domingo, 10 de outubro de 2010

Os cibernautas estão chegando!

Por Rafael Dupim Souza

Em uma das passagens que mais gosto da "Arqueologia da Mídia", de Zielinski, ele apresenta diferenças entre o cinema e o vídeo. O primeiro seria devedor das técnicas de ilusão, dos jogos de luz e sombra, da criação de mundos imaginados. A projeção na parede apresenta o cinema como técnica do "olhar para". O vídeo, por outro lado, diria respeito ao "olhar através". Uma tecnologia que amplia o alcance da visão, na tradicão dos aparelhos óticos, de microscópios a lunetas.

A partir disso, é interessante pensarmos sobre a produção de imagens amadoras. Com a ubiquidade das camêras de vídeo, seja nos celulares ou nos circuitos de segurança, vemos cada vez mais situações, pessoas, mundos, sendo flagrados, ou se expondo ao olhar do público.

Mas, nesse universo de visibilidade total de tudo e todos, a imagem que mais me chamou a atenção nos últimos tempos foi a do vídeo abaixo. Como os inventores que ilustram o livro de Zielinski, esse cidadão americano foi capaz de se apropriar de uma tecnologia dando a ela novos limites, ou, pelo menos, uma possibilidade pouco provável.

O resultado são lindas imagens espaciais, captadas por um aparato híbrido, uma sonda espacial portátil, composta de um balão de hidrogênio e um Iphone.

Sensacional.

Gaiola das Cabeçudas daquele jeito, hein!

Na última semana mais um viral de Marcelo Adnet no YouTube segue rendendo muitos comentários e risos nas redes sociais. Agora a parte II das funkeiras cult do Gaiola das Cabeçudas é a bola da vez. A proposta das popuzudas poetizadas é cantar no mesmo ritmo e métrica dos clássicos do funk carioca suas referências intelectuais mais rebuscadas e obscuras. Quanto mais complexa a idéia lançada, parece que mais engraçado fica.

O primeiro verso do novo sucesso tem por base o refrão do rap O Simpático de Mr. Catra, convidando o catedrático para discutir Foucault. E por vai passando por Sivuca, alusões ao coreográfo Maurice Bejárt no ritmo de Se ela Dança eu Danço do Mc Leozinho, Fernando Pessoa, Kant, citações a Guimarães Rosa e Glamurosa no embalo de Mc Marcinho. Não ficam de fora Rodin, Einstein, Machado de Assis e Rap da Felicidade, Aleijadinho e James Brown, Proust, Picasso, Salvador Dali,

Sem dúvida, o fato de Adnet ter vivido no Rio faz toda a diferença para que ele pudesse articular tantas referências do funk carioca e subverter a máxima de que o funk é “lixo cultural” ao trazer versos sobre a diferença do trabalho de teatro de Stalislavsky e Bertold Brecht. O advento do YouTube também é indispensável para o sucesso que suas hilárias produções alcançam, o que nos força a pensar sobre a convergência de meios e conteúdos que vem se intensificando. Acredito que muito do êxito que o ator carioca experimenta se deve ao fato de quase todos os seus programas apresentados na MTV serem incorporados à plataforma do YouTube para alegria de seus fãs.

Mas a proposta de Gaiola das Cabeçudas se difere bastante dos não menos hilários vídeos-funk como Funk do Jeremias e o Funk do Joel. Nestes a bizarrice de suas falas despertou a criatividade de algum usuário do YouTube, equipado com algum simples programa de edição como Windows Moviemaker ou algo do gênero. O resultado e objetivo parecem similares: uma boa zoação!


sábado, 9 de outubro de 2010

Uberlândia: palco do III Congresso Fora do Eixo e do Festival Jambolada

Começa amanhã, em Uberlândia (MG), o III Congresso Fora do Eixo. Durante toda a semana (de 10 a 16/10), representantes dos cerca de 50 coletivos que formam o Circuito Fora do Eixo, espalhados por 25 dos 27 estados brasileiros, pesquisadores, jornalistas e candidados a fazerem parte desta rede de produção e circulação cultural estarão reunidos para discutir temas como economia criativa, sustentabilideade, associativismo, circulação de produtos culturais e produção colaborativa.

A programação conta com mesas de debates, grupos de discussão, grupos de trabalho, mostra de vídeo e apresentações culturais. Os objetivos do congresso, que este ano recebeu mais de 300 inscrições, são "fomentar as discussões sobre políticas públicas e estimular as trocas de tecnologias entre todos os envolvidos" e "traçar planos e estratégias acerca de ações do Circuito, como o Festival Fora do Eixo, o Fora do Eixo Card, o Festival Grito Rock Integrado, a rede social Fora do Eixo, entre outros".

Uberlândia será palco também do Festival Jambolada, realizado pelo Coletivo Goma, e considerado o maior festival de música independente de Minas Gerais. De 15 a 17 de outubro, a cidade recebe shows de artistas como Otto (PE), Emicida (SP), Vanguart (MT), Autoramas (RJ) e Falsos Conejos (Argentina).

O Congresso terá uma cobertura colaborativa que poderá ser acompanhada através da TV Fora do Eixo. Participarei de alguns dias do evento e espero conseguir postar notícias ao longo da semana.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Lipovetsky meeting Tiririca



No último dia de minha estada em Porto Alegre tive a oportunidade de assistir a conferência de Gilles Lipovetsky na PUCRS. Infelizmente, não pude contar com a companhia eloquente de meu querido amigo filósofo Jayminho que me disse que ia, mas não apareceu. Imagino que deva ter se rendido aos encantos Ossip bar no dia anterior. Foi uma intervenção rápida, durou pouco mais de uma hora seguida de duas ou três perguntas apenas, pois o filósofo tinha vôo marcado para o meio-dia.

Lipovetsky, assim como Habermas, é partidário da idéia de hipermodernidade que, em contraposição a uma pós-modernidade, indica não uma mudança de paradigma, mas uma radicalização de um projeto ainda inacabado de modernidade.

Em sua palestra intitulada, Ética, Mídia e Hipermodernidade, o filósofo chamou atenção para o fim dos ideais de sacrifício (como morrer pela pátria ou por uma causa, por exemplo) já que nem mesmo a igreja diz mais que devemos nos sacrificar por alguma coisa. Dialogando com o conceito de politeísmo de valores de Weber e da representação da moral através do patriotismo segundo Durkheim, Lipovetsky indicou que, em uma sociedade hiperindividualista, as pessoas não concordam quanto aos valores, pois a lógica democrática é aplicada também ao campo da moral. Isso resultaria em uma sociedade egoísta, narcisista e sem ideais. Lipovetsky aceita essa concepção, mas relativiza-a argumentando que há um conjunto de princípios comuns: ninguém aceita mais a escravidão, por exemplo. Esse consenso de valores morais, ou seja, a regulação ética da sociedade se da através da mídia que junto aos Estados e mercados, elegem as prioridades da comoção pública que se dão não por uma lógica racional do dever como colocada por Kant, mas a partir da configuração de uma “ética emocional indolor”.

Um exemplo recente que pode ilustrar essas reflexões é a eleição de Tiririca à Câmara dos Deputados. Sua campanha talvez tenha sido a mais ética desta eleição, cujos slogans eram os seguintes: "Você está cansado de quem trambica? Vote no Tiririca";“Tirirca, pior que tá, não fica”;"Oi, eu sou o Tiririca da televisão. Sou candidato a Deputado Federal. O que é que faz um Deputado Federal? Na realidade eu não sei, mas vote em mim que eu te conto."; "Para Deputado Federal, Tiririca. Vote no abestado". Uma ética racional? Não. Uma ética emocional “hipersincera”. Racionalmente contraditória, para não dizer oposta, aos valores morais que estruturam a ética política, mas alucinantemente honesta com o eleitor.

Por isso, Lipovetsky ao final da palestra chamou atenção para uma educação emocional da moral conduzida pela experiência de exemplos e não pelo aprendizado racional de regras.

Em 1980 a França poderia ter elegido o palhaço Coluche, não para Deputado, mas para Presidência da República. Antes de qualquer campanha, ele já contava com 16% das intenções de voto e com o apoio de intelectuais tais como Pierre Bourdieu, Félix Guattari e Gilles Deleuze, mas desistiu após várias ameaças de morte e do assassinato de seu gerente de espetáculos. Cinco anos mais tarde morreu em um acidente de moto... Um de seus slogans era bem parecido com o de Tiririca: "Coluche, o único candidato que não tem razões para mentir".

Tiririca, antes mesmo de ser eleito, também foi assassinado. “Tiririca morreu” foi um dos trendtopics do Twitter por alguns dias. Visto isso, cabe uma provocação: se a mídia estrutura uma ética emocional indolor onde os ideais de sacrifício se perderam, a verdade dói?

Calls for Papers

Pessoal,

a quem interessar, seguem alguns periódicos que estão com seus Calls for Papers abertos:

Revista: LUMINA, revista do PPGCOM / Universidade Federal de Juiz de Fora
Qualis: B3
Prazo: 10 outubro 2010

Revista: RazonYPalabra
Qualis: B3
Prazo: 10 de outubro de 2010

Revista: Contracampo - PPGCOM/UFF
Qualis: B1
Prazo: 31 de outubro de 2010

Revista: INTERIN, revista on-line do PPGCOM da UTP
Qualis: B3
Prazo: 30 de novembro de 2010

O "Embargo" que nós queremos

Meu Festival do Rio em-verde-e-vermelho andava um bocado caído até a noite da última segunda-feira. Depois de um filme (“América”, de João Nuno Pinto) que valia mais pelo tema palpitante (fluxos migratórios ilegais na periferia de Lisboa) do que pela forma com que o mesmo era abordado; de um documentário de tintas algo exotisantes (existe isso?) sobre uma favela carioca (“Complexo: universo paralelo”, de Mario Patrocinio) e de um longa (“Guerra civil”, de Pedro Caldas) cuja fração 70% boa em termos de encenação era arruinada por alguns sensos comuns de roteiro (para não falar da fração 30% muito má), eis que o “Embargo” de António Ferreira cruzou o meu caminho. D’aprés um conto homônimo (que eu desconhecia) do falecido escritor José Saramago, o segundo longa-metragem do realizador de Coimbra foi, até agora e salvo reavaliações posteriores, um dos momentos mais felizes do Festival que se encerra na próxima quinta-feira.


Conforme comentado anteriormente aqui neste blog, já conhecia o trabalho de Ferreira de outros entrudos, e sempre me admirou o registro pop-surreal com que o diretor conduzia suas narrativas, amparado por uma trilha sonora bastante inspirada. O curta “Respirar debaixo d’água” tinha de Mão Morta a Tedio Boys, lendária banda de Coimbra de onde saiu o Legendary Tigerman Paulo Furtado; seu longa de estreia, “Esquece tudo que eu te disse”, contava com belíssimas composições originais do Azembla’s Quartet; “Embargo”, por sua vez, para além da bela partituta de Luis Pedro Madeira, apresenta discretas “aparições” de Madame Godard, João Coração e Olaio & Taborda. Meus ouvidos não poderiam desejar coisa melhor.


Para além deste regalo, “Embargo” se insere, ainda, na cada vez mais rara categoria de filmes portugueses contemporâneos que, sem chafurdar no rame-rame de campo & contracampo a la SIC/TVI, também não sonegam por completo o desejo de estabelecer alguma comunicação com o público. Sim, senhores, o cinema português também se debate com o problema do filme médio, tal e qual seus primos do lado de cá do oceano, e entre Carlos Coelho da Silva e Pedro Costa, deve haver uma terceira margem possível de ser explorada. “Embargo” apenas reforçou a minha desconfiança de que António Ferreira talvez seja um dos nomes que melhor cumpre esta missão. De cabeça, das obras recentes a que tive oportunidade de conferir, apenas “Alice”, de Marco Martins e “Quatro copas”, de Manuel Mozos, chegaram perto desta meta.


[Veja-se o caso de “Guerra civil”, exibido por estas paragens no mesmo Festival, caso exemplar de como algumas poucas boas intenções podem ser comprometidas em nome da vã tentativa de parecer formalmente “ousado”. No âmbito das (escassas) incursões do cinema português contemporâneo no terreno da teenage angst, sou mais o descompromisso lúdico de um Jorge Cramez em “O capacete dourado”. Aí pelo menos as referências ao imaginário musical post punk dos anos 80 apareciam de forma menos gratuita.]




Vale destacar, também, o belo trabalho de Ferreira com os atores, em especial o protagonista Nuno, defendido com garra por Filipe Costa. Uma pena que a cópia exibida na sessão de segunda-feira estivesse em um bizarríssimo formato digital (DVCAM? BETA?) que drenava o brilho da fotografia em tons pastéis do filme, deixando tudo com uma aparência incomodamente chapada. Igualmente de se lamentar é a questionável obrigatoriedade de se abrasileirar o português utilizado na legendagem: vejam, não estou nem pondo em causa a necessidade das legendas, que em alguns momentos talvez seja, sim, imprescindíveis para ouvidos menos treinados na prosódia lusa; mas, caramba, custa muito não alterar o sentido das expressões? É esquisito à beça ouvir algo do tipo “faz um frio do caraças” e ler “está muito frio”, quando o sentido da primeira expressão não chega a ser exatamente obscuro e o sentido da segunda não corresponde precisamente ao que a primeira queria dizer. Isso só reforça a barreira que nos separa dos já escassos produtos da cultura midiática portuguesa que chegam até nós: se a gente não faz o menor esforço em decodificar certos traços culturais deles, por que nos achamos no direito de exigir que eles decodifiquem os nossos?


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cardápio Musical farto em Outubro

Perc Pan, Gotan Project, Dave Matheus Band, Air e até Bon Jovi e Green Day: tudo em outubro no Rio Janeiro!

É com muita felicidade, e certa dose de angústia, que fui me dando conta de todos os shows acima comentados. Há tempos, desisti de ir até Itu por conta de recursos escassos e muita preguiça. Mas então, finalmente, o Rio está sendo sacudido pelas apresentações do Perc Pan que no traz sonoridades balcânicas, africanas, eletrônicas entre outras. Ainda tem o Gotan Project para competir amanhã (06/10) com Hypnotic Brass Ensemble e o já comentado Buraka Sistema de Som. Para completar a lista da semana, tem o grupo colombiano, Bomba Stereo, para agitar a Dancing Chetah nesta quita-feira (07/10) no projeto Rival+Tarde e no dia seguinte, Dave Matheus Band se apresenta no balneário não tão decadente, como reclamam alguns. Mas na sexta-feira ( 08/10) vou apelar para a música mecânica e dançar à beira mar o som de Sany Pitbull na festa Shake your Rampa#4. Na próxima semana, não perco os franceses do Air (14/10) no palco que mais gosto daqui, o do Circo Voador.

O problema agora é capital: tempo e dinheiro para assistir a tantas bandas legais!

Imaginário técnico

Por Michele Vieira

Na última reunião do Labcult combinamos que uma das próximas discussões será sobre a materialidade dos meios. Surgiu daí a proposta de discutirmos o primeiro capítulo do livro de Beatriz Sarlo, “La imaginación técnica: sueños modernos de la cultura argentina” (Buenos Aires, Nueva Visión, 2004), que muito pode contribuir para a compreensão sobre o impacto da técnica como instrumento de modernização e como fruto de construções imaginárias, de configurações simbólicas dos indivíduos.  Deixo aqui algumas idéias de Sarlo para inspirar outras contribuições a esse tema….

Para explicar a importância da materialidade da técnica e o processo de apropriação por parte dos indivíduos, Sarlo se utiliza dos primórdios do rádio na Argentina, que assim como no Brasil, era visto inicialmente como uma tecnologia revolucionária, como fruto de um milagre da ciência, e despertou a curiosidade dos indivíduos pela construção dos aparelhos. Houve nos dois países um surto inventivo por parte de indivíduos de todas as classes sociais que gerou um intenso movimento de construção de aparelhos de rádio caseiros, pela técnica que Sarlo chama de bricolagem (uso artesanal da técnica).

No caso do rádio em seus primeiros anos de existência, houve um uso profano da técnica, pois os indivíduos não aprendiam a montar seus aparelhos por manuais, livros ou revistas, e, sim pelo movimento do boca-a-boca, e por uma experimentação intuitiva na manipulação das peças que encontravam para poder ouvir o som à distancia. Então, os rádios eram feitos com caixas de charuto, varas de bambu, fones de telefone, bobinas de papelão.

Essas práticas de apropriação de uma nova técnica, para Sarlo, representam o surgimento de saberes novos, os quais são fruto de elementos que hipotetizam um futuro, ou seja, as formas como as pessoas usam uma determinada técnica são fruto de um imaginário que se concretiza nesses usos da materialidade dos meios. A imaginação técnica, portanto, ultrapassa a esfera puramente técnica, pois a partir dela se constróem idéias, expectativas,  impulsos, sonhos e atitudes.

A técnica, como inovação, realiza fantasias que não são apenas tecnológicas. No caso do rádio, a materialidade do meio media a presença da voz e da música sem o corpo presente, o que dá a sensação de desmaterialização e traz a possibilidade de captar as ondas invisíveis.

A apropriação da materialidade dos meios, conclui Sarlo, tem um peso simbólico nas mudanças cotidianas, na rotina dos indivíduos, e na transformação do imaginário dessas pessoas que, em contato com a técnica, adquirem novas sensibilidades e olhares sobre as múltiplas práticas do dia a dia.