Goste-se ou não do estilo entre o parvo e o sofisticado do time de entrevistadores, das intermináveis rubricas e dos esquetes que interrompem as entrevistas a todo momento, o “5 pra meia noite” é uma lufada de ar fresco na programação da TV generalista portuguesa. Todas as bordoadas que volta e meia a crítica desfere sobre o talk show diário da RTP2 parecem atacar justamente aquilo que eu mais aprecio no programa: a desmesura, os excessos e aquela coisa muito adolescente de se falar palavrão diante dos tios mais velhos só pelo prazer de deixá-los em choque. Fora que, onde mais na TV portuguesa você reuniria no mesmo sofá o bardo cristo-folk Samuel Úria e a ex-namorada espanhola de Cristiano Ronaldo para uma conversa em torno de... de... sobre o que eles conversaram mesmo?
Outro dia eu juro que abdiquei de um programa social assaz empolgante para chegar mais cedo em casa e conferir a aparição de Ana Malhôa no “5 para a meia noite”. Como a imensa maioria de vocês não deve fazer idéia de quem se trata, lá vai uma breve biografia da moça: Ana Malhôa é filha de José Malhôa, autor dos hits pimba mais deliciosamente infames dos últimos tempos (não confundir com o pintor português José Malhôa, que é nome de avenida em Lisboa e tudo o mais, por favor). Tem 30 anos de idade e 25 de carreira, pois começou ainda criança, na TV portuguesa – onde, durante muito tempo, apresentou um programa infantil que, pelo que eu percebi, meio que inaugurou a onda das apresentadoras estilo-Xuxa nas bandas de cá do Atlântico. Depois virou cantora, com uma batelada de CDs lançados, podendo ser enquadrada naquilo que alguns chamam (pejorativamente) de pimba mas que eu prefiro chamo de MPV – música popular para o verão. Ou seja, hits dançáveis, a base de teclados eletrônicos, concebidos para animar a malta nos arraiais e romarias que atravessam Portugal de lés-a-lés, cujo pico de vendagem e popularidade acontece entre os meses de junho e setembro e depois se reduz consideravelmente. Basta ver que, na FNAC, a prateleira que nos meses supracitados era ocupada pela Família Malhôa, Quim Barreiros e Emanuel a partir de outubro passou a ostentar CDs de... Bossa Nova!
Como toda música sazonal, a MPV é bastante influenciada pela moda musical do momento, o que faz com que a sonoridade dos álbuns dessa galera mude radicalmente de um par de discos para o outro: Ana Malhôa já foi latina, já foi hip hop, e agora, ao que tudo indica, parece estar numa vibe eletro-pop/rock – evidência do bom momento que o pop/rock luso cantado em português parece estar vivendo, aliás. Apareceu no “5 pra meia noite” vestida de preto (dos pés à cabeça, diga-se de passagem, o que é surpreendente para alguém célebre pelos seus atributos... eh... bem, a Playboy portuguesa que o diga) e com um corte de cabelo que me lembrou a onipresente Lady Gaga na capa do álbum “The fame”, só que morena.
E por falar em Lady Gaga, havia um componente provocatório no discurso da moça que, para além de todo aquele blábláblá sobre performance e construção da imagem midiática do artista, pareceu cair como uma luva naquele sofá pilotado pelo (na minha opinião) sempre competente Nilton. É aquela velha história, talvez eu jamais comprasse um CD da Ana Malhôa porque estética e musicalmente ela não me diz grandes coisas, mas confesso que durante pelo menos um par de vezes eu me surpreendi lançando sucessivos “yeahs” diante de certas declarações feitas pela rapariga no ar. Exemplos: “às vezes a Ana Malhôa aparece na TV ou na imprensa usando um determinado tipo de bota e já dizem que é roupa de prostituta. Mas quando a Beyoncé aparece usando o mesmo traje, todo mundo acha super tendência”, “há uma pequena minoria de artistas que recebem subsídio do Estado para fazer shows e depois dizem que só se apresentam nos grandes festivais, desprezando o circuito das festas populares e romarias que é onde todo mundo se faz” (e criticar a política de subsídios estatais numa TV pública como a RTP2 é, no mínimo, bastante ousado), “a RFM e a Antena 3 [emissoras de perfil massivo-juvenil, sendo que a última também faz parte da rede pública] nunca tocam as minhas músicas, mas de vez em quando me chama para um bate-papo, o que já é bom, porque mesmo assim eu consigo passar a minha mensagem”. Fora certas declarações a propósito do casamento e adoção entre pessoas do mesmo sexo, tema atualmente em discussão mídia portuguesa, que a cantora usou como pretexto para, vá lá, “denunciar” certas posturas hipócritas da parcela mais conservadora da sociedade.
Ora, diabos, chamem isso de “pose”, “estratégia de mercado” ou do que quer que seja, mas vamos combinar que não é qualquer um – e eu posso dizer de cadeira que já vi uma boa dezena de entrevistas do “5 pra meia noite” com músicos e afins – que se propõe a confrontar certos sensos comuns estabelecidos ao vivo em rede nacional. Ok, às portas da madrugada, num canal de perfil mais “elitizado” e num programa com fama de enfant terrible, mas ainda assim, há que se considerar que tais declarações não vieram da boca de um habitué da Festa do Avante, mas sim daquilo que, em Portugal, é considerado o suprasumo do mau gosto e da mediocridade estética (a ponto de a gente raramente saber o que essa galera tem pra dizer, visto que a visibilidade dos “pimbas” para além da revistas chamadas “cor-de-rosa” [outro preconceito] é praticamente nula).
E já que uma das modas lançadas pelo “5 pra meia noite” é a criação de petições a torto e a direito, arrisco-me aqui a propor mais uma: Ana Malhôa para a Assembléia de República já!
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Ana Malhôa presidente!
Marcadores:
5 para a meia noite,
Ana Malhoa,
Música e Cultura Portuguesa
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário