terça-feira, 16 de dezembro de 2008

"A arte de roubar" idéias e ver o público escorrer por "Entre os dedos"

Havia três filmes portugueses em cartaz nos cinemas de Lisboa quando lá cheguei. Se é verdade o que me informou o realizador Jorge Queiroga (cujo longa, “Atrás das nuvens”, foi exibido na mostra Geração do Festival do Rio de 2007), quando disse que a produção anual lusa gira em torno de uma média de 10 filmes, dá pra dizer que o mês de outubro foi particularmente rico, não?


Tanto em Portugal quanto no Brasil, há um dado bastante cruel no que diz respeito à permanência em cartaz dos filmes nacionais: chegando às telas um blockbuster made in USA, as já escassas salas exibindo produções portuguesas (e que além de poucas são concentradas, quase sempre, em Lisboa e no Porto – no interior ou em cidades menores praticamente não há cinemas; o que acontece vez por outra é alguma alma caridosa levar para o Salão de Festas da paróquia ou clube local algum lançamento embolorado, tipo “Wall-E” no Concelho de Nelas) subitamente mudam suas programações. Nessa brincadeira, perdi “Mal nascida”, de João Canijo, cineasta cuja trajetória desconheço, e vi meu muito querido “...Mês de agosto” ser varrido para o espaço. Restou-me o recém-lançado “Entre os dedos”, segundo longa da dupla Tiago Guedes e Frederico Serra, os mesmos realizadores do auspicioso thriller psicológico de terror familiar (ou seria o contrário?) “Coisa ruim”, já comentado neste blog.


Num registro radicalmente diferente, embora ainda tangenciando o universo dos conflitos afetivos de uma Lisboa contemporânea, “Entre os dedos” afasta-se do cinema de gênero e mergulha fundo na pesquisa de linguagem que caracteriza uma certa vertente (eu diria hegemônica) do cinema português: fotografia em preto e branco, altamente contrastada; câmera na mão, nervosa, com predomínio de closes sufocantes; interpretações viscerais e, como cenário, uma Lisboa sem vestígios de cartão postal, em que os bondes e o casario da Alfama dão lugar ao clima barra pesada dos guetos e bairros sociais da região de Amadora, na periferia da capital. É certamente menos acessível do que “Coisa ruim” (prova disso foi a meia dúzia de três gatos pingados compartilhando a sessão comigo), o que não deixa de ser um problema, pois ao fim e ao cabo, “Entre os dedos” acaba se tornando mais um filme português árido e de difícil comunicação com o público, que decerto será varrido das telas quando o próximo hit hollywoodiano estrear.


E eis que no mesmo final de semana em que o novo 007 entra de sola nos cinemas de todo o mundo, “A arte de roubar”, novo filme de Leonel Vieira, é atirado às feras. As referências, vocês hão de concordar comigo, não são das mais animadoras: Vieira é o realizador do mal-ajambrado “O julgamento”, cartaz do último Festival do Rio; o trio de atores principais de seu último longa – Ivo Canelas, Soraia Chaves e Nicolau Breyner – são os mesmos do me-do-nho “Call girl”. E como se já não fosse o bastante, o filme ainda é falado em inglês (!!), embora seja uma co-produção luso-espanhola, sobre dois bandidos de meia-tigela que resolvem aplicar um golpe envolvendo o roubo de um Van Gogh e se metem num sarilho capaz de sorver Tarantino e Robert Rodriguez até a última gota.


Com tantas credenciais negativas, chega a ser uma surpresa que “A arte de roubar”, embora esteja longe de ser bom, até se configure como um bom passatempo. A piada de português contada em inglês perde a graça na primeira meia-hora, e aí vale pro filme de Leonel Vieira o mesmo que se aplica às bandas lusas que cantam na língua de Barack Obama: quem há de preferir a versão à portuguesa de um gênero – a comédia de erros hiper-violenta - que Hollywood sabe fazer (e vender) muito melhor (haja vista o último dos irmãos Coen, uma bobagem tão inócua quanto “A arte de roubar”, e no entanto...)?




A despeito de ser tecnicamente bem feitinho e menos televisivo (nos enquadramentos, na fotografia e nas atuações, propositadamente caricatas, aliás) do que a média do atual cinema português de entretenimento, ainda falta ao roteiro se decidir entre a ilusão de coerência e o total descacetamento, que parece funcionar muito melhor dentro da proposta do filme (sei que “A arte de roubar” jamais deve estrear por estas bandas, então vou poupá-los de descrições exaustivas “daquela cena bacana”, mas há uma seqüência envolvendo um pseudo-zumbi que consegue ser genuinamente engraçada).


No final das contas, ainda prefiro “A arte de roubar” a produções de época empoladas como “O mistério da Estrada de Sintra”, de Jorge Paixão da Costa, que estreou nos cinemas cariocas (ou melhor dizendo, em um único cinema carioca – a sala 9 do UCI New York City Center – e já saiu de cartaz depois de duas semanas) pouco tempo depois do meu retorno. Estão ali, em série, todos os problemas do cinema português contemporâneo: excesso de fidelidade à matriz literária (no caso, o livro-folhetim homônimo de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão), total inabilidade para filmar cenas eróticas (a ponto de fazer Neville d’Almeida e seus colegas de pornochanchada parecerem gênios da arte) e... Ivo Canelas no elenco. Não à toa, fui o único ser humano que se dispôs a pagar ingresso naquela sessão. Na “Arte de roubar”, pelo menos, haviam três espectadores...


PS.: Dando prosseguimento à minha obsessão de conhecer todos os cinemas de Lisboa, fui assistir ao filme de Leonel Vieira no Multiplex Lusomundo do Shopping Colombo, distante uns 20 minutos de metrô do centro velho da capital. Minha mãe costumava me contar que os cinemas em Portugal faziam intervalos no meio dos filmes, e eu a chamava de velha pra baixo. E não é que lá pela metade de “A arte de roubar” (que com seus aceitáveis 108 minutos nem era assim um “Era uma vez na América” em termos de duração) rolou uma interrupção? Julgava que essas coisas não acontecessem mais... Imagina se a moda pega no Brasil?

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