada. Por motivo de segurança (financeira) da casa, o pagamento pelos comes e bebes é feito no momento em que o pedido chega à mesa. E talvez em respeito à tradição do silêncio absoluto que pontua as apresentações de fado, durante a cantoria o atendimento é suspenso.
Os preços são salgados. Na platéia, predominam turistas. Fico me perguntando se a diferença entre a Tasca do Chico e as casas oficialmente turísticas, como o Faia e o Senhor Vinho, não seria a construção de uma idéia de espontaneidade que tornaria a experiência vivida no Chico mais autêntica do que nas demais, espécie de equivalente lusitano à diferença entre uma roda de samba no Estrela da Lapa e um show de mulatas no Plataforma.

A despeito da ausência de uma taxa de ingresso salgada, permanece o mesmo espírito ritualístico, materializado em gestos minimamente calculados, que caracteriza o fado as we know it. Mas que há uma maior abertura ao impoderável, lá isso há. Na segunda rodada de fados da noite, um velhinho muito velhinho se põe a cantar e, não se sabe se em virtude do ruído intermitente dentro e fora da Tasca, ou por obra e graça da idade, esquece a letra da canção (ok, prefiro não ser cínico ao ponto de pensar numa amnésia programada). O mestre de cerimônias da noite desloca o homem da guitarra portuguesa para assumir os vocais, e ele responde de bate pronto, tirando da cartola um punhado de melodias. É quando acontece a surpresa mais surpreendente da noite, uma versão fadista de “Veja bem meu bem”, dos Los Hermanos, que na Tasca do Chico virou “Veja lá meu bem”, o que me faz lembrar que eu preciso ser mais rápido no gatilho e ter sempre um gravador em mãos para registrar esse tipo de coisa. Ao reacenderem-se as luzes, atravesso o caminho do guitarrista-então-cantor para perguntar, inocentemente, de quem era aquela canção. “Da Maria Rita, a filha da Elis”, ele me garante, “de um disco que não é o último”, ao que eu imediatemente retruco, já depois de uns copitos de vinho e movido por um questionável impulso rock and roll brazuca, “Não é não. É de um camarada chamado Marcelo Camelo”. Quem diria que eu viria a Portugal para bancar o fã de Los Hermanos...

Lá pelas tantas, sobe ao “palco” a primeira fadista da noite. Daniela aparenta ter seus 20 e menos anos e usa um vestido amarelo com flor de tricô na lapela que autorizaria fácil fácil sua entrada numa Casa da Matriz da vida. Esqueçam os xales negros: indie toda a vida, Daniela toma o último gole de sua taça de vinho, dá uma pigarreada e começa a cantar. O barulho que tanto havia incomodado os performers anteriores desaparece de súbito. Há um crescer de expectativas quando uma mulher se põe a cantar o fado. Grandes fadistas homens sempre houve e sempre haverá, basta lembrarmos de Alfredo Marceneiro, da lenda viva Carlos do Carmo e do jovem Camané, cada qual com seu estilo particular, mas a performance destes tende a estar muito mais alinhada com a tradição da chanson européia, da estirpe de um Jacques Brel, por exemplo, do que com aquilo que se consagrou como fado no imaginário coletivo. Este é, com certeza, percebido como um gênero “feminino por excelência”. Do improviso descompromissado de uma Daniela, sempre pode despontar uma nova Mariza, uma nova Dulce, uma nova Amália, se calhar mesmo uma nova Severa, cuja lenda reza ter sido a primeira fadista a romper a barreira de classe que separava os salões da elite e os baixos estratos da sociedade (marinheiros, prostitutas, criminosos arraia-miúda) em cujo o seio o fado, de certa forma, “nasceu”, após chegar do Brasil na bagagem dos escravos, numa configuração bastante distinta.

“Canta bem, mas falta-lhe presença”, foi o comentário sobre a apresentação de Daniela que ouvi ao deixar a Tasca do Chico. Pode até ser. Mas o fado de o repertório da moça não ter incluído os (óbvios) hits fadistas “Foi Deus” ou “Estranha forma de vida” já fez a noite valer a pena.

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