quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A rede no samba: continuando o debate sobre o enredo da Portela

Dois posts atrás, Jefferson apresentou o enredo da Portela deste ano: inclusão digital. (Valeu pela dica, Jeff, ainda não tinha ouvido o samba!)

A escolha do enredo da escola não me causa surpresa. "Inclusão digital" está, digamos, na moda, presente em grande parte dos discursos sobre desigualdade social nos dias de hoje. Poder público, empresas de telecomunicações e informática, ONGs, educadores e acadêmicos se unem na concepção que associa inclusão digital e inclusão social, como se o simples acesso à tecnologia fosse capaz de diminuir as desigualdades sociais.

Este imaginário está explicitado na descrição do enredo da Portela. Vale a pena reproduzir alguns trechos do diálogo via chat que foi a forma (criativa) da escola apresentar o tema aos internautas. O bate-papo acontece entre um professor - que explica o enredo, as fantasias e as vantagens do desenvolvimento tecnológico - e um aluno - que aprende e tira dúvidas com o professor, só concordando, sem emitir qualquer opinião sobre o assunto, bem no esquema de aprendizado vertical a que nos acostumamos e que a internet poderia ajudar a quebrar.


(00:20:47) Professor fala para estudante: No segundo setor [da escola] temos a representação da inclusão digital. É a democratização do acesso às tecnologias da informação. Esse processo significa, antes de tudo, melhorar as condições de vida de uma região ou comunidade com a ajuda da tecnologia. Com isso, o universo das comunidades pode ser transformado. Desse modo, a criança remodela-se surgindo como um novo homem. A despeito das afirmações que a máquina seria o fim do homem, a tecnologia pode ser usada para o seu desenvolvimento, e como uma ferramenta para a sua inclusão neste novo mundo.

(00:21:16) Estudante fala para professor: Bacana, mestre.

(...)

(00:46:57) Professor fala para estudante: Vamos mexer com as emoções!...Outro benefício do desenvolvimento da tecnologia refere-se à medicina, no campo da robótica...É a união homem e máquina num conceito: Liberdade que transforma!

(00:49:16) Professor fala para estudante: Na verdade, por muito tempo cogitou-se que a máquina seria o fim do homem, e nosso enredo enfoca as melhorias e benefícios dessa ferramenta de inclusão, socialização e democracia libertária. É o fim do Apartheid digital!

(00:53:10) Estudante fala para professor: Pô, papo cabeça, rs...mas irado!!!!!!!!!

(00:54:14) Professor fala para estudante: Agora, olha lá!...É a ação de combate à exclusão social, veremos várias pessoas de diferentes classes sociais, nível educacional, portadoras de deficiência física ou mental, idosas...Enfim, todas que infelizmente estão à margem e sem acesso a oportunidades... Todos em busca de uma igualdade e unidos pela mesma paixão.

(00:57:46) Estudante fala para professor: Perfeito!!!!!!!


O diálogo termina com o professor dizendo que, com este tema tão atual, a Portela está mais uma vez "na vanguarda da história".

De acordo com um dos carnavalescos da escola, Alex de Oliveira, em informação publicada no
blog do Sidney Rezende, a sinopse do enredo foi inspirada no samba "Dia de graça", do Candeia, composto nos anos 1960:

Hoje é manhã de carnaval (ao esplendor)
As escolas vão desfilar (garbosamente)
Aquela gente de cor com a imponência de um rei, vai pisar na passarela (salve a Portela)
Vamos esquecer os desenganos (que passamos)
Viver alegria que sonhamos (durante o ano)
Damos o nosso coração, alegria e amor a todos sem distinção de cor
Mas depois da ilusão, coitado
Negro volta ao humilde barracão
Negro acorda é hora de acordar
Não negue a raça
Torne toda manhã dia de graça
Negro não se humilhe nem humilhe a ninguém
Todas as raças já foram escravas também
E deixa de ser rei só na folia e faça da sua Maria uma rainha todos os dias
E cante o samba na universidade
E verás que seu filho será príncipe de verdade
Aí então jamais tu voltarás ao barracão


O bonito samba do Candeia traz o que durante muitos anos esteve (ainda está) presente no imaginário de grande parte da população como promessa de ascensão social: a educação. Com a quase universalização do ensino básico no Brasil, o aumento do acesso dos jovens das classes populares à universidade - sobretudo às particulares - a tese da educação como a principal forma de resolução dos males do mundo fica mais difícil de ser sustentada. Entrar na universidade pra ser príncipe de verdade e deixar o barracão parece não mais bastar. Um novo tipo de "exclusão" ocupa o imaginário e está refletido no carnaval carioca: a exclusão digital, também chamada de brecha ou apartheid digital. Nessa visão, o indivíduo precisa ser incluído digitalmente para que tenha sua inserção social garantida.

Curtindo o carnaval ao som da Portela de hoje e de 40 anos atrás, podemos nos perguntar: que tipo de "exclusão social" estará encobrindo um debate mais aprofundado sobre o problema da desigualdade social daqui a 40 anos?

***

Mais um "detalhe": A Portela de 2010 será patrocinada pela Positivo Informática, maior fabricante de computadores do Brasil e maior fornecedora de Tecnologia Educacional (softwares, portais e equipamentos) para escolas públicas e privadas. A empresa é um braço do Grupo Positivo, que também atua diretamente no setor da educação, com uma rede de escolas e universidades e a confecção de material didático.

O nome da empresa é citado explicitamente na letra do samba:

Faz da criança um cidadão
Positivo pra nação


Mas este é assunto para outro post...


4 comentários:

Jefferson Chagas disse...

A Grande Rio também conta com um patrocínio desses...dessa vez é a Brahma. Além de entrarem com uma lata gigante no sambódramo, no samba-enredo também tem uma homenagem ao camarote número 1. Acho que está virando tendência.

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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オテモヤン disse...
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