quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Novidades da Portugália musical


Deolinda e Mazgani foram os representantes portugueses no Eurosonic, grande vitrine da música popular midiática européia, que decorreu na Holanda entre os dias 15 e 16 do mês de janeiro. Sobre os Deolinda já teci alguns comentários aqui nesse blog, inclusive iniciando uma mini-mobilização para a vinda do grupo ao Brasil (que dado o meu imenso potencial de agitação social, parece que não andou pra frente): fazem um som que dialoga com certos aspectos castiços do fado, embora o transcendam nalguns aspectos, sobretudo na tão decantada melancolia. “Cantar a tristeza rindo” é o mote do grupo. Ao vivo, apresentam um espetáculo contagiante, conduzido pela habilidade de storyteller da simpática Ana Bacalhau (que voz, meu Jesus, que voz...).

Para resumir Mazgani em duas linhas, basta dizer que abri mão de ver Beach House no último festival SuperBock em Stock para re-ver Mazgani no Cabaret Maxime. O cantor de ascendência luso-iraniana faz um amálgama de tudo o que vale a pena escutar no âmbito trovadoresco-esfumaçado que já nos deu Johhny Cash, Nick Cave, Tom Waits e Leonard Cohen. Ao vivo, suas apresentações se assemelham a um misto de pregação e exorcismo coletivo. A voz rascante de Mazgani pode ser escutada no álbum “Songs of the new heart” e no indispensável EP “Tell the people”, disponível para download gratuito no site da Optimus Discos.

Compreensível, portanto, que Deolinda e Mazgani tenham sido escolhidos para representar o pop/rock português contemporâneo no Eurosonic. Na diversidade de suas propostas e dos nichos musicais a que se dirigem, são do melhor que tem sido feito aqui na Terrinha ultimamente. Incluísse Samuel Úria e o Cacique 97 e teríamos uma espécie de lista perfeita.

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No post passado chorei algumas pitangas a propósito da ausência de uma bibliografia consistente no âmbito da música poptuguesa. Pois como dizia o outro, meus/nossos problemas acabaram! Acabou de ser lançado aqui na Terrinha o primeiro de um total de quatro volumes da “Enciclopédia da música em Portugal no século XX” (Círculo de Leitores), monumental trabalho coordenado pela Professora Salwa Castelo Branco (INET-MD/UNL) e mais uma vasta equipe de pesquisadores ao longo dos últimos 13 (!!) anos. É a primeira obra do gênero no âmbito da música massiva e midiática lusa (iniciativas anteriores apenas haviam coberto o universo da música erudita ou da música tradicional); seu escopo abrange não apenas artistas e gêneros, como também instrumentos musicais e fluxos (o verbete “música brasileira em Portugal” é particularmente entusiasmante); e não fosse por todos os méritos acima enumerados, já valeria pela ruptura de certas fronteiras no interior da produção musical lusa, o que possibilita encontros deliciosos (como, por exemplo, “Barreiros, Quim” e “Barreto, Jorge Lima” dividindo a mesma página do Volume I) e inesperados. Se a turma que esteve envolvida na feitura da “Enciclopédia...” estiver lendo este post, aqui vão os parabéns entusiasmados, não apenas em meu nome, como também em nome de todo o LabCULT. E que o lançamento da “Enciclopédia...” represente não a conclusão, mas o início de todo um processo de (auto) descoberta da música portuguesa. Aqui e além-mar.

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