segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
O underground
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
A Rede Social
Hoje, o Facebook está economicamente consolidado e não é por seu potencial de inovação, ou por direito autoral sobre redes sociais, mas porque soube expandir sua base de usuários por todo o mundo e já acumula um banco de informações pessoais suficientes para rivalizar com outros grupos como Google, que também detém informações sobre perfil de consumo de grupos e indivíduos. Não por acaso, Google e Facebook bloqueam-se mutuamente, não deixando que um tenha acesso aos dados no ambiente do outro e atulamente competem pela hegemonia do "número páginas iniciais ", ou seja, qual o primeiro site que você usa quando liga a internet.
De rebelde mesmo, só a voz de John Lennon fechando o filme. Tocar "You are a Rich Man" foi um comentário interessante do diretor a respeito do que havia acabado de ser projetado na sala do cinema.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Na pista

Não sei se isso também acontece como vocês, mas às vezes a gente adquire determinado material (com fins de investigação acadêmica ou não), coloca ele na gaveta e só depois de um tempo, quase sempre do nada, o dito cujo cruza o nosso campo de visão e a gente pensa “como eu nunca dei importância para isso antes?”. Fenômeno congênere ocorreu comigo semana passada quando, ao vasculhar a minha estante de álbuns adquiridos durante a estadia em Portugal à procura de algo novo para escutar, deparei-me com o “3 Pistas – volume 2”. O disco já é meio velhinho (foi lançado em 2009), mas só agora sinto-me capaz de tecer algumas considerações sobre ele.
O projeto “3 Pistas” foi idealizado pelo radialista Henrique Amaro como rubrica do programa “Portugália”, da Antena 3. Cada banda convidada tem à sua disposição três pistas de áudio para gravar duas canções – uma de própria lavra e uma versão. O que poderia funcionar como limitação técnica, muito pelo contrário, parece estimular a criatividade dos artistas no sentido de construir releituras minimalistas de determinadas músicas (tarefa na qual algumas bandas se saem melhor do que outras, nomeadamente aquelas que já possuem uma estética lo-fi logo à partida).
Mas o mais bacana do projeto “3 Pistas” fica reservado às versões. Poucas coisas são tão reveladoras dos graus de filiação e parentesco que determinado artista deseja estabelecer com outros músicos, e do modo como esse mesmo artista busca se inserir numa dada linha genealógica do universo pop, quanto uma aparentemente inocente versão (álbuns de duetos também são excelentes objetos nesse sentido). Pena que, para o público brasileiro, boa parte da graça advinda de um disco como o “3 Pistas” dependa de um conhecimento mínimo do quem-é-quem da música portuguesa durante os últimos 40 anos (a exceção que muito nos toca talvez seja a releitura quase fiel – inclusive no sotaque – que JP Simões faz do “Retrato em branco e preto” de Chico Buarque e Tom Jobim). Tiago Guillul gravando “A glória do mundo” dos Heróis do Mar e trazendo para primeiro plano a atmosfera religiosa que já habitava a versão original; Linda Martini pegando na canção “Adeus tristeza” de Fernando Tordo e transformando-a numa toada épica de mutilar o coração; ou ainda Os Pontos Negros revisitando com tintas strokeanas a festivalesca “Esta balada que te dou”, de Armando Gama: as implicações de tais escolhas infelizmente permanecem obscuras pra nós. Restam-nos, a título de consolo, as releituras no âmbito do pop/rock anglófono que nos são muito mais familiares: nesse quesito, o volume 2 do “3 pistas” alterna casamentos quase óbvios (Sean Riley & the Slowriders com Bruce Springsteen, The Vicious Five com AC/DC e, por que não dizer, JP Simões com Chico Buarque) com flertes verdadeiramente surpreendentes (D3ö e Amy Winehouse, Dapunksportif e Billy Idol, Clã e Klaxons).
Minhas faixas favoritas incorrem neste último domínio, aliás. Embora depois que a gente escute a relação faça todo o sentido, dificilmente alguém imaginaria “Where is my mind” do Pixies aparecendo assim quase nua, coberta apenas por um tecladinho Casio manhoso (encontrado na rua, reza a lenda) e pela voz de David Santos como o Noiserv imaginou. E encerrando o álbum de forma majestosa, temos At Freddy’s House despindo “Dancing in the dark” de Bruce Springsteen de qualquer vestígio épico e convertendo-a numa balada de insuspeita melancolia.
***
E como dizia o outro, quando menos se espera, chega o (Pai) Natal.
Um feliz 2011 – também conhecido como o ano da tese – para todos.
E que as Musas Lusas nos protejam.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Dicas de presentes: livros sobre música

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Totalmente fumado

Algumas das coisas mais bacanas da música portuguesa contemporânea surgiram e continuam surgindo por intermédio de pequenas gravadoras. Nos anos 80, a vertente mais arrojada do rock português não teria existido sem a articulação de companhias discográficas como a Dansa do Som e a Ama Romanta. No contexto atual, veja-se o caso das “primas” Flor Caveira e Amor Fúria, cada uma a seu modo contribuindo para a oxigenação do pop/rock lo-fi made in Portugal. Ou mesmo a Merzbau (de Tiago Sousa), que entre 2005 e 2009 consolidou-se como referência no âmbito da música experimental/exploratória, e por onde Noiserv, B Fachada (pós-FC), Jesus the Misunderstood e Walter Benjamin (!) lançaram CDs e EPs recomendadíssimos. Com o fim da Merzbau, quem parece ter herdado sua reputação é a Mbari, cujo elenco inclui Tó Trips (a metade sem cartola do Dead Combo), Norberto Lobo, Lula Pena, Tigrala e... B Fachada, que num ritmo intenso de dois álbuns por ano, acaba de soltar no mundo mais uma obra (“B Fachada é pra meninos”, um primor de título).
Longe de mim estar aqui aproveitando este espaço para fazer uma defesa dos pequenos contra os grandes, do “underground” contra o “mainstream” ou coisa que o valha, até porque a gente tá careca de saber que os territórios são menos demarcados do que se supõe. Contudo, me parece que a relação menos tensa que tais empresas desenvolvem com determinados imperativos de mercado pode, em alguns casos, fomentar estudos de caso interessantes.
Imerso que estava no universo da Flor Caveira e família, confesso que nunca dei a devida atenção à portuense Meifumado. Até que outro dia comecei a receber umas newsletters da gravadora anunciando o lançamento de mais uma banda nova – chamada Guta Naki – e resolvi fazer justiça à malta. A editora discográfica, que faz 7 anos em 2011, vem se destacando pelo ecletismo de sua proposta e pelo caráter de ponta de seus lançamentos. Enquanto na FC e na Amor Fúria o conceito estético que reúne os artistas a elas vinculados parece algo evidente (por exemplo, no diálogo com o imaginário tradicional ou na invocação de certas marcas de portugalidade, e em que se pese a diferença entre, digamos, Tiago Guillul, João Coração e Os Golpes), no caso da Meifumado o buraco é muito mais embaixo. Não há nada, a princípio, que aproxime os trabalhos de Mc Jihad, Abstrat SirQ (os nomes são um capítulo à parte) ou Paco Hunter a não ser uma certa tendência ao minimalismo mutante e a multiplicidade de propostas. Mesmo nomes como Paulo Zé Pimenta, um dos fundadores da Meifumado, parecem assumir diversas personalidades dependendo do projeto em que estão engajados.
Conheci a Meifumado meio por acaso, ao esbarrar num disco espertamente intitulado “5 anos, 13 merdas” enquanto garimpava CDs pelos sebos de Lisboa ano passado. De cara, a tosquíssima arte da capa chamou a minha atenção, e passado o estranhamento sonoro inicial, logo logo tornei-me fã de algumas faixas, como “Foz girl” (PZ) e “Pensacola” (Paco Hunter). Vasculhando no site da gravadora para escrever este post, surpreendi-me ainda mais. Primeiro, pela varidade do “catálogo”. Em um segundo momento, pelas estratégias que a Meifumado utiliza para fazer circular tão vasta produção. E aí não consegui evitar as comparações com o caso Flor Caveira, que aqui seguem sem qualquer juízo de valor, vale ressaltar – apenas dão conta de propostas diferentes. Lembro que, ao adquirir os discos da Flor Caveira, havia me surpreendido com o esquema mezzo do-it-yourself mezzo artesanal da editora: CD-Rs com o nome do disco escrito à mão e que não raro travavam nos aparelhos leitores, mas que ao mesmo tempo vinham embalados em capas cuidadosamente elaboradas do ponto de vista do design gráfico. No caso da Meifumado, depois de escutar as faixas em streaming no próprio site da gravadora (coisa que recomendo efusivamente, sobretudo se a sua parada são as sonoridades eletrônicas), você tanto pode adquirir o CD, o MP3 ou efetuar o download de faixas isoladas por módicos 0,99 de euro. Como se não bastasse, ainda é possível assistir a uma série de vídeos, cada um mais criativo do que o outro, só perdendo em termos de arrojo para as criações de Paulo Furtado na persona do Legendary Tigerman.
Ao visitarem o site da Meifumado, não deixem de clicar no link “Info”. É onde vocês podem compartilhar da missão da gravadora, exposta num português mais-claro-impossível:
“A Meifumado continua a cagar na precaução...
Com o mesmo utópico objectivo:
a criação e edição de boa música (conceito original, não?)
Todas as convenções implícitas de uma editora são orgulhosamente ignoradas.
Venham ver o barco a afundar !”
Afundemos todos juntos, ora pois. E com muito gosto.