sábado, 13 de novembro de 2010

#FUTURÍVEL - Gilberto Gil e Macaco Bong abrem Fórum da Cultura Digital

Amanhã, às 19h, @gilbertogil e @Macacobong sobem juntos ao palco do Auditório do Ibirapuera (SP) no show #Futurível. Encontro da Tropicália com o Artista Pedreiro, que representa a música que tem sido produzida e distribuída fora das grandes indústrias e do circuito tradicional. No vídeo abaixo, os integrantes do Macaco Bong falam sobre a parceria - "nem Macaco nem Gil", o trabalho do músico, a arte e a política.

Futurível: "o resultado de tudo é nem Macaco, nem Gil" from FLi Multimídia on Vimeo.


O show - que será transmitido ao vivo neste link - abre o II Fórum da Cultura Digital Brasileira, que acontece de 15 a 17 de novembro, na Cinemateca, em São Paulo. Cibercultura, arte digital, políticas públicas e novos modelos de negócio na cultura serão debatidos em arenas, sessões de trabalhos acadêmicos e mesas mais formais. Pra quem quiser conferir, segue a programação aqui.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cesar Menotti e Fabiano: entre o "ao vivo" e o estudio

por Gustavo Alonso



Ja escrevi em outro post aqui no blog sobre como a musica sertaneja atual, também chamada de sertanejo universitario, vem abolindo as gravações de "estudio". Os artistas sertanejos estão cada dia mais lançando discos no formato "ao vivo" ou "acustico" (o que da no mesmo), contendo regravações é certo, mas também novos sucessos. Curiosamente estes novos "sucessos" eram ilustres canções desconhecidas do publico, até o dia da gravação. Luan Santana relatou o desconforto de ter que ensinar as novas canções para o publico antes de grava-la nos shows "ao vivo" pelo Brasil. Mas nem todos seguem esta trilha perigosa. O ultimo disco de Victor e Leo, sobre o qual também ja escrevi aqui, por ser de estudio, é quase uma raridade no atual mundo sertanejo universitario.

Por causa dessa oposição de formatos, "estudio X ao vivo", foi com espanto que me deparei com este "clipe oficial" de Cesar Menotti e Fabiano, uma das duplas de maior sucesso no meio.

http://www.youtube.com/watch?v=KjbkP2X3c9s

Neste clipe a dupla conseguiu fazer um misto das duas coisas, estudio e "ao vivo". Os musicos ficam numa sala muito parecida com um estudio através do qual por uma janela veem a dupla que canta no palco como se estivesse simplesmente tocando a canção com violões para uma animada platéia, cujas vozes aparecem fazendo coro. As vezes fica dificil visualizar esta demarcação espacial visto que os closes e takes da direção do clipe tendem a enfatizar os "territorios" diferentes. Mas convido vocês a darem uma olhada no clipe por volta do minuto 2:50 e 3:20, onde fica claro o que estou falando.

Esta canção foi lançada em disco neste ano de 2010. Esta nova obra de Cesar Menotti & Fabiano consegue mesclar a gravação de "estudio", ou pelo menos a "performance" do/no "estudio", com três importantes fatores na consagração da musica sertaneja atual: o uso de violões folk, a levada pop, a cantoria e aplausos dos fãs.

Não a toa o novo CD se chama "Retrato - Ao vivo em estudio". Segundo o site da dupla fica claro a intencionalidade do projeto: "Em "Retrato – Ao Vivo em Estúdio", a pegada da banda, a plateia envolvida e entusiasmada e as performances da dupla, principalmente os violões de César e o vozeirão de Fabiano, fazem do álbum uma festa criada para o sucesso".

Diferente da maioria dos atuais artistas sertanejos, que parecem abolir de vez o formato estudio, dentre eles João Bosco & Vinicius e Luan Santana, entre outros, Cesar Menotti & Fabiano parecem trilhar um caminho hibrido, em que "estudio" e "ao vivo" podem dialogar. "Conservadores" neste aspecto, Victor & Leo preferiram se ater ao modelo "estudio". Qual modelo vingara? Atenção para as cenas dos proximos capitulos!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

pequeno terrorismo de bolso



Dentre as várias e muito interessantes atrações do Performance Presente Futuro, evento sobre performance e a aliança desta forma de arte com ciência e tecnologia, se apresenta a multi-instrumentista Mary Fê.

O PPF acontece no Oi Futuro do Flamengo, nos dias 11, 12, 13 e 14 de novembro. A programação completa pode ser conferida neste link.

Veterana da cena musical carioca, Mary Fê conta com incursões nas artes cênicas e da performance no decorrer da sua carreira. Ela leva o que faz bem a sério, apesar de ter bastante senso de humor e leveza no seu trabalho.

Ela apresenta durante os quatro dias do festival o Pequeno Terrorismo de Bolso, performance em que ela se apresenta mascarada, usando um figurino que conta, além da roupa, com microfone, uma mini-guitarra, mini-amplificadores e um nintendo DS - tudo, é lógico, funcional e fazendo muita música. As apresentações serão transmitidas ao vivo no site oficial de Mary.

O trabalho da moça é muito legal, então seria uma pena você não conferir o myspace e o site oficial dela.

Depois do Terrorismo da Mary Fê, vale bastante a pena conferir a apresentação das Guerrilla Girls, um grupo de arte e feminismo baseado em Nova Iorque que problematiza o machismo no mundo das artes e da cultura midiática com humor e engajamento político. Confira aqui o site oficial deste pessoal.

O amor segundo J.S.

Quem me vê assim, escrevendo sobre música e cultura portuguesa semana sim e outra também, pode até pensar que meu envolvimento com Portugal sempre teve a intensidade dos últimos cinco anos. Ledo engano. Como bom adolescente cujo vínculo com a cultura lusa se dava única a exclusivamente por intermédio da herança familiar, romper com o peso desta tradição e renegar toda e qualquer afinidade com Portugal era um dos meus passatempos favoritos. Um dos pontos de virada desta relação turbulenta se deu com a descoberta, lá pelos idos de 2002 ou 2003, da obra do escritor José Saramago. Lembro até hoje da sensação de enfrentar – a palavra é mesmo essa – as primeiras dez, quinze páginas da “História do cerco de Lisboa” e todo o peso simbólico que o nome do escritor trazia consigo, para logo em seguida me surpreender deslumbrado com a riqueza de sua prosa. Fico profundamente irritado toda vez que leio nalgum lugar que Saramago é “difícil”, “árido” ou, pior, que o autor não sabe pontuar as frases. Ora, perder-se nos labirínticos parágrafos concebidos pelo escritor é o que há de mais precioso na experiência de se ler Saramago. Fora que, por detrás da aparente complexidade do texto, residem sentimentos de uma simplicidade estarrecedora.

Senão, veja-se este trecho da “História do cerco de Lisboa”, que junto com “O ano da morte de Ricardo Reis” talvez seja de fato um dos livros menos acessíveis do Mestre: nele, Raimundo Silva, o revisor que por descuido, convicção ou ambos, altera uma palavra da supracitada “História...” (e, assim, metaforicamente modifica o passado segundo o qual os Cruzados teriam ajudado na expulsão dos mouros da cidade de Lisboa), é conduzido de carro por sua superiora, Maria Sara, por quem nutre uma espécie de paixão platônica, até bem próximo de onde ele mora, na região do Castelo de São Jorge. Depois me digam se trecho equivalente da literatura em língua portuguesa deu conta de maneira tão certeira do preciso instante em que nasce um sentimento.

“Um dia, talvez por efeito duma luz que fará recordar esta, límpida e fria tarde que vai esmorecendo, se dirá, Lembras-te, primeiro o silêncio dentro do carro, as palavras difíceis, o olhar tenso e expectante, os protestos e as insistências, Deixe-me na Baixa, por favor, tomo aí um eléctrico, Ora essa, levo-o a casa, não me custa nada, Mas sai do seu caminho, Eu, não, o automóvel, Não é cómodo subir aos sítios onde eu vivo, Ao pé do castelo, Sabe onde moro, Na Rua do Milagre de Santo António, vi na sua ficha, depois um certo e ainda hesitante desafogo, corpo e espírito meio distendidos, mas as palavras sempre acauteladas, até ao momento em que Maria Sara disse, Pensarmos nós que estamos onde foi a cidade moura, e Raimundo Silva a fingir que não percebera a intenção, Sim, estamos, e a tentar mudar de conversa, porém ela, Às vezes ponho-me a imaginar como terá sido aquilo, as pessoas, as casas, a vida, e ele calado, obstinadamente calado agora, sentindo que a detestava como se detesta um invasor, foi ao ponto de dizer, Saio aqui, que estou perto, mas ela não parou nem respondeu, o resto do caminho fizeram-no em silêncio. Quando o carro parou à porta, Raimundo Silva, embora sem ter a certeza de ser isto um acto de boa educação, achou que devia convidá-la a subir, e logo se arrependeu, É uma indelicadeza, pensou, e aliás não devo esquecer-me que sou subordinado, foi nesta altura que ela disse, Fica para outro dia, hoje é tarde. Sobre esta frase histórica se há-de fazer extenso debate, pois Raimundo Silva está capaz de jurar que as palavras então ditas foram outras, e não menos históricas, Ainda não é tempo.”

***

Por que estou rememorando estas coisas? Porque na sexta-feira passada finalmente chegou aos cinemas cariocas o belo documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, que parte do dia-a-dia do escritor português durante o processo criativo do livro “A viagem do elefante” para tecer um singelo retrato da história de amor entre Saramago e a jornalista espanhola Pilar del Rio. No fundo, o documentário em si mesmo é como um livro de Saramago: por detrás de todas as frases cáusticas contra Deus e a humanidade, o que há é um profundo desejo pela vida e uma vontade de amar incontrolável. E como se Saramago por si só não fosse suficiente, ainda somos brindados com uma bela trilha sonora da banda Noiserv composta exclusivamente para o filme. “José e Pilar” também é uma boa oportunidade para revisitar o longa anterior de Gonçalves Mendes, o subestimado e intrigante “Floripes”. E para descobrir a literatura de Saramgo, ora pois.

No mais, fica o conselho: assista agora, porque sempre é tempo.

Mais uma produção Auto Tune

Depois do mega hit "Bed Intruder Song", postado e analisado aqui neste blog pelo Lucas, agora é a vez do sucesso de mais uma produção em que se usa o Auto Tune para transformar falas de cunho "sério" transmitidas na TV em uma música que reconfigura completamente os discursos.

Refiro-me aqui ao ótimo "Serra ♥ Dilma", uma música (?) sobre amor, perdão e desempenho sexual "cantada" pelos dois ex-candidatos à presidência.



Novamente ficam as questões: qualquer material pode ser transformado em música? A composição em questão pode ser considerada de fato uma música? Se realmente for entendida e comercializada como tal (como a Bed Intruder Song), quais sujeitos envolvidos (voluntária ou involuntariamente) com a produção devem receber por ela? As novas tecnologias (no caso o auto tune) reconfiguram totalmente o circuito de produção-distribuição-consumo de música ou os grandes "players" ainda vigoram e ditam as regras do mercado de música? O humor é característica marcante dessas produções? E por aí vai...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Entretenimento e Globalização



O melhor livro que li nos últimos anos foi “A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa”, em que o historiador Nicolau Sevcenko explica no capítulo “Máquinas, massas, percepções e mentes” a importância do entretenimento para a consolidação do mundo globalizado.

Sevcenko volta ao fim do século XIX, época que ele considera ser berço do capitalismo monopolista, pois estão se formando as grandes multinacionais (em substituição às empresas familiares), e narra a transformação do conceito de lazer para o de entretenimento, com o surgimento das diversões baratas para as massas, como os parques de diversões, os cinemas, e outros grandes centros de lazer que incluíam em um mesmo lugar várias experiências de divertimento.

Mas a inovação da narrativa do livro está em defender que as novas percepções e sensibilidades geradas pelas novas experiências de entretenimento trouxeram ao indivíduo moderno a possibilidade e a sensação de estar sempre em movimento, atitude que o autor defende ser uma exigência da globalização.

É como se o entretenimento estivesse preparando as pessoas, já no fim do século XIX, para um período histórico de intensa fluidez e efemeridade. As sensações geradas pelas novas formas de diversão se assemelhavam ao ritmo da globalização, que segundo Sevcenko, se consolidou nos anos de 1970.

O livro contribui bastante também para entendermos a formação das grandes metrópoles como sendo berços dessas experiências efêmeras e isoladas. Tenta explicar historicamente a formação do sentimento de solidão e isolamento nas cidades, já que foram habitadas por indivíduos com culturas totalmente diferentes e que, por isso, sentiam dificuldade de se identificarem com a coletividade. Os grandes centros de entretenimento, nesse sentido, eram mediadores importantes, na época, dessas culturas distintas.

domingo, 7 de novembro de 2010

Lan houses e telecentros na América Latina: estudo comparado

Foi lançada em agosto deste ano a publicação Puntos de acceso público a la información en América Latina, com os resultados de uma pesquisa sobre acesso à informação em centros públicos de utilização de tecnologias de informação e comunicação - como telecentros, lan houses, cibercafés e bibliotecas públicas - em seis países da América Latina (Argentina, Honduras, República Dominicana, Costa Rica, Peru e Brasil). A pesquisa global, que incluiu também outros 17 países em todo o mundo, foi realizada entre 2007 e 2009, pelo TASCHA (Technology and Social Change Group), da Escola de Comunicação da Universidade de Washington, e o capítulo brasileiro foi conduzido pela Fundação Pensamento Digital.

Em primeiro lugar, é interessante ressaltar nesta pesquisa o mérito de considerar tanto os telecentros e bibliotecas públicas quanto as lan houses e os cibercafés como espaços importantes para se pensar como as TICs são apropriadas pelas pessoas e que papel elas podem exercer no desenvolvimento social e na diminuição das desigualdades existentes nestes países. Como eu discuti na dissertação de mestrado, a maior parte dos trabalhos acadêmicos sobre o que tem sido chamado de "inclusão digital" tem como objeto apenas os centros públicos de acesso gratuito, mantidos por governos ou por ONGs, e desconsidera os centros de acesso pago, sob o argumento de que estes seriam espaços de entretenimento subordinados à lógica do mercado. No Brasil, desconsiderar as lan houses e os cibercafés é fechar os olhos para uma realidade na qual, segunda a última TIC Domicílios (2009), pesquisa realizada pelo CGI.br, 45% dos acessos se dão nestes centros de acesso pago, enquanto apenas 4% acontecem em centros de acesso gratuito.

Outro ponto interessante do estudo é trazer uma análise comparada sobre a utilização das TICs nos 23 países. Cabe ressaltar que, como a pesquisa tinha o objetivo claro de analisar o acesso a informações, não há aprofundamento da comparação entre os diversos usos - lazer, sociabilidade, educação, etc. - que podem ser atribuídos pelos usuários a estes espaços em contextos diversos. No entanto, algumas comparações mais gerais indicam características comuns e que foram observadas também no meu trabalho de campo, realizado em uma comunidade de baixa renda de Niterói (RJ). São espaços frequentados predominantemente por jovens, em busca de comunicação, entretenimento, educação. A maior parte dos frequentadores é composta por homens, o que reflete diferenças mais amplas de gênero existentes nesses países, embora haja exceções, reflexo de situações sociais mais abrangentes mais do que de igualdade entre gêneros. É o caso do Nepal, em que o número de mulheres e homens nos telecentros é mais ou menos igual, e muitas mulheres frequentam os espaços para conversar com seus maridos que foram para o exterior para estudar ou trabalhar.

Segundo o estudo, os espaços são pouco utilizados pelos frequentadores para conseguir as informações de que necessitam em sua vida cotidiana (
como trabalho, educação, saúde, cultura, transporte, serviços de governo e inclusão social), mesmo aqueles montados com esta finalidade, como os telecentros e as bibliotecas públicas. As informações são encontradas com mais frequencia em outros locais, como os meios de comunicação de massa e instituições como escolas, igrejas e governos. Nos centros, entendidos pela pesquisa como centros comunitários e não só como locais de acesso à rede mundial de computadores, há pouca informação relevante disponível para as comunidades e os frequentadores têm dificuldades em buscá-la na internet, seja porque não encontram os caminhos para conteúdo relevante seja porque não há conteúdo voltado para as comunidades, em linguagem local e em formatos acessíveis.

Como recomendação, o estudo fala da importância da existência de "infomediadores" que ajudem a organizar os conteúdos e a promover a ponte entre as informações disponíveis e os contextos locais. Os monitores de telecentros e bibliotecas e os funcionários de lan houses e cibercafés já cumprem, em certo nível, este papel, mas, segundo o estudo, este papel de mediador ainda é pouco exercido e acontece de maneira mais sistemática nos telecentros. Para a TASCHA, o ideal seria que estes três tipos de espaços se articulassem, de forma a complementar suas funções, e que a gestão do processo e das necessidades fosse feita por comitês locais.

Embora o foco da análise seja acesso à informação, o capítulo brasileiro foca no potencial de uso das TICs para melhorar a qualidade da educação e, consequentemente, nesta visão, o desenvolvimento social. Gostaria de chamar a atenção para a limitação desses enfoques. Não basta pensar nas TICs como acesso à informação ou como melhoria da educação para transformá-las em ferramentas para o desenvolvimento social dos países e a diminuição das desigualdades. E para ampliar a discussão, trago aqui alguns pontos levantados na conclusão da dissertação. Utilizando telecentros, lan houses, laboratórios de escolas ou pontos de cultura, acredito que os projetos de inclusão digital precisam ampliar suas metas para que possam contribuir para mudanças nas condições econômicas, políticas e sociais da população, como as citadas abaixo:

- Possibilitar a democratização não só do acesso, mas da produção e troca de informações e cultura por um número maior de indivíduos, inserindo a discussão sobre a inclusão digital numa discussão mais ampla sobre democratização da comunicação, diversidade cultural e democracia política.

- Possibilitar o exercício da cidadania que se estende para além do acesso aos serviços do governo eletrônico e que se referem à capacidade e à possibilidade dos cidadãos participarem da esfera pública como fiscalizadores e orientadores de políticas públicas.

- Promover o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos, sua capacidade de crítica e sua capacidade de “aprender a aprender”, cada vez mais exigidas na sociedade atual, incluindo o papel do lúdico como linguagem neste processo. Outras mudanças importantes são a ênfase na autonomia e na criatividade dos sujeitos no desenvolvimento do conhecimento e na necessidade de constante aperfeiçoamento e aprendizagem. Novas formas de sociabilidade, interação e cooperação também se desenvolvem quando a mediação do computador e das redes eletrônicas passa a ser central em diversos setores da vida social.

- Incentivar o desenvolvimento tecnológico do Brasil, e não a mera inserção dos indivíduos no consumo de produtos globalizados, permitindo a autonomia do país frente às grandes potências mundiais, e a rediscussão do conceito de propriedade intelectual, de modo que o desenvolvimento tecnológico possa efetivamente contribuir para a diminuição das desigualdades entre os países.

- Elaborar os projetos sociais que envolvem tecnologia em diálogo com as próprias comunidades - entendidas não só como objetos, mas como sujeitos de políticas públicas - e com outras instituições fundamentais para o desenvolvimento dos indivíduos, sobretudo os jovens: família, escola, associações comunitárias, mídia de massa etc.

- Por fim, articular políticas de democratização do consumo e da produção de informação a outras políticas sociais mais amplas, em áreas diversas como educação, cultura, emprego, saúde, distribuição de renda e possibilidade de participação política.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Victor & Leo: Onde o sertanejo esbarra na MPB

por Gustavo Alonso


CD Boa Sorte pra você, Som Livre, 2010

É frequente legitimar um gênero que surge no cenário cultural brasileiro a partir da associação com a MPB. Ou seja, quase sempre os críticos associam determinados cantores e grupos à tradição da MPB como forma de legitima-los. O que está implicito nesta atitude é a valorização de gêneros a partir da lente da MPB, ou seja, a nova música é tão boa que quase chega a ser parecido com a descendência de Cartola, Tom Jobim, Caetano, Chico, Elis Regina, etc.

Foi assim com o rock nacional, que apesar da oposição ao "banquinho e violão" da MPB, logo foi incorporado (e valorizado) como parte da "linha evolutiva" da música brasileira. Não a toa Cazuza é frequentemente lembrado pela gravação de Cartola, embora esta canção não se encontre na sua discografia pessoal. Os Paralamas também só foram incorporados à louvável tradição a partir do LP Selvagem?, de 1986. Até então os discos anteriores, "Cinema mudo" e "O passo do Lui" (1983 e 1984, retrospectivamente), foram vistos hegemonicamente como uma reprodução musical do grupo de ska inglês Police. Mais recentemente os Los Hermanos foram valorizados pela lente da MPB. O compositor Marcelo Camelo foi frequentemente citado como "poeta" e suas letras comparadas às de Chico Buarque, especialmente a partir do disco Ventura, de 2003.

Pois bem. Se a MPB quiser começar a incorporar os sertanejos universitários a dupla Victor & Léo é definitivamente a que melhor cumpre este papel. Apesar do repúdio das classes médias (que gradualmente ficam restringidas ao Rio de Janeiro, e mesmo assim, olhe lá) o gênero que se configurou como sertanejo universitário tomou o país. De fato, é dificil falar disso (e ainda por cima fazer um carioca acreditar que estou certo), mas o genêro tomou o Brasil faz tempo. Aliás, tomou o lugar do axé como grande vendedor de discos e megaconcertos. Do Nordeste ao Sul, pode ter certeza, o que se ouve no Brasil é o sertanejo universitário.

E por que isso acontece? Penso que o sertanejo, longe de ser um gênero propriamente dito, como era o sertanejo dos anos 90, se configura como uma amálgama de estilos. Há ainda os romanticos da geração anterior (Bruno e Marrone, chitão e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano), mas há aqueles que ousam misturar axé, forró, rock (à la anos 80) e, no caso de Victor & Léo, MPB. E a dupla citada é que melhor o faz, apesar de vários tentarem.

E essa "tentativa" tem sido bem recompesada. Eu já escrevi aqui no blog que Victor Chaves, o irmão compositor, foi a pessoa que mais arrecadou direitos autorais em 2009 em todo o Brasil (ver dados do ECAD: http://www.ecad.org.br/ViewController/publico/RankingAutoral.aspx). Com agenda lotada, shows garantidos com lotação máxima, aparições na TV e uma gravadora fundamental na historia do sertanejo universitário (Som Livre), os irmãos estão com tudo.

O disco "Boa sorte pra você" é o terceiro de estúdio da dupla, que tem também dois CDs "ao vivo", o formato predominante do atual sertanejo universitário. Esteticamente o disco amarra uma série de conceitos desenvolvidos pela dupla. Pra começar, Victor Chaves é autor de 80% do disco, como quase sempre, e parece conhecer na veia um bom refrão com a simplicidade de um hitmaker como tantos na musica brasileira, de Lulu Santos a Leoni nos anos 80 a Buchecha nos anos 90. Diferentemente das outras duplas, Victor & Leo ainda se mostram românticos, num cenário em cada vez mais os sertanejos universitários cantam as separações e a positividade de "é melhor estar sozinho do que mal acompanhado". Aliás, nesse aspecto Victor & Léo são "conservadores" de uma estética dos anos 90; outras duplas baseiam sua carreira no "me deixa em paz", uma ruptura representativa da trajetória do gênero sertanejo pouco analisada e levado a sério pela critica atual. Aliás a definição do que é "sertanejo universitário" é um problema pouco abordado nas críticas em geral, e talvez a questão do viés romantico abordado (ou não) seja um aspecto a se considerar. Nesse sentido Victor & Leo continuam "tradicionais", apesar de que as músicas não são mais de "corno", mas positivas e otimistas em relação ao amor.

Tudo isso já se delineava nos discos anteriores e segue neste. Há ainda a busca de filiação à tradição de Chitãozinho e Xororó através da regravação de "Nascemos para Cantar", sucesso da dupla paranaense de 1991. Mas apesar da filiação ao passado, sempre enfatizada por Victor e Léo, eles parecem dar "um passo à frente" no gênero. São os que conseguem fazer dialogar duas tradições brasileiras: a música sertaneja e a MPB.

Para quem duvida do que estou falando convido ouvir duas gravações de uma mesma música: "Deus e eu no sertão". A original de 2002 têm um Léo que canta com vibratos, emoção acentuada, parecendo querer imitar um Bruno e Marrone. Em 2004 a canção foi regravad pela primeira vez no LP Vida Boa (Independente). Em 2008 foi regravada novamente, desta vez na voz de Victor e entrou na trilha sonora de Paraíso como abertura da novela global das 7. A segunda versão tem um Leo cantando sem vibrato, mais contido, atento aos "excessos" tão criticados pela MPB na música sertaneja. A terceira versão cantada por Victor é ainda mais soft, sem nenhum dos tradicionais vibratos e prolongamentos vocais da música sertaneja da década anterior. Não à toa choca alguns ouvidos que gostam da tradição Xororó e Zezé. Entrevistei um cantor sertanejo, que fez sucesso nos anos 90 e que depois sumiu do mercado, que relatou seu incômodo em relação ao canto "contido" de Leo: "O cara não solta a voz! Esse cara não canta direito! Parece o João Gilberto cantanto sertanejo!", me disse.

O sertanejo universitário continua cantando em alto e bom som, com vibrato e voz sempre um grau a mais em volume que os instrumentos. Mas isso não acontece com Leo. Victor, por sua vez, um ótimo violonista, foi um dos responsáveis no sertanejo universitario pelo deslocamento da guitarra elétrica. Se a guitarra tinha sido elemento principal do sertanejo de Chitãozinho, Zezé, Leonardo e companhia nos anos 90, foi definitivamente riscada do mapa do sertanejo universitário. Não apenas a guitarra, também os teclados foram deletados. Agora é a vez do violão de aço e da sanfona.

A levada de Victor Chaves é sempre entre o rock balada e gêneros também incorporados pela MPB, como forró (em "Timidez), o pop (em "Não vá pra Califórnia) e reggae (em "Agua de Oceano").

Não será espanto se Victor & Léo forem incorporados e aceitos cada vez mais pela MPB. Tradicionais "caipiras" que odiaram o boom sertanejo dos anos 90, como Renato Teixeira e Almir Sater, já gravaram com a dupla ("Vida Boa" e "Tocando em frente", respectivamente). Aliás, depois que Caetano Veloso se encarregou de produzir a trilha sonora do filme de Zezé Di Camargo e Luciano tudo pode acontecer.

Leo parece já ter percebido essa incorporação. Em recente declaração feita no site da dupla (em 27/08/2010) Leo falou da quebra de "preconceitos" no cenário musical brasileiro e da possivel e desejável incorporação da dupla pela "boa" tradição nacional:

"Quero parabenizar a todos os indicados ao Prêmio Multishow. Sei que, entre eles, estavam artistas que fazem um excelente trabalho. Muito mais que uma vitória da dupla Victor e Leo, foi o grande passo dado pela música brasileira, através deste prêmio, que abre espaço e reconhece uma cultura com tanta verdade, raiz e história, como a música sertaneja, que vem do interior do Brasil, especialmente das áreas rurais, e que ganha cada vez mais espaço nos grandes centros. Isso é que precisa ser comemorado e reconhecido.
Parabéns aos organizadores do Prêmio por terem aberto este espaço e quebrado uma barreira que está no fim, mas que ainda existe.
A todos que votaram nos seus artistas favoritos, que se emocionam, que sentem no coração a energia da música, e que os acompanham, sem medir esforços, muito obrigado.
Parabéns a todos que fazem parte da música sertaneja! Parabéns à música brasileira!"