domingo, 30 de novembro de 2008

Games independentes na mídia

Essa semana foi liberada a lista dos inscritos no 11o Festival Anual de Games Independentes. Dentre os 226 inscritos, alguns interessantes que vêm sendo comentados na mídia:

Between, do mesmo autor de Passage, Jason Rohrer, considerado pela Esquire como um dos "Best and Brightest" de 2008. Rohrer é conhecido como um autor-artista, criando games a partir de emoções e transferindo essas emoções para os jogadores. Between é sobre "consciência e isolamento";

um comentado entre os "serious games" é Hurricane Katrina: Tempest in Crescent City, no qual Vivica, a personagem principal, percorre as ruas de Nova Orleans logo após o furacão procurando a mãe e ajudando aqueles que encontra pelo caminho. O jogo foi desenvolvido com a ajuda de estudantes do segundo grau, como parte do programa "Global Kids Playing 4 Keeps";

I wish I were the moon, de Daniel Benmergui, inspirado em um livro de Italo Calvino, é simples e romântico; e

The Graveyard
, de Auriea Harvey and Michaël Samyn do Tale of Tales, é um jogo "artístico" sobre a morte. Essa semana o Gamasutra publicou um postmortem do jogo escrito pelo próprio Michaël Samyn, que vale a pena conferir.

Esses são só alguns dos 226 jogos concorrendo na categoria principal. A lista completa pode ser acessada em http://www.igf.com/php-bin/entries2009.php.

Link

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

III Coneco

Assistimos, hoje, à abertura do o 3o Coneco, Congresso Nacional de Estudantes de Comunicação. Amanhã e sexta teremos às apresentações dos trabalhos. O nível do debate das duas edições anteriores foi bastante elevado e, pela programação desse ano, seguiremos no mesmo rumo. É uma pena que o site do Congresso não apresente a listagem das papers de cada GT. Sendo assim, disponibilizo aqui a programação do grupo de trabalho do qual participo, o Gt 2 - Comunicação e Culturas Juvenis. Espero todos vocês lá:

Mesa 1 - 27 de novembro, quinta-feira – 08h30 às 12h.

Ricardo Valadão Siqueira Matos (Mestrando - PUC-Rio): Baile funk, drogas, armas e morte: imagens dos funkeiros no Cinema Nacional Contemporâneo.

Marcelo Garson (Mestrando - UFF): Quem é o melhor DJ do mundo? - Disputas de valor na cena de música eletrônica brasileira.

Lydia Barros (Doutoranda - UFPE): Tecnobrega, entre o apagamento e o culto.

Jefferson Mickselly Silva Chagas (Mestrando - UFF): Programação radiofônica: Sintonizando identidades juvenis.


Mesa 2 - 27 de novembro, quinta-feira - 14h30 às 17h30.

Carla Marques (Mestranda - UFRJ): O leilão midiático da juventude de 68: Representações da rebeldia 40 anos depois.

Tatiana V. B. Galvão (Mestranda - UFRJ): As possibilidades e os limites na formação de comunidade e na produção de uma mídia radical alternativa pelo hip hop.

Taiane Cristine Linhares Pinto (Graduanda - UFRJ): Pelo fim da exploração animal: a adoção do veganismo por jovens do movimento punk e suas relações de consumo.

Rodrigo de Oliveira Morais (Doutorando - UFRJ): Problemas da cibercultura: reprodutibilidade digital, consumo e resistências.


Mesa 3 - 28 de novembro, sexta-feira – 8h30 às 12h.

Thiago Falcão (Mestrando - UFBA): Reflexões sobre a relação entre trabalho e lazer nos mundos sintéticos.

Georgia Natal (Mestranda - UTP-PR) e Lucina Viana (UTP – PR): Economia da reputação: as práticas de produção e consumo participativos através da ciber-representação juvenil.

Candice Campos Habeyche (Especialista - UCPEL): Cultura digital juvenil – o consumo do videolog YouTube.

Rachel Rimas da Silva Guedes (Graduanda - UFRJ) e Tatiane Cruz Leal (Graduanda - UFRJ): Uma escolha de vida: construções da sexualidade juvenil nas séries televisivas Gossip Girl e Skins.


Mesa 4 - 28 de novembro, sexta-feira – 14h30 às 17h30.

Alex Cabistani (Mestrando - UFF): Clique aqui para comprar uma pele identitária: o upgrade tecnológico da camiseta como expressão juvenil geek.

Patrícia Matos dos Santos (Graduanda - UFRJ): Performance, investimento afetivo e disputa simbólica no interior da comunidade de fãs do grupo Backstreet Boys.

Pedro Curi (Mestrando - UFF): Made in Brasil: Fan cinema brasileiro para gringo ver?


SERTANEJO UNIVERSITÁRIO



Depois do forró, no final dos anos noventa e início deste novo século, agora é a vez do sertanejo receber o rótulo de universitário.
De acordo com uma matéria do Portal Globo, neste novo subgênero do sertanejo, "abusa-se dos violões e guitarras e até mistura percussão de axé. As letras e composições costumam ser 'fáceis', e a roupagem não é nada parecida com duplas como Zezé di Camargo e Luciano muito menos com Chitãozinho e Xororó. E o público também é outro. Os jovens que curtem o sertanejo universitário não são necessariamente adeptos de chapéus e fivelas de cinto". É o sertanejo da "night", da "balada".
A emergência de um novo movimento de produção e consumo musical como este aponta não somente para as transformações sociais que os gêneros musicais constantemente sofrem, como também para o fato de que estas transformações ocorrem dentro de características da cartografia musical do local de onde surgem (não por acaso que as boates citadas na matéria do Globo.com sejam todas de São Paulo, um dos lugares mais privilegiados para a emergência da música sertaneja moderna no final dos anos oitenta e noventa).

Segue o link para a matéria que fala sobre a emergência do tal sertanejo universitário.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Reflexões Coimbra acima (e abaixo)

Conheci a XM na primeira vez em que estive em Portugal, em abril de 2007. Situada em Coimbra, mais precisamente na Rua do Quebra-Costas, logo após a primeira porta da cidade velha e bem no início da (longa) subida que vai dar na tradicional universidade (daí o nome de Rua do Quebra-Costas se revelar mais do que adequado), a XM é uma agradável mistura de sebo de livros e discos (CDs e vinis), loja hype de design e ponto de encontro da malta indie local. Recordo-me que foi durante minha primeira visita à XM que apanhei o fanzine a partir do qual muitas das questões detonadoras da minha atual pesquisa começaram a surgir. Sendo um espaço possuidor de tamanha importância afetiva, pois, nada mais natural do que retornar à loja por ocasião desta nova viagem a Portugal.


Num papo com maior clima de “Alta fidelidade” do qual fizeram parte os balconistas da XM, Isabel e Vasco, o estudante do curso de Artes da Faculdade de Coimbra e agitador cultural da cena local, Alexandre, além deste que vos blogueia, surgiram alguns tópicos bacanas que me fizeram retornar à Lisboa com a cabeça fervilhando de idéias no comboio. Ei-los:

#1. Coimbra proclama-se como a capital portuguesa do rock and roll. Enquanto Lisboa é mais cosmopolita, espécie de melting pot semi-periférico que abriga desde a música caboverdiana às transgressões experimentais do ZDB, e o Porto, naquele jeitão fechado e caladão parece andar sediando qualquer coisa de interessante na seara da música eletrônica, em Coimbra quem mandam são as guitarras. Diz-se que há uma forte cena rockabilly na cidade, algo que não se percebe em outros cantos do país, e que, nas palavras de quem vive e faz a cena, essa tradição rocker remonta à década de 80, com o surgimento de bandas seminais como o Pop Dell’Arte e o É M’as Foice de Tony Fortuna, que num caso de promiscuidade musical não raro por estas paragens, depois veio a formar o Tédyo Boys.


#2. Segundo Alexandre, essa predominância do rock estaria indissiociavelmente ligada à presença da universidade (a Rádio Universidade de Coimbra - RUC, para os íntimos - desempenharia um papel fundamental nesse sentido). Como, por um lado, “não há pais e mães em Coimbra” (porque a maioria dos jovens meio que se muda para os alojamentos estudantis quando começa a faculdade – experimente pegar um comboio, qualquer comboio, saindo de Coimbra às 18h de uma sexta-feira para se deparar com a maior concentração de jovens com malas ever) mas, por outro, a própria universidade, em todo o seu rigor e tradição seculares, passa a funcionar como instância de autoridade, criariam-se as condições necessárias para que o discurso do rock se transformasse no grande articulador desses sentimentos (será?). Haveria, também, um desejo de se afastar da tradição dos fados de Coimbra e da geração dos trovadores dos anos 60 – vale lembrar que José Afonso e Adriano Correia de Oliveira começaram a dar os seus primeiros passos musicais naquele ambiente.


#3. A música portuguesa contemporânea não é conhecida no Brasil porque, entre outros fatores, a precária (para não dizer inexistente) indústria fonográfica lusa não teria fôlego para atingir um mercado tão auto-suficiente como o brasileiro com edições próprias, ou seja, sem que os lançamentos tenham que se dar através da mediação de uma companhia discográfica verde e amarela. Como a única possibilidade concreta de lançamento é via gravadoras brasileiras, acaba que as opções ficam praticamente restritas ao que, de partida, já se revelaria um êxito mercadológico em potencial, criando uma espécie de círculo vicioso a la tostines em que o disco só chega aqui porque corresponde ao que se espera de uma “música portuguesa”, reforçando, assim, a mesma pré-concepção que impede que a música portuguesa seja compreendida para além dos “formatos de sempre”.


#4. Um exemplinho extra-XM mas totalmente coimbrão ainda assim, visto que a banda em questão vem de lá. No domingo 2 de novembro, assisti ao pocket-show gratuito da banda The guys from the caravan na FNAC Colombo, que fica num centro comercial nos arredores do Estádio do Benfica, distante uns 20 minutos de Lisboa pegando o metrô. O quarteto acabou de lançar seu primeiro disco, Noah’s ark of pain, uma deliciosa bijuteria pop cantada em inglês (apenas a faixa “Maria” é entoada no idioma de Camões) e totalmente inspirada pelo universo do neo-southern rock de bandas bacanas como o Kings of Leon e The Racounters. Embora a sonoridade do The Guys... seja pop até a raiz do bigode (em breve preparo um super podcast com algumas das descobertas decorrentes da última viagem, mas desde já desafio qualquer um a escutar a faixa que tem o nome da banda e não ficar com aquele bendito assobio grudado na cabeça), os caras sejam bonitinhos e algumas faixas até estejam tocando nas rádios comerciais portuguesas, fico me perguntando se alguma editora discográfica brasileira se interessaria em jogar o The guys... às feras do já combalido mercado brazuca, classificando-a como música portuguesa e arcando com as conseqüências da não-adequação às expectativas do que essa música viria a ser, ou então catalogando-a na seção pop/rock na qual os pobres gajos teriam que se estapear com trezentas outras bandas de sonoridade semelhante e investimentos de marketing e promoção inifinitamente superiores.



Aí eu te digo: "Bom, mas tem Os Pontos Negros...".
E você me pergunta: "Pontos Negros"?

Sim, Os Pontos Negros. Muito brevemente, aqui neste espaço.

Lan houses no Central da Periferia II

Como narrado dois posts atrás, o quadro Central da Periferia, do Fantástico, está exibindo uma série sobre lan houses. Mas a questão não fica restrita à TV. As discussões continuam no blog do programa, onde, inclusive, o post do LabCULT foi citado: http://especiais.fantastico.globo.com/centraldaperiferia/

Vale a pena conferir.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Tecnobrega - link para o livro

Já falamos aqui no blog sobre a pesquisa do Ronaldo Lemos e Oona de Castro, que virou livro, analisando o fenômeno da música tecnobrega do Pará.
O excelente livro, vendido pela Aeroplano, também está disponível gratuitamente neste link para download.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lan houses no Central da Periferia

O quadro Central da Periferia, comandado por Regina Casé, voltou ao ar no Fantástico no último domingo, focalizando as lan houses. O interesse que levou a apresentadora a abordar o tema foi o mesmo que me levou ao mestrado, no final de 2007: quem anda pelas periferias das grandes cidades do Brasil tem visto crescer o número de centros públicos de acesso pago ao computador. A observação empírica (numa cidade grande, da região Sudeste, como é Niterói) bate com os números da TIC Domicílios 2007, pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil: 49% dos acessos à internet hoje acontecem nas lan houses e cibercafés.
Liguei a TV para assistir ao Central da Periferia com muita curiosidade, é claro, já que estou pesquisando a relação entre lan houses, telecentros de acesso gratuito e políticas públicas de inclusão digital. E o primeiro programa da série (veja aqui) traz várias questões importantes.
As lan houses significam, hoje, muito mais do que o acesso de jovens a jogos de computador (o que por si só já era interessante), mas um espaço freqüentado por pessoas de todas as idades, que utilizam as novas tecnologias de informação para vários fins: comunicação, realização de trabalhos escolares, procura por emprego, acesso a serviços públicos etc.
Esse tipo de comércio, como destaca Regina Casé, é "fruto da criatividade e do empreendedorismo de alguém que não tinha nada". Ou seja, ela chama a atenção para o protagonismo - palavra que já está sendo banalizada - das camadas mais pobres da população em se inserir na sociedade midiatizada. Essa iniciativa é dificultada pela legislação restritiva a que estão submetidas as lan houses, consideradas casas de jogos e não centros de acesso ao computador ou de inclusão digital, como diz Mario Brandão, presidente da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID). Como o próprio nome da entidade indica, os donos de lan houses se uniram para mudar a classificação desse tipo de estabelecimento comercial, retirando da legislação restrições como a proibição de lan houses a menos de 1 Km de distância de escolas.

"Se antes a gente não sabia direito
onde era o centro, onde a periferia,
agora bagunçou geral".

Regina Casé, na abertura do programa

"No mundo da internet você é quem você quer ser,

você vai onde você quer ir, se você souber utilizar
a ferramenta computador mesclada com internet,
você acha que você consegue tudo".
Dono de lan house, no final do programa


No entanto, apesar das boas questões levantadas e do carisma da apresentadora, o tom do programa é de excessivo otimismo em relação à penetração do computador e da internet nas periferias via lan houses, como se o simples fato de estarmos todos conectados acabasse com as distâncias e as desigualdades sociais. O otimismo pode ser questionado, em primeiro lugar, pelo baixo número de conectados no Brasil - só 34% da população brasileira têm acesso à internet - e pela desigualdade de distribuição - 64% dos 5.565 municípios brasileiros não possuem acesso à banda larga, o que chama a atenção para a necessidade de políticas públicas para a universalização do acesso às novas tecnologias.
Outro ponto de questionamento é a atribuição de uma perspectiva revolucionária no simples acesso à tecnologia, ilustrada, entre outras, pelas duas frases citadas acima. O acesso às novas tecnologias tem de estar relacionado ao domínio de uma série de outras competências (culturais, cognitivas) e de uma autonomia que contribuam para uma democratização da comunicação e para um maior poder de influência dos indivíduos nas decisões políticas. A comunicação, nesta perspectiva, é vista como um direito. Quanto mais as pessoas se apropriarem ativamente das novas TICs, entendendo seu processo de funcionamento e o que elas significam nos dias de hoje, maiores serão as chances de contribuírem para as transformações em curso, maiores são as possibilidades de se romper barreiras e de multiplicação de espaços de negociação, conflitos e resistências, influenciando, inclusive, políticas de acesso à educação, saúde, emprego etc., sem as quais o domínio da tecnologia não conseguirá romper barreiras.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

... e terminou em Cabo Verde




Ligeiramente atordoado e tendo alguns dos meus já precários escaninhos musicais ido praquele lugar há muito tempo, deixo a ZDB rumo ao Cais do Sodré, onde rolaria uma apresentação do músico caboverdiano Tito Paris dentro da festa Gala Kretzeu, num dos armazéns à beira do Tejo que, ao contrário da nossa Praça Mauá e seu eterno processo de revitalização que nunca acontece, são muitíssimo bem aproveitados culturalmente falando. Descendo o Chiado até o Cais, praticamente sem fazer uma curva sequer, desvio de hordas e mais hordas de bruxinhas, diabinhos e mortos vivos e chego ao Armazém F a tempo de pegar a primeira canção do show.

O relógio marca uma da manhã. Em termos de clima, nada mais díspare: no lugar do teto ultra-baixo, da escuridão, e do clima it’s the end of the world as we know it da Zé dos Bois, o Armazém F oferece luzes piscantes, globo de discoteca, dois andares bastante amplos e muita, mas muita gente sacudindo o esqueleto ao som do combo de Tito Paris. Depois fiquei sabendo que, durante o dia, o Armazém F funciona como uma churrascaria rodízio brazuca e que, nos finais de semana, o dono do estabelecimento, um brasileiro chamado Ortiz, ganha a maior grana hospedando grupos de pagode e noites de samba. A sensação era a de estar assistindo a um tremendo bailão caboverdiano em pleno Porcão – ou em pleno Plataforma, se você quiser ser mais cruel.

Pela primeira vez em duas semanas e depois de incontáveis concertos em Lisboa, hub multicultural por excelência, cidade de fronteira nos dizeres de Boaventura de Sousa Santos, tive a chance de ver negros na platéia de um show, e ainda assim em número muitíssimo inferior ao dos casais brancos de meia idade que rodopiavam pra cima e pra baixo. Depois fiquei sabendo que, a despeito de rolar um baita preconceito dos “locais” em relação aos imigrantes dos PALOP (países africanos de língua portuguesa), o caboverdiano é aquele para o qual o português possui maior abertura justamente por não ele não ter a pele tão escura, sobretudo se comparado aos angolanos e moçambicanos. Essa abertura permite a um músico como Tito Paris desenvolver uma série de iniciativas que ajudam a divulgar a música de seu país em Portugal, notadamente através da Casa da Morna, ritmo tradicional caboverdiano que dá nome ao espaço onde o músico articula tais atividades.

Como fazer doutorado implica, entre outras coisas, ser assoberbado por “questões” justo quando os outros mais estão se divertindo, de repente me ocorreu que as pessoas que estavam dançando horrores ao som daquelas canções “sensuais” e “étnicas” seriam as mesmas que prefeririam viajar de pé se porventura tivessem que sentar do lado de um caboverdiano no metrô – ou sentariam mas virariam a cara pro lado, como vi acontecer num trem em Nápoles certa feita, em relação a dois senegaleses. Lembrei-me do Bauman naquele livro Comunidade, quando ele diz que o discurso multicultural muitas vezes concede o direito à representação cultural mas bloqueia o direito à participação e ao reconhecimento como cidadão. Nada mais metaforicamente adequado a essa reflexão do que o fato de a praça onde outrora se queimvam “infiéis” na inquisição, nos arredores do Rossio, hoje ser ponto de encontro de imigrantes africanos.

Uma pena que eu tenha ficado a pensar nessas coisas justo durante o show. Ok, o fato de estar sozinho não me animava muito a dançar, e pessoalmente tendo a me identificar mais com o clima da ZDB do que com o do Armazém F (ruim da cabeça e doente do pé, you know, mas a despeito disso, uma boa pessoa) – o que não me impede de reconhecer, no som de Tito Paris, a matriz musical de um caminhão de estilos e bandas que eu admiro incondicionalmente. Pense em Stevie Wonder, Madness, The specials, nos Paralamas do Sucesso fase “Cinema mudo” e nos novíssimos Vampire Weekend e lá estarão a percussão marcada, o baixo vigoroso e o, vá lá, “balanço” característico das sonoridades africanas (e caribenhas, e brasileiras, e etc) que o músico caboverdiano, com o suporte de uma tremenda seção de metais, articula de maneira admirável. Às vezes, era como se eu estivesse num clube de salsa, às vezes numa roda de samba, como se a música em si atravessasse diversos contextos culturais, espaciais e temporais. Não me admira (o que não quer dizer que eu concorde com a classificação ou desconsidere a pertinência de outros aspectos na configuração da mesma) que artistas como Tito Paris e seus conterrâneos sejam mormente enquadrados como world music nas lojas de discos, porque de fato é como se através dessa música fosse possível percorrer todo o mundo e todos os tempos, numa síntese intrigante pelo modo falsamente simples como ela se apresenta. O que, por sua vez, me fez lembrar da conferência de Arjun Appadurai que tive a chance de acompanhar na Fundação Calouste Gulbenkian, na manhã do dia 27 de outubro, quando ele disse que toda música é, simultaneamente, world music e somewhere music.

Deu o que pensar, essa noite das bruxas...