domingo, 5 de dezembro de 2010

Brasilidade: Gaby Amarantos e o Tecnomelody


No post de hoje o tema principal é a participação da paraense Gaby Amarantos no Encontro Brasilidade promovido pelo Ministério da Cultura, que animou o Rio de Janeiro entre os dia 18 de novembro até 2 dezembro. Mas antes de falar de Gaby, apresento um pouco desta agenda proposta pelo governo. Foram realizadas cerca de 450 atividades culturais de diferentes linguagens artísticas como circo, teatro, música e audiovisual, além da distribuição de títulos de Ordem de Mérito Cultural no Teatro Municipal na última quinta-feira, e homenagens a Darcy Ribeiro. Dinheiro público para manifestações culturais em locais públicos faz muito sentido e não requer contrapartidas tortas.

Os 18 shows realizados nos palcos dos Arcos da Lapa e do Largo da Carioca contaram com apresentações de nomes como Lenine, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto, Wilson das Neves, Orquestra Voadora, entre outros. Tudo isso na semana mais chapa quente dos últimos tempos na capital carioca, diga-se de passagem...
Sábado conferi - sem medo! - os shows de Céu e Otto no palco montado ao lado dos Arcos Lapa. Adorei. Há muito tempo não me lembro de freqüentar shows gratuitos aqui no Rio e fiquei bem impressionada com a escolha dos artistas feita pela curadoria do Brasilidade. Não se prenderam a “raízes” de nenhuma expressão cultural local, em prol de algum purismo, mas, felizmente, favoreceram a diversidade e hibridez de estilos e artistas.

Foi nessa onda que Gaby Amarantos representou a Região Norte no show que pude assistir numa segunda-feira de muito calor. Encontrei com amigos e conhecidos por lá e, pontualmente, às 18h o tecnobrega começou a ressoar no Largo da Carioca.

A cantora ficou conhecida no país recentemente por conta versão de “Single Lady”, que em tecnobrega, ou mais precisamente tecnomelody, virou “Tô Solteira”. O sucesso da faixa acabou lhe rendendo a fama de Beyoncé do Pará, apresentações em programas de TV, e parcerias com artistas de outros estilos. No videocast cultural Compacto, Gaby conta um pouco de sua história, que vai do gosto pelo brega até a música eletrônica e canta o hit Tô Solteira acompanhada pelos mascarados, Mombojó e a também pernambucana, Catarina Dee Jah.


Compacto com Gaby Amarantos e Catarina Dee Jah

Entre as referências que Gaby e sua banda Tecnoshow apresentaram, me surpreendi com o refrão de “Hey Ya” do Out Cast seguido do clássico das pistas, "Pump the Jam". O sucesso mundial “Panamericano”, na versão eletro melody de seus conterrâneos da Gang do Eletro animou e muito o público. No meio do show, a carioca Thalma de Freitas subiu ao palco e cantou com Gaby a canção “Beba Doida”, composta especialmente para a nova amiga.

Durante a performance, Gaby ensinava passos de dança e também a posição de braços cruzados em “Faz o T”, gesto-símbolo do tecnobrega que me foi apresentado pelo filme Brega S/A, documentário que mostra a cena do tecnobrega no Pará. Mas a surpresa final aconteceu quando Gaby, ao fim do show, gritou “Faz o T de Tecnologia!”. Esta frase lacônica sintetiza o imprescindível apoio que o tecnobrega tem nas tecnologias digitais; apoio que vai desde a estética musical do tipo eletrônica, até as formas de distribuição criadas pela cena em CD´s e DVD´s “piratas”, e é claro, no aspecto espetaculoso das aparelhagens, que soltam luzes fogos e o que mais puder.

A frase me lembrou imediatamente o objeto de pesquisa que venho explorando, o Funk Carioca, por conta da disputa entre as equipes de som, exclamadas em slogans como “Cash Box: o som acima do normal” ou “Pipos Ultra: a maior e melhor do Brasil“, e no clássico “Furacão 2000: a número 1 do Brasil”, ainda nos tempo mais remotos do Funk. Para além da competitividade entre a potência sonora e visual das aparelhagens e equipes de som, acredito que existam outras convergências entre estas duas manifestações culturais, que incluem a o estouro de sucessos em rádios comunitárias, venda de coletâneas de mp3 como forma suporte de distribuição e remixes em adaptações de sucessos do pop para seu nicho.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Melhores do ano... do lado de lá!

Hora de botar o Soulseek pra trabalhar, malta brasileira interessada em descobrir o que há de mais bacana na nova música pop feita em Portugal – e aqui passamos longe da “renovação” defendida por aquela infâme matéria do Bom dia, Brasil, vale destacar. A revista Blitz acabou de divulgar a sua tradicional listinha de Melhores do Ano, da qual participaram Ana Patrícia Silva, André Gomes, António Coelho, Cláudia Marques, José Miguel Rodrigues, Lia Pereira, Luís Guerra, Mário Rui Vieira, Miguel Cadete, Miguel Cunha, Pedro Barbosa da Silva, Pedro Dias da Silva, Ricardo Braz Frade, Ricardo Raínho, Rodrigo Madeira, Rui Miguel Abreu e Theo Thornton, jornalistas e colaboradores regulares da publicação.

Do 30º ao primeiríssimo lugar, que é pra aumentar o suspense...

30. Long way to Alaska – Eastriver

29. Francisco Ribeiro – Desiderata ou a Junção do Bem

28. Peixe:Avião – Madrugada

27. Linda Martini – Casa ocupada

26. Tiago Guillul – V

25. Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti – idem

24. Tiago Bettencourt & Mantha – Em fuga

23. Carlos Barreto Lokomotiv – Labirintos

22. Bunnyranch – If you’ve missed the last train

21. Bernardo Sassetti Trio – Motion

20. Storm Legion – Desolation Angels

19. Pedro Abrunhosa e Comitê Caviar – Longe

18. More than a thousand – Make friends and enemies

17. Tigrala – Tigrala

16. The Poppers – Up with lust

15. Soaked Lamb – Hats & chairs

14. Rita Redshoes – Lights & darks

13. Mão Morta – Pesadelo em peluche

12. David Fonseca – Between waves

11. Nuno Prata – Deve haver

10. Paus – É uma água

09. Corações de Atum – Romance/Hardcore

08. Galandum Galundaina – Senhor Galandum

07. Lula Pena – Troubadour

06. Pop Dell’Arte – Contra mundum

05. Orelha negra – Orelha negra

04. B Fachada – Há festa na moradia

03. António Zambujo – Guia

02. Deolinda – Dois selos e um carimbo

01. Camané – Do amor e dos dias

Uma lista que tem o fadista Camané como cabeça-de-cartaz tinha tudo para ser previsível, o que felizmente não ocorre. Há, claro, os suspeitos de costume – David Fonseca, Mão Morta, Zambujo – mas no geral a lista da Blitz apresenta algumas boas surpresas. Primeiro, pelo regresso de alguns nomes que ou andavam sumidos (caso dos ge-ni-ais Pop Dell’Arte) ou não atravessavam uma maré muito favorável junto à crítica e ao público (nunca imaginei que Pedro Abrunhosa voltaria a ser levado a sério após um último disco algo falhado). Segundo, pela confirmação de bandas e artistas cujos primeiros álbuns haviam apontado caminhos promissores (num nível mais massivo, claro, o Deolinda, mas também Rita Redshoes, Peixe:Avião, Linda Martini e Soaked Lamb, que tem um adorável álbum de estreia). Terceiro, pela ausência quase total de nomes vinculados à Flor Caveira/ Amor Fúria, após um 2009 glorioso: apenas o “V” de Tiago Guillul frequenta a lista da Blitz, e mesmo assim um longinquo vigésimo sexto lugar. Nesse sentido, estranho a ausência do “Pequeno almoço continental” dos Pontos Negros, que merecia figurar ao lado do Soaked Lamb e dos Peixe:Avião no quesito “promessas cumpridas”. No mais, é saudar a estreia do Tigrala – banda formada pelo virtuoso guitarrista Norberto Lobo, que ao vivo leva um som lindíssimo – e o regresso de Lula Pena ao estúdio. A apresentação que reuniu o trio e a trovadora no Lisboa Mistura do ano passado foi qualquer coisa para o meu miocárdio.

A fotogaleria da lista pode ser conferida na íntegra aqui. Agora falta só aguardar a lista do Público, outra que também merece ser levada em conta. E como da última vez em que expressei minha opinião sobre listas choveram comentários de vozes dissonantes, ora muito bem, quem começa?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Namoro no rádio


A rádio Nativa FM (103,7) transmite todos os dias, das 20h às 22h, o programa Paquera Nativa. Há umas semanas venho ouvindo quase todas as noites para entender qual o perfil dos ouvintes que esperam arrumar um namorado ou namorada com a ajuda do rádio. Pelo o que percebi, claro que ainda muito empiricamente, são pessoas na faixa etária entre 40 e 60 anos, das classes C e D, moradores do subúrbio do Rio, que enfatizam, num primeiro momento, que gostariam de um companheiro/a (não falam em namorada ou namorado), e que querem fazer amizade com o possível candidato antes de se comprometerem amorosamente. A emissora tenta equilibrar a participação de homens e mulheres.

A novidade deste programa, no entanto, é que o contato do público com o rádio é mediado pela internet. Primeiro os interessados em participar fazem um cadastro na internet e a produção do Paquera Nativa liga para aqueles que se cadastraram. Aí os ouvintes entram ao vivo no ar, descrevem como são fisicamente e ainda narram como desejam que seja a pessoa com a qual querem se encontrar. Aí dizem o número do celular (é engraçado que muitas vezes antes mesmo do locutor terminar o papo com o participante, a gente ouve o celular da pessoa tocar. Um exemplo de que há um retorno). Tradicionalmente, e ainda em muitos programas hoje em dia, os ouvintes ligam diretamente para a emissora a fim de participarem.

Enquanto eu escuto o Paquera Nativa, fico pensando porque existe no rádio um programa deste tipo, já que esse formato de programação fazia e ainda faz muito sucesso na TV . Lembro do Silvio Santos com o “Namoro na TV” e o “Em nome do amor” (com o famoso e tosco bailinho). Até a MTV, há uns poucos anos investiu no “Fica comigo”, e atualmente o Rodrigo Faro transmite o “Vai dar namoro”. E cada vez mais a internet é uma ferramenta utilizada para juntar casais, nos bate-papos e as redes sociais. Uma diferença é que no rádio e na internet os candidatos não levam um fora na frente de milhares de telespectadores, como acontecia com esses programas na TV.

Enfim, uma das questões legais do Paquera Nativa é a nova forma que o rádio está encontrando para lidar com os ouvintes ao utilizar a internet, que no caso deste programa, é a porta de entrada. Antigamente era o telefone. Fiquei refletindo nas mudanças que as novas tecnologias podem ter trazido para a comunicação massiva. Ou seja, pensei que pode haver uma segmentação ainda maior de público no rádio em virtude da mediação pela internet. E, obviamente, uma transformação da programação ao disponibilizar a internet para um cadastro prévio dos ouvintes antes deles participarem ao vivo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

My Chemical Romance: Uma experiência musical para além da música

Cada vez mais eu tenho acreditado - e visto por aí - que, na luta pela atenção entre as diversas bandas, grupos e artistas solos de música, ganham aqueles que oferecem ao público a oportunidade de participar de uma experiência que vai além da venda do disco - no formato que for.

Uma banda que ganhou minha atenção nas últimas semanas foi o My Chemical Romance (os meus seguidores do Twitter que têm sofrido com isso).

O lançamento do quarto disco - Danger Days: The True Lives of The Fabulous Killjoys - foi rodeado de vídeos misteriosos, contas do Twitter que aterrorizaram os fãs e a apresentação dos Killjoys, os heróis justiceiros - interpretados pelos membros da banda - que estão lutando contra uma empresa de drogas sintéticas, a Better Living Industries.


Os primeiros vídeos a serem lançados foram esses:


Depois, veio a apresentação dos personagens e do primeiro single, "Na Na Na", no vídeo "Art Is The Weapon":


Só depois é que veio o primeiro videoclipe do disco:


No canal da banda no YouTube, também encontramos alguns comerciais da empresa, como o vídeo abaixo:


Recentemente, o segundo videoclipe (para a música SING) foi lançado:


O que eu achei mais interessante nessa história toda é que se trata um bom exemplo de "transmídia" ou "convergência" aplicado à música, coisa meio rara de se ver por aí. Os vídeos e a história dos Killjoys poderia ter parado no lançamento, mas parece que vai continuar por um bom tempo. Aos poucos, alguns mistérios vem sendo mostrados ao público. Os únicos dois videoclipes que saíram desse disco contam a história da luta contra a Better Living Ind. a e algumas outras músicas possuem relação direta com a história. S/C/A/R/E/C/R/O/W, por exemplo, é o nome de alguma empresa ainda desconhecida do público. Além dos videoclipes, há o locutor Dr. Death Defying que tem um programa de rádio onde narra alguns acontecimentos, o telejornal da Better Living Ind. e o site da empresa. E isso sem falar da cidade fictícia Battery City, onde toda a ação acontece.


Esse caso mostra mais uma vez que, em relação a um momento interior, a venda direta de música não parece ser o foco primeiro das bandas e das gravadoras. Mesmo uma banda relativamente grande como o My Chemical Romance, primeiro criou estratégias de fortalecimento de laços com os fãs, para depois fazer o lançamento oficial do disco, sem esquecer que é importante manter os laços ao continuar a história dos Killjoys contra a Better Living Ind.

Para ver mais: site oficial da banda, canal YouTube, blog Cassie - The Venomous (fã que tem "logado" tudo o que acontece com os Killjoys).

Sobre a mediação:


Mediação = colocando em comunicação, aproximando artista e público
No modelo da indústria fonográfica de século XX, a do mainstream, a do massivo, a filtragem era feita por parte da indústria. Era ela quem decidia o que ia ser ouvido, quando ia ser ouvido, aonde e por que pessoas. Não que ela tenha perdido totalmente seu poder, mas num período de 10 anos os lucros caíram pela metade.
No momento atual o que temos é um excesso de informação e músicas disponíveis, ou seja, uma descentralização da mediação, no momento anterior a indústria fonográfica centralizava a mediação e a filtragem musical.
Quanto maior o excesso, maior a necessidade de filtros para a aproximação dos artistas do público. Os mediadores funcionam como filtros.
Comunidades no Orkut, perfil no Facebook são tentativas de filtragem, que intencionam levar o público a ouvir o som da banda no Myspace ou para assistirem a um vídeo e etc. Tenho observado que o poder de mediação dessas redes é relevante, porém bastante reduzido, para as bandas essas redes não tem passado de murais de divulgação. Você manda uma mensagem automática da para 500 amigos, alguns repassam para mais 500 amigos, algumas pessoas seguem o link e no show da umas 100 cabeças e é assim que funciona.
Mas um ator muito importante vem tomando a cena, ele vem daquele modelo antigo da indústria, mas agora numa roupagem diferente, procurando não apenas ser ouvido, mas também ouvir; são as web rádios. Elas são uma ótima forma de divulgação para as bandas e muitas delas estão sempre a procura de novos sons, de boa qualidade, para alimentar a programação. Quando o som vem até você é muito mais fácil, e eu diria até mais prazeroso, e para as bandas que têm suas músicas na programação também é muito gratificante.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Minha nova obsessão

Uma das bandas que eu mais me arrependo de não ter conferido ao vivo durante a minha sejour lisboeta no ano passado foi o Tiguana Bibles. Ao efetuar o download – gratuito, vale reforçar – do EP “Child of the moon” no site da Optimus Discos, fui imediatamente cativado pela mistura de romantismo neo-noir e rockabilly onírico que transborda das cinco faixas do álbum. Uma em especial – a versão lentinha de “Lost words” – se tornou a minha música favorita das últimas três semanas, após ter se convertido, meio sem querer, em peça fundamental no processo de pré-produção do curta-metragem que estou parindo. Nunca fui muito dado a escutar coisas em modo repeat, e sempre achei que o melhor botão de um CD Player (sim, ainda sou do tempo destas traquitanas) era o eject, que me permitia trocar de disco e variar a trilha sonora; esta é a razão pela qual, em toda a minha curta vida apenas duas faixas foram capazes de se tornar obsessões nesse sentido. Sendo “First of the gang to die” do Morrisey a outra faixa, e tendo Boz Boorer, produtor dos Tiguana, já colaborado com o gênio inglês, posso afirmar com alguma certeza que minha obsessão por “Lost words” não é de todo incompreensível, certo?

Victor Torpedo (guitarra), Pedro Serra (baixo) e Carlos Mendes (bateria) possuem ótimos antecedentes: em algum momento pré-TB, fizeram parte das excelentes bandas Bunnyranch, Tédio Boys e Parkinsons, todas nomes fundamentais daquela que ficou consagrada como “cena de Coimbra”, a mesma de onde saíram É mas foi-se, Belle Chase Hotel, Wraygunn, Legendary Tigerman, d3Ö, Sean Riley and the Slowriders e tantas outras ao longo dos últimos dois decênios e meio. E depois, há a voz da londrina Tracy Vandal, mais nova integrante da lista de vozes-femininas-que-eu-gostaria-de-ouvir-cantando-pra-mim-quando-eu-chegasse-no-céu – existindo céu e tendo o Criador bom gosto musical, naturalmente. Ouçam-na no mesmo EP entoando os versos de “Lonesome town” e tentem adormecer em paz depois. Ou atraquem-se de uma vez por todas com o videoclipe de “Lost words”.

(Eu por cá continuo na torcida por um longa-duração do Tiguana Bibles, da mesma forma que espero pelo debut do Governo, a banda capitaneada por valter hugo mãe que igualmente compõe o rol de descobertas-musicais-que-fazem-o-doutorado-valer-a-pena. Um concerto no Circo Voador reunindo os dois não seria totalmente despropositado, não?)