Em primeiro lugar, é interessante ressaltar nesta pesquisa o mérito de considerar tanto os telecentros e bibliotecas públicas quanto as lan houses e os cibercafés como espaços importantes para se pensar como as TICs são apropriadas pelas pessoas e que papel elas podem exercer no desenvolvimento social e na diminuição das desigualdades existentes nestes países. Como eu discuti na dissertação de mestrado, a maior parte dos trabalhos acadêmicos sobre o que tem sido chamado de "inclusão digital" tem como objeto apenas os centros públicos de acesso gratuito, mantidos por governos ou por ONGs, e desconsidera os centros de acesso pago, sob o argumento de que estes seriam espaços de entretenimento subordinados à lógica do mercado. No Brasil, desconsiderar as lan houses e os cibercafés é fechar os olhos para uma realidade na qual, segunda a última TIC Domicílios (2009), pesquisa realizada pelo CGI.br, 45% dos acessos se dão nestes centros de acesso pago, enquanto apenas 4% acontecem em centros de acesso gratuito.
Outro ponto interessante do estudo é trazer uma análise comparada sobre a utilização das TICs nos 23 países. Cabe ressaltar que, como a pesquisa tinha o objetivo claro de analisar o acesso a informações, não há aprofundamento da comparação entre os diversos usos - lazer, sociabilidade, educação, etc. - que podem ser atribuídos pelos usuários a estes espaços em contextos diversos. No entanto, algumas comparações mais gerais indicam características comuns e que foram observadas também no meu trabalho de campo, realizado em uma comunidade de baixa renda de Niterói (RJ). São espaços frequentados predominantemente por jovens, em busca de comunicação, entretenimento, educação. A maior parte dos frequentadores é composta por homens, o que reflete diferenças mais amplas de gênero existentes nesses países, embora haja exceções, reflexo de situações sociais mais abrangentes mais do que de igualdade entre gêneros. É o caso do Nepal, em que o número de mulheres e homens nos telecentros é mais ou menos igual, e muitas mulheres frequentam os espaços para conversar com seus maridos que foram para o exterior para estudar ou trabalhar.
Segundo o estudo, os espaços são pouco utilizados pelos frequentadores para conseguir as informações de que necessitam em sua vida cotidiana (como trabalho, educação, saúde, cultura, transporte, serviços de governo e inclusão social), mesmo aqueles montados com esta finalidade, como os telecentros e as bibliotecas públicas. As informações são encontradas com mais frequencia em outros locais, como os meios de comunicação de massa e instituições como escolas, igrejas e governos. Nos centros, entendidos pela pesquisa como centros comunitários e não só como locais de acesso à rede mundial de computadores, há pouca informação relevante disponível para as comunidades e os frequentadores têm dificuldades em buscá-la na internet, seja porque não encontram os caminhos para conteúdo relevante seja porque não há conteúdo voltado para as comunidades, em linguagem local e em formatos acessíveis.
Como recomendação, o estudo fala da importância da existência de "infomediadores" que ajudem a organizar os conteúdos e a promover a ponte entre as informações disponíveis e os contextos locais. Os monitores de telecentros e bibliotecas e os funcionários de lan houses e cibercafés já cumprem, em certo nível, este papel, mas, segundo o estudo, este papel de mediador ainda é pouco exercido e acontece de maneira mais sistemática nos telecentros. Para a TASCHA, o ideal seria que estes três tipos de espaços se articulassem, de forma a complementar suas funções, e que a gestão do processo e das necessidades fosse feita por comitês locais.
Embora o foco da análise seja acesso à informação, o capítulo brasileiro foca no potencial de uso das TICs para melhorar a qualidade da educação e, consequentemente, nesta visão, o desenvolvimento social. Gostaria de chamar a atenção para a limitação desses enfoques. Não basta pensar nas TICs como acesso à informação ou como melhoria da educação para transformá-las em ferramentas para o desenvolvimento social dos países e a diminuição das desigualdades. E para ampliar a discussão, trago aqui alguns pontos levantados na conclusão da dissertação. Utilizando telecentros, lan houses, laboratórios de escolas ou pontos de cultura, acredito que os projetos de inclusão digital precisam ampliar suas metas para que possam contribuir para mudanças nas condições econômicas, políticas e sociais da população, como as citadas abaixo:
- Possibilitar o exercício da cidadania que se estende para além do acesso aos serviços do governo eletrônico e que se referem à capacidade e à possibilidade dos cidadãos participarem da esfera pública como fiscalizadores e orientadores de políticas públicas.
- Promover o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos, sua capacidade de crítica e sua capacidade de “aprender a aprender”, cada vez mais exigidas na sociedade atual, incluindo o papel do lúdico como linguagem neste processo. Outras mudanças importantes são a ênfase na autonomia e na criatividade dos sujeitos no desenvolvimento do conhecimento e na necessidade de constante aperfeiçoamento e aprendizagem. Novas formas de sociabilidade, interação e cooperação também se desenvolvem quando a mediação do computador e das redes eletrônicas passa a ser central em diversos setores da vida social.
- Incentivar o desenvolvimento tecnológico do Brasil, e não a mera inserção dos indivíduos no consumo de produtos globalizados, permitindo a autonomia do país frente às grandes potências mundiais, e a rediscussão do conceito de propriedade intelectual, de modo que o desenvolvimento tecnológico possa efetivamente contribuir para a diminuição das desigualdades entre os países.
- Elaborar os projetos sociais que envolvem tecnologia em diálogo com as próprias comunidades - entendidas não só como objetos, mas como sujeitos de políticas públicas - e com outras instituições fundamentais para o desenvolvimento dos indivíduos, sobretudo os jovens: família, escola, associações comunitárias, mídia de massa etc.
- Por fim, articular políticas de democratização do consumo e da produção de informação a outras políticas sociais mais amplas, em áreas diversas como educação, cultura, emprego, saúde, distribuição de renda e possibilidade de participação política.




