Querido Pai Natal,
Em 2009 comportei-me como um bom menino. Cumpri todas as minhas obrigações, fui generoso com os mais velhos – e até consegui emplacar algumas publicações Qualis B! Haja vista que apenas um mísero presentinho não faria jus a todo o meu esforço – e aproveitando que o frete da Lapônia para Lisboa decerto doerá menos no seu bolso do que se o Senhor tivesse que enviar os presentes para o Brasil – tomei a liberdade de elaborar uma breve listinha de prendas que gostava imenso de ganhar nesse Natal.
“
Virou!”, Diabo na Cruz: Os Diabo na Cruz são um super-grupo composto por Jorge Cruz, B Fachada, Bernardo Barata, João Gil e João Pinheiro, e “Virou!” é mais um artigo indispensável a brotar da usina criativa da editora Flor Caveira. Em pouco mais de 35 minutos, desdobra-se um coquetel sonoro que vai da música (dita) tradicional portuguesa mais castiça ao prog-punk-funk mais desavergonhado, tudo permeado com muito bom humor e uma alegria contagiante. É um álbum onde o Licor Beirão encontra a Gordon Stout, por assim dizer. Eu poderia passar horas abusando a vossa paciência em meio a tergiversações sobre o caráter híbrido de “Virou!”, o problema é que as minhas pernas, ainda sob o efeito de canções como “Os loucos estão certos”, “Corridinho de verão” e “Tão lindo”, não me permitem. Há ainda uma pequena jóia de dois minutos e pico chamada “Dona Ligeirinha”, séria candidata a canção pop do ano. Para ouvir dando graças aos céus.
“Nem lhe tocava”, Samuel Úria: Que Samuel Úria é um letrista extraordinário seus registros fonográficos anteriores (“O caminho ferroviár
io estreito”, “Em bruto” e “Samuel Úria e as Velhas Glórias”) já davam mostras mais do que suficientes. O que “Nem lhe tocava”, debut de Úria em CD de circulação nacional oferece de surpreendente, portanto (e nesse quesito, “Nem lhe tocava” está para a obra anterior de Úria como “New skin for the old ceremony” estava para a trilogia “Songs...” de Leonard Cohen), é o casamento sempre harmonioso de letras inteligentes e engenhosas com arranjos que vão do retro mais old fashioned (há um órgão Korg matador abrilhantando diversas faixas) ao universo de bandas como Racounters e trovadores como Johnny Cash, processados à portuguesa (ouça-se “Não arrastem o meu caixão” e sua sugestiva citação a Amália-via-Variações). “O diabo” conquista à primeira audição, enquanto a já clássica “Teimoso” aqui aparece numa versão banhada em falsetes e repleta de suingue, bastante diferente daquela que conhecíamos do EP “Em bruto”. Uma ode à autoconsciência pop que precisa ser ouvida. Por todos. Do lado de cá e de lá do Atlântico.
“Zoetrope”, Micro Audio Waves & Rui Horta: “Zoetrope” é um misto de espetáculo multimídia e assalto aos s
entidos concebido pelo trio eletropop Micro Audio Waves e o coreógrafo Rui Horta, a partir dos célebres estudos de movimento empreendidos por Edward Muybridge em meados do século XIX que, algum tempo mais tarde, desembocaram no cinema. Após uma apresentação arrebatadora no Grande Auditório da Culturgest em novembro, a edição ora nas lojas – CD+DVD+embalagem “zoetrópica” simulando o efeito de um cavalo e de uma pessoa correndo, leitmotiv do espetáculo como um todo, aliás, além de indiscutível mais-valia contra o simples download das faixas (ou pelo menos para mim, que adoro essas bossas) impõe-se como artigo indispensável na prateleira de todos aqueles que, como eu, sentem um arrepio na espinha diante de faixas como “Spider & I”, de Brian Eno. E se você consegue conceber a idéia de sair pela rua afora dançando catarticamente ao som de uma canção supostamente triste (pense, sei lá, em “Why does my heart feel so bad” do Moby a título de exemplo inocente), então “Long tongue” (última faixa do CD+DVD, na voz cristalina de Claudia Efe) tem imenso potencial para ser a sua melodia de boas vindas a 2010.
“Um mundo catita”, de Filipe Melo & João Leitão, com Manuel João Vieira e elenco: como quase tudo na minha vida, esbarrei com essa preciosidade zapeando acid
entalmente pela RTP2 durante uma noite de domingo algo tediosa. Duas horas e poucos minutos depois, tinha a certeza de ter testemunhado qualquer coisa de indescritível e epifânico, que para a minha felicidade acabou de ser lançada em DVD (duplo, coalhado de extras, incluindo uma hilariante aparição de Vieira no Programa do Aleixo). Aos não-iniciados, cabe uma breve apresentação: Manuel João Vieira é uma figura singularíssima no cenário artístico-midiático português, atuando como artista plástico, político, ator, dono de Cabaret (o Maxime, na Baixa Lisboeta), crooner de espetáculos de strip tease e vocalista de bandas que vão do chunga ao sublime num piscar de olhos. Homem de mil personalidades, Manuel João Vieira interpreta Manuel João Vieira neste alucinado conto de Natal (a sério!) em seis episódios sobre as desventuras existenciais e amorosas de um pobre diabo vivendo seu inferno astral. Em seus momentos mais felizes, lembra o melhor do cinema de avacalhação brasileiro dos anos 70: há sacanagem e palavrões a rodo, e ao mesmo tempo um profundo afeto pelos personagens. Em questão de segundos, as referências (muitas) vão de vaginas e “Comando Delta” a “O Sétimo Selo” e Salazar. Acenda uma vela a Bukowski e outra a Cláudio Cunha, e aperte o play.
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Um Feliz Natal e uma excelente virada para 2010 a todos aqueles que fazem e lêem (e, por isso mesmo, indiscutivelmente também fazem) o LabCULT. Abraços, saudades (não dizem ser a saudade um sentimento tipicamente português?)... e até já!
2 comentários:
Tiago querido.
Muitas saudades, torcendo pra vc voltar logo.Tenha um Feliz Natal por aí! E tudo muito bom em 2010!
Bjs,
Simone
Feliz Natal para vc Tiago e pra todos! Estamos aguardando o seu regresso por aqui e brindamos a vc tb lá no encontro/festa de fim de ano do grupo. Aliás, Simone, parabéns novamente pelos seus dotes culinários! E obrigado por nos tê-los revelados :)
Abraços e beijos!
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