domingo, 7 de novembro de 2010

Lan houses e telecentros na América Latina: estudo comparado

Foi lançada em agosto deste ano a publicação Puntos de acceso público a la información en América Latina, com os resultados de uma pesquisa sobre acesso à informação em centros públicos de utilização de tecnologias de informação e comunicação - como telecentros, lan houses, cibercafés e bibliotecas públicas - em seis países da América Latina (Argentina, Honduras, República Dominicana, Costa Rica, Peru e Brasil). A pesquisa global, que incluiu também outros 17 países em todo o mundo, foi realizada entre 2007 e 2009, pelo TASCHA (Technology and Social Change Group), da Escola de Comunicação da Universidade de Washington, e o capítulo brasileiro foi conduzido pela Fundação Pensamento Digital.

Em primeiro lugar, é interessante ressaltar nesta pesquisa o mérito de considerar tanto os telecentros e bibliotecas públicas quanto as lan houses e os cibercafés como espaços importantes para se pensar como as TICs são apropriadas pelas pessoas e que papel elas podem exercer no desenvolvimento social e na diminuição das desigualdades existentes nestes países. Como eu discuti na dissertação de mestrado, a maior parte dos trabalhos acadêmicos sobre o que tem sido chamado de "inclusão digital" tem como objeto apenas os centros públicos de acesso gratuito, mantidos por governos ou por ONGs, e desconsidera os centros de acesso pago, sob o argumento de que estes seriam espaços de entretenimento subordinados à lógica do mercado. No Brasil, desconsiderar as lan houses e os cibercafés é fechar os olhos para uma realidade na qual, segunda a última TIC Domicílios (2009), pesquisa realizada pelo CGI.br, 45% dos acessos se dão nestes centros de acesso pago, enquanto apenas 4% acontecem em centros de acesso gratuito.

Outro ponto interessante do estudo é trazer uma análise comparada sobre a utilização das TICs nos 23 países. Cabe ressaltar que, como a pesquisa tinha o objetivo claro de analisar o acesso a informações, não há aprofundamento da comparação entre os diversos usos - lazer, sociabilidade, educação, etc. - que podem ser atribuídos pelos usuários a estes espaços em contextos diversos. No entanto, algumas comparações mais gerais indicam características comuns e que foram observadas também no meu trabalho de campo, realizado em uma comunidade de baixa renda de Niterói (RJ). São espaços frequentados predominantemente por jovens, em busca de comunicação, entretenimento, educação. A maior parte dos frequentadores é composta por homens, o que reflete diferenças mais amplas de gênero existentes nesses países, embora haja exceções, reflexo de situações sociais mais abrangentes mais do que de igualdade entre gêneros. É o caso do Nepal, em que o número de mulheres e homens nos telecentros é mais ou menos igual, e muitas mulheres frequentam os espaços para conversar com seus maridos que foram para o exterior para estudar ou trabalhar.

Segundo o estudo, os espaços são pouco utilizados pelos frequentadores para conseguir as informações de que necessitam em sua vida cotidiana (
como trabalho, educação, saúde, cultura, transporte, serviços de governo e inclusão social), mesmo aqueles montados com esta finalidade, como os telecentros e as bibliotecas públicas. As informações são encontradas com mais frequencia em outros locais, como os meios de comunicação de massa e instituições como escolas, igrejas e governos. Nos centros, entendidos pela pesquisa como centros comunitários e não só como locais de acesso à rede mundial de computadores, há pouca informação relevante disponível para as comunidades e os frequentadores têm dificuldades em buscá-la na internet, seja porque não encontram os caminhos para conteúdo relevante seja porque não há conteúdo voltado para as comunidades, em linguagem local e em formatos acessíveis.

Como recomendação, o estudo fala da importância da existência de "infomediadores" que ajudem a organizar os conteúdos e a promover a ponte entre as informações disponíveis e os contextos locais. Os monitores de telecentros e bibliotecas e os funcionários de lan houses e cibercafés já cumprem, em certo nível, este papel, mas, segundo o estudo, este papel de mediador ainda é pouco exercido e acontece de maneira mais sistemática nos telecentros. Para a TASCHA, o ideal seria que estes três tipos de espaços se articulassem, de forma a complementar suas funções, e que a gestão do processo e das necessidades fosse feita por comitês locais.

Embora o foco da análise seja acesso à informação, o capítulo brasileiro foca no potencial de uso das TICs para melhorar a qualidade da educação e, consequentemente, nesta visão, o desenvolvimento social. Gostaria de chamar a atenção para a limitação desses enfoques. Não basta pensar nas TICs como acesso à informação ou como melhoria da educação para transformá-las em ferramentas para o desenvolvimento social dos países e a diminuição das desigualdades. E para ampliar a discussão, trago aqui alguns pontos levantados na conclusão da dissertação. Utilizando telecentros, lan houses, laboratórios de escolas ou pontos de cultura, acredito que os projetos de inclusão digital precisam ampliar suas metas para que possam contribuir para mudanças nas condições econômicas, políticas e sociais da população, como as citadas abaixo:

- Possibilitar a democratização não só do acesso, mas da produção e troca de informações e cultura por um número maior de indivíduos, inserindo a discussão sobre a inclusão digital numa discussão mais ampla sobre democratização da comunicação, diversidade cultural e democracia política.

- Possibilitar o exercício da cidadania que se estende para além do acesso aos serviços do governo eletrônico e que se referem à capacidade e à possibilidade dos cidadãos participarem da esfera pública como fiscalizadores e orientadores de políticas públicas.

- Promover o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos, sua capacidade de crítica e sua capacidade de “aprender a aprender”, cada vez mais exigidas na sociedade atual, incluindo o papel do lúdico como linguagem neste processo. Outras mudanças importantes são a ênfase na autonomia e na criatividade dos sujeitos no desenvolvimento do conhecimento e na necessidade de constante aperfeiçoamento e aprendizagem. Novas formas de sociabilidade, interação e cooperação também se desenvolvem quando a mediação do computador e das redes eletrônicas passa a ser central em diversos setores da vida social.

- Incentivar o desenvolvimento tecnológico do Brasil, e não a mera inserção dos indivíduos no consumo de produtos globalizados, permitindo a autonomia do país frente às grandes potências mundiais, e a rediscussão do conceito de propriedade intelectual, de modo que o desenvolvimento tecnológico possa efetivamente contribuir para a diminuição das desigualdades entre os países.

- Elaborar os projetos sociais que envolvem tecnologia em diálogo com as próprias comunidades - entendidas não só como objetos, mas como sujeitos de políticas públicas - e com outras instituições fundamentais para o desenvolvimento dos indivíduos, sobretudo os jovens: família, escola, associações comunitárias, mídia de massa etc.

- Por fim, articular políticas de democratização do consumo e da produção de informação a outras políticas sociais mais amplas, em áreas diversas como educação, cultura, emprego, saúde, distribuição de renda e possibilidade de participação política.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Victor & Leo: Onde o sertanejo esbarra na MPB

por Gustavo Alonso


CD Boa Sorte pra você, Som Livre, 2010

É frequente legitimar um gênero que surge no cenário cultural brasileiro a partir da associação com a MPB. Ou seja, quase sempre os críticos associam determinados cantores e grupos à tradição da MPB como forma de legitima-los. O que está implicito nesta atitude é a valorização de gêneros a partir da lente da MPB, ou seja, a nova música é tão boa que quase chega a ser parecido com a descendência de Cartola, Tom Jobim, Caetano, Chico, Elis Regina, etc.

Foi assim com o rock nacional, que apesar da oposição ao "banquinho e violão" da MPB, logo foi incorporado (e valorizado) como parte da "linha evolutiva" da música brasileira. Não a toa Cazuza é frequentemente lembrado pela gravação de Cartola, embora esta canção não se encontre na sua discografia pessoal. Os Paralamas também só foram incorporados à louvável tradição a partir do LP Selvagem?, de 1986. Até então os discos anteriores, "Cinema mudo" e "O passo do Lui" (1983 e 1984, retrospectivamente), foram vistos hegemonicamente como uma reprodução musical do grupo de ska inglês Police. Mais recentemente os Los Hermanos foram valorizados pela lente da MPB. O compositor Marcelo Camelo foi frequentemente citado como "poeta" e suas letras comparadas às de Chico Buarque, especialmente a partir do disco Ventura, de 2003.

Pois bem. Se a MPB quiser começar a incorporar os sertanejos universitários a dupla Victor & Léo é definitivamente a que melhor cumpre este papel. Apesar do repúdio das classes médias (que gradualmente ficam restringidas ao Rio de Janeiro, e mesmo assim, olhe lá) o gênero que se configurou como sertanejo universitário tomou o país. De fato, é dificil falar disso (e ainda por cima fazer um carioca acreditar que estou certo), mas o genêro tomou o Brasil faz tempo. Aliás, tomou o lugar do axé como grande vendedor de discos e megaconcertos. Do Nordeste ao Sul, pode ter certeza, o que se ouve no Brasil é o sertanejo universitário.

E por que isso acontece? Penso que o sertanejo, longe de ser um gênero propriamente dito, como era o sertanejo dos anos 90, se configura como uma amálgama de estilos. Há ainda os romanticos da geração anterior (Bruno e Marrone, chitão e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano), mas há aqueles que ousam misturar axé, forró, rock (à la anos 80) e, no caso de Victor & Léo, MPB. E a dupla citada é que melhor o faz, apesar de vários tentarem.

E essa "tentativa" tem sido bem recompesada. Eu já escrevi aqui no blog que Victor Chaves, o irmão compositor, foi a pessoa que mais arrecadou direitos autorais em 2009 em todo o Brasil (ver dados do ECAD: http://www.ecad.org.br/ViewController/publico/RankingAutoral.aspx). Com agenda lotada, shows garantidos com lotação máxima, aparições na TV e uma gravadora fundamental na historia do sertanejo universitário (Som Livre), os irmãos estão com tudo.

O disco "Boa sorte pra você" é o terceiro de estúdio da dupla, que tem também dois CDs "ao vivo", o formato predominante do atual sertanejo universitário. Esteticamente o disco amarra uma série de conceitos desenvolvidos pela dupla. Pra começar, Victor Chaves é autor de 80% do disco, como quase sempre, e parece conhecer na veia um bom refrão com a simplicidade de um hitmaker como tantos na musica brasileira, de Lulu Santos a Leoni nos anos 80 a Buchecha nos anos 90. Diferentemente das outras duplas, Victor & Leo ainda se mostram românticos, num cenário em cada vez mais os sertanejos universitários cantam as separações e a positividade de "é melhor estar sozinho do que mal acompanhado". Aliás, nesse aspecto Victor & Léo são "conservadores" de uma estética dos anos 90; outras duplas baseiam sua carreira no "me deixa em paz", uma ruptura representativa da trajetória do gênero sertanejo pouco analisada e levado a sério pela critica atual. Aliás a definição do que é "sertanejo universitário" é um problema pouco abordado nas críticas em geral, e talvez a questão do viés romantico abordado (ou não) seja um aspecto a se considerar. Nesse sentido Victor & Leo continuam "tradicionais", apesar de que as músicas não são mais de "corno", mas positivas e otimistas em relação ao amor.

Tudo isso já se delineava nos discos anteriores e segue neste. Há ainda a busca de filiação à tradição de Chitãozinho e Xororó através da regravação de "Nascemos para Cantar", sucesso da dupla paranaense de 1991. Mas apesar da filiação ao passado, sempre enfatizada por Victor e Léo, eles parecem dar "um passo à frente" no gênero. São os que conseguem fazer dialogar duas tradições brasileiras: a música sertaneja e a MPB.

Para quem duvida do que estou falando convido ouvir duas gravações de uma mesma música: "Deus e eu no sertão". A original de 2002 têm um Léo que canta com vibratos, emoção acentuada, parecendo querer imitar um Bruno e Marrone. Em 2004 a canção foi regravad pela primeira vez no LP Vida Boa (Independente). Em 2008 foi regravada novamente, desta vez na voz de Victor e entrou na trilha sonora de Paraíso como abertura da novela global das 7. A segunda versão tem um Leo cantando sem vibrato, mais contido, atento aos "excessos" tão criticados pela MPB na música sertaneja. A terceira versão cantada por Victor é ainda mais soft, sem nenhum dos tradicionais vibratos e prolongamentos vocais da música sertaneja da década anterior. Não à toa choca alguns ouvidos que gostam da tradição Xororó e Zezé. Entrevistei um cantor sertanejo, que fez sucesso nos anos 90 e que depois sumiu do mercado, que relatou seu incômodo em relação ao canto "contido" de Leo: "O cara não solta a voz! Esse cara não canta direito! Parece o João Gilberto cantanto sertanejo!", me disse.

O sertanejo universitário continua cantando em alto e bom som, com vibrato e voz sempre um grau a mais em volume que os instrumentos. Mas isso não acontece com Leo. Victor, por sua vez, um ótimo violonista, foi um dos responsáveis no sertanejo universitario pelo deslocamento da guitarra elétrica. Se a guitarra tinha sido elemento principal do sertanejo de Chitãozinho, Zezé, Leonardo e companhia nos anos 90, foi definitivamente riscada do mapa do sertanejo universitário. Não apenas a guitarra, também os teclados foram deletados. Agora é a vez do violão de aço e da sanfona.

A levada de Victor Chaves é sempre entre o rock balada e gêneros também incorporados pela MPB, como forró (em "Timidez), o pop (em "Não vá pra Califórnia) e reggae (em "Agua de Oceano").

Não será espanto se Victor & Léo forem incorporados e aceitos cada vez mais pela MPB. Tradicionais "caipiras" que odiaram o boom sertanejo dos anos 90, como Renato Teixeira e Almir Sater, já gravaram com a dupla ("Vida Boa" e "Tocando em frente", respectivamente). Aliás, depois que Caetano Veloso se encarregou de produzir a trilha sonora do filme de Zezé Di Camargo e Luciano tudo pode acontecer.

Leo parece já ter percebido essa incorporação. Em recente declaração feita no site da dupla (em 27/08/2010) Leo falou da quebra de "preconceitos" no cenário musical brasileiro e da possivel e desejável incorporação da dupla pela "boa" tradição nacional:

"Quero parabenizar a todos os indicados ao Prêmio Multishow. Sei que, entre eles, estavam artistas que fazem um excelente trabalho. Muito mais que uma vitória da dupla Victor e Leo, foi o grande passo dado pela música brasileira, através deste prêmio, que abre espaço e reconhece uma cultura com tanta verdade, raiz e história, como a música sertaneja, que vem do interior do Brasil, especialmente das áreas rurais, e que ganha cada vez mais espaço nos grandes centros. Isso é que precisa ser comemorado e reconhecido.
Parabéns aos organizadores do Prêmio por terem aberto este espaço e quebrado uma barreira que está no fim, mas que ainda existe.
A todos que votaram nos seus artistas favoritos, que se emocionam, que sentem no coração a energia da música, e que os acompanham, sem medir esforços, muito obrigado.
Parabéns a todos que fazem parte da música sertaneja! Parabéns à música brasileira!"


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Não procuremos o velho no novo, mas o novo no velho

Recentemente, a relação entre duas notícias de tecnologia me chamaram a atenção no caleidoscópio dos portais eletrônicos. A primeira é sobre o supercomputador mais veloz do mundo, apresentado pelo Partido Comunista chinês. A segunda mostra mais um acessório para Ipod.

O supercomputador chinês Tinhane-1 é 1,4 vezes mais rápido que o segundo lugar americano. Mas, como comentou o engenheiro de microchips Seven J. Wallach, seu anúncio é apenas um momento na corrida tecnológica. A supermáquina digital é um arranjo de componentes americanos  (7168 GPUs Nvidia Tesla e 14 336 processadores Intel Xeon) que certamente será superada em breve. Interessante pensarmos que diante da máquina mais poderosa do mundo, temos a sensação de que ela não será mais capaz que um gadget em futuro próximo. Uma sensação de aperfeiçoamento contínuo dos aparelhos. Algo que se acentuou com a passagem à era digital, um salto na história assim como a eletricidade ou a óptica. 


Não por acaso, os chineses apontaram a indústria da animação como uma das possíveis finalidades do supercomputador. O aumento da capacidade de processamento torna possível efeitos de ilusão sempre novos. Novidade é combústivel para o entretenimento - a outra face das máquinas de guerra, como gosta de lembrar Kittler.  



Já o acessório de Ipod parece fazer o movimento inverso na trilha do aperfeiçoamento tecnológico, ou seja, não surge de um avanço dos laboratórios mas de uma idéia simples: a adaptação de uma remota solução acústica. O aparelho consiste em um tubo em forma de concha, como o do gramophone. Acoplado à saída de som do Ipod, ele aumenta o volume da música sem consumir energia.

A idéia é simples mas remete a um tema muito interessante que é a diversidade de formas tomadas por aparelhos de mídia. Foi instigado por essa estranha fauna de objetos que o escritor de ficção científica Bruce Sterling começou o "Dead Media Project". Desde 1995, seus colaboradores colecionam de video-games antigos a objetos de nomes estranhíssimos como Megalethoscope e Cosmorama (aparelhos que em algum momento concorreram com a fotografia).

Reunidas, essas mídias mostram relações entre modelos que tiveram grande êxito comercial e experiências de sucesso efêmero ou que nem mesmo saíram dos laboratórios e garagens. Uma diversidade que emerge da experimentação e da corrida por instrumentos mais encantadores ou eficientes. 


Esse universo das formas materiais das mídias rende boas reflexões, como as que ilustram o livro Arqueologia da Mídia, de Zielinski, autor alemão que está orientando o pós doutorado do professor Erick Felinto, da UERJ.

Além disso, o inventário é um gande baú de idéias esquecidas, que podem ganhar nova força na atualidade. Como vemos hoje com as imagens 3D, quase tão antigas quanto as fotografias, ou o híbrido "Gramopod". 


A semana dos Encontros (ou "Agosto em Novembro")

Começaram na última segunda-feira e vão até o próximo domingo, dia 7, no Rio de Janeiro, os Encontros Culturais de Língua Portuguesa. A iniciativa, que mistura teatro, debates, oficinas e um show musical, é capitaneada pela Talu Produções & Marketing, mesma galera responsável pelo FestLip, já comentado por este escriba aqui no LabCult não faz muito tempo. O evento ocorre no Oi Futuro do Flamengo e de Ipanema (exposição, oficinas e encenações teatrais), na Casa de Rui Barbosa (mesas redondas) e no Circo Voador, onde rola, na noite da próxima quinta-feira, uma mega festa intitulada “O som da língua”, com a presença de Fernanda Abreu, DJ MAM, Afroreggae, Cheny Wa Gune & Quarteto (vindos de Moçambique) e do Kumpania Algazarra, surpreendente combo made in Portugal que, no ano passado, comandou a consoada natalícia do Santiago Alquimista. As pedras da muralha do Castelo de São Jorge quase foram abaixo, tamanha a intensidade de descarga de energia que emanava do palco. O Kumpania Algazarra vem de Sintra, mas seu som bebe em fontes tão diversas quanto as fanfarras balcânicas, a música klezmer (da mesma estirpe dos Melech Mechaya), o afrobeat, o ska e, last but not least, o folclore português, ora pois.

Para quem se liga na discussão sobre os intercâmbios musicais entre os países lusoparlantes, a pedida é conferir os debates “Letra e canção nos países de Língua Portuguesa” e “Música e diálogo cultural”, que acontecem na tarde desta quarta-feira, a partir das 14h, na Casa de Rui Barbosa. Lá estarei nem que chovam canivetes.

A programação completa pode ser conferida aqui. Tudo 0800, viu? ;-)

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Não sou a Patrícia Kogut da Revista da TV d’O Globo, mas me autorizo a dar uma Nota 10 para a TV Brasil, que na noite do último domingo, dentro da faixa Cine Ibermedia, teve a petulância de exibir “A cara que mereces”, longa de estreia do cineasta português Miguel Gomes – obra rara mesmo no âmbito de seu país de origem, tendo sido lançada em DVD em Portugal apenas no ano passado (o filme é de 2004!). Considerando que, se não me falha a memória, nas duas últimas vezes em que um filme português frequentou a nossa tv aberta, a responsável bem deve ter sido a mesma TV Brasil, penso que talvez seja o caso de já assinar uma Nota 10 em promissória pelos próximos seis meses, não?

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E por falar em Miguel Gomes, na próxima sexta-feira, dia 5, a disciplina Comunicação e Globalização, ministrada por este que vos blogueia, tem o prazer de convidar a todos os LabCultianos para uma sessão de gala do filme “Aquele querido mês de agosto”. Para quem não teve a chance de conferir o longa quando de sua breve passagem pelo circuito exibidor carioca no segundo semestre do ano passado, a ocasião é imperdível. A partir das 18h na sala C211 do IACS (Rua Lara Vilela, 126 - São Domingos/ Niterói).

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Trajetória da materialidade do som

Por Michele Vieira



É uma pena que o livro “A Casa Edison e seu tempo”, de Humberto M. Franceschi, esteja esgotado. Mesmo em sebos é complicado encontrar um exemplar, que chega a custar 200 reais!!! Mas o preço vale a pena, pois o livro, além de trazer nove CDs com os registros originais das primeiras músicas gravadas no país, que eram feitas em cilindros para tocarem nos fonógrafos, traz também as partituras das músicas, com seus arranjos originais, como é o caso do choro Rosa, de Pixinguinha.
O mais interessante do livro são os detalhes sobre a trajetória da materialização do som e sua distribuição industrial, que começou com os cilindros, depois com os discos de cera até chegar ao vinil. Além disso, fala da história das gravadoras e dos selos de discos mais importantes da história da indústria fonográfica, como o selo Odeon, o primeiro do Brasil criado pela Casa Edison, a primeira gravadora em terras brasileiras criada em 1902 e que sobreviveu até 1932. Além disso, há um capítulo dedicado à história da produção dos discos, detalhando a questão dos materiais usados na fabricação e também a forma como foram comercializados.
São 300 páginas ilustradas que nos dão idéia de como era a prática de ouvir música naquela época, o início do século XX. Como nas fotos abaixo, que mostram o modelo de um fonógrafo e como se fazia para gravar o som. A pessoa tinha que chegar bem perto de uma “cornetinha” e praticamente gritar para que fosse capturada a voz. Isso porque o microfone só chegou em 1927. E, para ouvir, bastava colar o ouvido na “cornetinha”, de onde saía o som.

Como o fonógrafo era usado para gravação de som

Há umas partes engraçadas, quando o autor narra que o fonógrafo foi usado comercialmente, pois Fred Figner, dono da Casa Edison, antes de comercializar os cilindros com as músicas, gravava cilindros com palavrões para entreter o povo. Então, entrar em contato com a “máquina falante”, como era conhecido o fonógrafo, virou entretenimento público. O livro conta que Figner enriqueceu cobrando ingressos para o público ouvir esses sons “toscos”, já que em apenas um mês de exibição da reprodução do som, Figner atraiu 4 mil pessoas que pagavam mil réis para ter a experiência de ouvir a gravação da voz humana.
Há um capítulo final, bastante raro e interessante, sobre a história dos direitos autorais, que mostra como se transformou aos poucos a relação das indústrias com os artistas, em virtude da nova função social que a classe artística ganhou ao longo dos anos, o que é resultado também de sua relação com o público.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Em breve nos cinemas?


Rumores dão conta de que está sendo produzido um doc sobre Liminha (ex-baixista do Mutantes e um dos produtores musicais brasileiros mais renomados da história) com direito a depoimentos de Gilberto Gil, Titãs, Marina Lima, dentre outros consagrados artistas da música brasileira que tiveram as mãos e olhos do produtor em seus trabalhos para contar sobre a sua carreira na indústria fonográfica. Mais uma excelente futura fonte para a história da indústria da música brasileira. Quem viver assistirá. Ou não.