domingo, 4 de julho de 2010

A TV na Terrinha segundo o jornal O Globo

Não deixa de ser louvável que a Revista da TV do Jornal O Globo do dia 27 de junho tenha dado visibilidade à produção televisual portuguesa contemporânea ao abordar o caso da SIC. Pena que a história tenha ficado meio mal contada. Em regra, não há nenhuma informação incorreta na matéria de Tatiana Contreiras, apenas algumas omissões importantes e outros tantos exageros que poderiam ser moderados. Por exemplo, ao sustentar que a SIC, criada em 1992, foi a primeira emissora privada portuguesa após anos de controle estatal, fica parecendo que o Estado português deixou de atuar no ramo televisivo – o que não é verdade, haja vista que as RTPs 1 e 2 continuam a existir.

A omissão mais grave, contudo, é aquela que simplesmente apaga a maior concorrente da SIC, a TVI. Neste aspecto em particular, fica evidente o desejo da matéria em promover a primeira, que sempre foi uma espécie de veículo privilegiado não apenas da teledramaturgia brasileira – e global – em terras lusas, como também de uma certa linguagem/ know how brazuca de se fazer TV (experimente digitar no Youtube a expressão “big show SIC” para ter uma amostra de quão próximos eram os imaginários dos programas de auditório brasileiros e portugueses em meados dos anos 90). A despeito disso, já faz um bom tempo que a SIC perdeu a liderança nos sharings de audiência, sobretudo a partir do início dos anos 00, quando a TVI investiu pesado nos formatos de reality show e, depois, numa produção teledramatúrgica própria que atualmente responde pelas maiores audiências da TV portuguesa (em dias sem futebol, vale registrar).

Parêntese. Eu confesso que não sou muito fã das novelas da TVI, embora curtisse dar uma espiadela ocasional em “Meu amor”, quando não para ouvir a música de abertura do José Cid. Neste quesito, a concorrente “Perfeito coração” da SIC me agradava muito mais, talvez por basear-se numa estrutura dramatúrgica mais próxima daquilo a que estamos acostumados no Brasil. Não duvido que o êxito das novelas da TVI decorra precisamente da busca por uma linguagem própria, mais afeita aos códigos narrativos portugueses do que as congêneres brasileiras. Fecha parêntese.

Da omissão ao exagero: óbvio que é do interesse da Globo (e do Globo) promover o produto nacional, mas de uns tempos pra cá eu comecei a encarar com algum ceticismo este discurso sobre a hegemonia das telenovelas brasileiras em Portugal. Porque não apenas as novelas da TVI lideram os rankings de audiência como também a produção portuguesa da SIC alcança índices mais expressivos do que as novelas brasileiras. Ao chegar em Lisboa no mês de julho do ano passado, surpreendi-me com o horário ingrato no qual “Caminho das índias” era exibida: onze e meia da noite, muito distante do prime time, portanto. Quando “Viver a vida” estreou no horário nobre, apostei com a minha orientadora portuguesa que tão logo “Perfeito coração” fosse lançada, a novela de Manoel Carlos seria exilada para as onze da noite. Ela duvidou, alegando que as temáticas do cotidiano de Manoel Carlos seriam sucesso garantido. Não deu outra: foi a congênere lusa estrear para os dramas de Helena e cia serem ultrapassados na preferência local por três novelas da TVI, pelo telejornal da RTP1... e por “Perfeito coração”.

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P.S. ainda em clima de Copa: o documentarista português Ivan Dias esteve no Brasil durante as últimas duas semanas cumprindo uma dupla tarefa: coletando entrevistas para um filme sobre o papel do cavaquinho na constituição do imaginário musical luso-brasileiro e captando depoimentos para um doc sobre a histórica partida de futebol entre Portugal e Brasil no Mundial de 1966, quando a seleção de Eusébio, Colina e cia encaçapou o Brasil de Pelé, nos eliminando do torneio ainda na primeira fase. O mote deste último projeto é o novo embate entre os dois times, durante a Copa da África do Sul, utilizando como interlocutora privilegiada a comunidade lusa residente no Brasil que testemunhou o confronto original. Se no jogo do último dia 25 o que reinou foi o já clássico discurso das “nações irmãs” – para o qual certamente contribuiu o insosso zero-a-zero do placar final – em 66 o buraco deve ter sido bem mais embaixo: minha mãe, ela mesma uma imigrante portuguesa, me contou que estava fazendo compras numa papelaria na ocasião do jogo de 66 e as funcionárias se recusaram a atendê-la por ela ser portuguesa. Muito se fala sobre o preconceito sofrido pelo brasileiros que moram em Portugal, falta alguém escrever a história daquilo pelo que passaram os imigrantes portugueses no Brasil dos anos 50 e 60.

Em relação ao documentário sobre o cavaquinho, atesto apenas que Ivan Dias me parece um nome pra lá de confiável na abordagem do tema: é de sua autoria a eficiente série da RTP “Povo que canta”, uma viagem inspirada pelas recolhas etnomusicológicas de Michel Giacometti por diversas regiões portuguesas à procura de evidências da mutabilidade das formas tradicionais em canto e dança. O episódio duplo sobre Trás os Montes é particularmente instigante.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Copa e o Estereótipo

Antes que o evento acabe e eu perca o bonde da história, lá vai: a Copa do Mundo é uma oportunidade fascinante para quem se interessa pelos diversos modos segundo os quais os discursos do estereótipo são (des)construídos. Outro dia mesmo, em seu programa matinal, a inenarrável Ana Maria Braga comentava qualquer coisa sobre a força das “seleções sul-africanas” (sic), como se não houvesse apenas uma, mas várias, Áfricas-do-Sul disputando o torneio. Vindo de quem veio eu nem chego a me surpreender, mas tendo em vista que um dos símbolos da transmissão global é uma bola de futebol com o contorno de TODO o continente africano em sua superfície, desconfio que deva ter uma galera considerável reunindo Argélia, Gana, Nigéria, Costa do Marfim e os donos da casa num mesmo saco. Há momentos em que eu me sinto no século XIX. E aquela roupinha cáqui dos repórteres da Globo não deixa todos eles com a maior pinta de Dr. Livingstone?

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Segunda-feira de manhã, intervalo do bailarico oferecido pela seleção portuguesa ao escrete da Coreia do Norte: entra um repórter da supracitada emissora, ao vivo da Casa de Portugal em São Paulo, onde uma torcida animada acompanhava a partida. A plateia era majoritariamente idosa/de meia idade; havia vinho, sardinha e bacalhau sobre uma mesa próxima, e a trilha sonora, a base de concertina e bumbo, era chamada de “vira” pelo repórter até um dos velhinhos esclarecer que, na verdade, se tratava de uma chula.

Corta para as arquibancadas do estádio sul-africano onde transcorria o jogo. Usando a bandeira verde-e-vermelha como se fosse uma capa, trajando músculos de espuma e ostentando um enooorme bigode postiço, um torcedor português mandava vibes positivas para a seleção. Se isto não é uma apropriação criativa do clichê, então já não sei mais do se trata.

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O programa “Lá e cá”, da TV Cultura/RTP2, continua firme e forte em suas transmissões dominicais, que podem ser assistidas já a partir de segunda no site do programa. Alguns episódios ecoam diretamente questões volta e meia discutidas por este que vos blogueia aqui no LabCULT. A sensação de não estar falando sozinho é de fato muito boa.

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Polêmica à vista, segundo a edição on line da revista portuguesa Blitz: depois que “I got a feeling” dos Black Eyed Peas foi escolhida pela seleção portuguesa de futebol como a música oficial de Portugal na Copa, diversos artistas da cena pop lusa – de Rui “GNR” Reininho a Tiago Guillul, passando por Fernando Ribeiro (que canta em inglês no Moonspell) e Rui Veloso – vieram a público demonstrar seu descontentamento. “Mais uma vez a nossa atitude é a mais parola de todas as equipas: ir buscar uns americanos quaisquer. Isto mostra o provincianismo português em todo o seu esplendor", diz o líder dos GNR. Já o vocalista do Moonspell declara que a seleção "representa futebolisticamente e não culturalmente o nosso país. A música devia ser portuguesa porque a selecção é portuguesa, mas há outras maneiras de defender e preservar a nossa cultura”.

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E sendo ano de Copa do Mundo com o verão às portas, o Top + da Associação Fonográfica Portuguesa começa a ser tomado de assalto não apenas por discos da MPV (Música Popular para o Verão, ou Música Popular Alternativa, segundo o PortalPimba, grata descoberta que fiz por acaso dia desses, numa definição que dá pano pra manga...), como também por discos da MPV com temática trocadilho-futebolística. O destaque absoluto vai para a nova obra do mestre Quim Barreiros, “Deixai-me chutar”. Eu por cá acho que qualquer faixa deste disco daria um hino melhor do que “I got a feeling” do BEP, mas isto deixa pra lá.

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No mais, é esperar por sexta-feira.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dica de filme no Cinesul 2010


Há pelo menos um filme imperdível dentro da Mostra Competiva de Curtas do Cinesul 2010, que rola até o dia 27 deste mês em diversos espaços culturais da cidade do Rio: é o doc made in Portugal "Visita guiada", de Tiago Hespanha, que tive a oportunidade de conferir em primeira mão no Festival Indie Lisboa de 2009 e no qual arrebatou - com justiça, aliás - o prêmio de melhor curta documentário. O filme acompanha a rotina de diversos guias turísticos Portugal afora, detendo-se nos diversos modos pelos quais a identidade do país é construída a partir do discurso destes profissionais. O mais bacana é que ele discute justamente o caráter difuso e subjetivo das narrativas de identidade nacional: é curioso perceber como, nas entrelinhas do discurso mais senso-comum sobre monumentos tão tradicionais quanto o Castelo de Guimarães ou a Torre de Belém, por vezes transparecem determinadas marcas de contraditoriedade que são fundamentais para a imagem de Portugal que aqueles turistas irão conservar daquele momento em diante. 90% da graça do curta - sim, "Visita guiada" consegue ser genuinamente engraçado por diversas vezes - depende de algum mínimo conhecimento da história portuguesa, mas a despeito disso o filme se afirma como uma peça de interesse a todos aqueles que pensam a relação entre história, turismo e patrimônio.

"Visita guiada" passa de novo, e pela última vez, no próximo sábado (19), às 18h30, na Sala de Vídeo do Centro Cultural dos Correios, pertinho do CCBB. Convém não desperdiçar a chance.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Música provoca dor?

Preparando a aula de amanhã na pós. Uma das que considero de temática mais provocativa do semestre.
É que depois de discutirmos como a música constrói humores, identidades, links com lugares e com a memória, amanhã trataremos do dark side: como sonoridades e música podem provocar dor e serem utilizados como instrumentos de opressão.
O exemplo mais óbvio - recentemente discutido no GT de Cibercultura da Compós a partir do trabalho do José Claudio, pesquisador do LabCult, mais Vinicius e Rafael Sarpa - é o da cena noise.
Mas, neste caso, podemos argumentar que a dor é voluntária: os fãs do movimento subcultural de ruídos extremos cultiva e compartilha seu gosto musical sem coerção, no que os não iniciados vêm como uma espécie de sado-masoquismo sonoro que é absolutamente legítimo, já que auto-imposto.
Entretanto, nos interessa discutir as outras formas de "dor sonora": quando ela é impingida como forma de tortura, de poder, de demarcação da ordem ou para fins de repressão.
Pode ser a dor provocada de maneira involuntária pelo vizinho que cisma em ouvir o hino do Vasco pela décima vez quando preciso concluir um paper á meia-noite. Mas, pode ser intencional. Tal como quando as tropas americanas marcharam sobre a Cidade do Panamá do ditador Noriega em 1989, tocando rock. Ou quando estações de trem na Europa passaram a tocar música clássica, por constatarem que este tipo de música coibia a criminalidade. Ou ainda quando shoppings centers tocam Frank Sinatra para inibir a aglomeração de adolescentes em seus corredores.
Pensamos muito pouco sobre esta dimensão opressiva dos ruídos e como estes usos refletem abuso de poder. E ainda como a "autoridade para fazer barulho" é demarcada socialmente.
Para começarmos a pensar sobre o assunto, este paper, dos autores Martin Cloonan e Bruce Johnson, intitulado "Killing me softly with his song: an initial investigation into the use of popular music as a tool of oppression" (Popular Music, vol 21, no 1) é uma boa introdução.

E a legenda sonora fica com o industrial do Trobbing Gristle

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terça-feira, 15 de junho de 2010

Palestra sobre Cenas Musicais em Lisboa

Extra! Extra! Sei que tá um bocado em cima da hora, mas só fiquei sabendo deste evento ainda há pouco. Parece que amanhã, quarta-feira 16 de junho, rola na Universidade Federal Fluminense (Campus Gragoatá) uma conferência intitulada "Música, cidade, etnicidade: explorações a partir de cenas musicais em Lisboa". O encontro será conduzido pelo professor Dr. Jorge de la Barre, vinculado ao Instituto de Etnomusicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Nova de Lisboa. O evento é promovido pelo PPGCOM de Antropologia da UFF e está marcado para começar às 11h, na sala 207 do Bloco "N". A conferir.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

TJ, o pós-VJ?

Li essa notícia sobre a invenção da MTV americana do Twitter-Jockey (TJ) e estou trazendo pra cá. Incrível como as tais mídias sociais (o twiiter em especial)seguem bombando e pautando reconfigurações na mídia de massas tradiconal. Segue a notícia:


Depois de 20 anos de VJs, MTV americana agora procura 'TJs'
Canal vai contratar apresentador que saiba trabalhar com redes sociais.
Papel do 'Twitter Jockey' será criar ponte entre emissora e audiência.
(Fonte: G1, com informações da AP)

A MTV americana, que há duas décadas inventou o conceito de VJ (Video Jockey), anunciou nesta segunda-feira (14) que irá contratar o seu primeiro "TJ", o "Twitter Jockey".

O canal está atrás de um novo apresentador, com grande conhecimento sobre mídias sociais, para fazer a ponte entre o público a e a emissora. Segundo Stephen Friedman, diretor geral da MTV, o TJ será uma evolução natural da maneira como a MTV se conecta com a audiência.

“O Twitter e o Facebook nos permite tomar decisões mais espertas”, declarou.

O canal já teria 18 candidatos para a vaga e está atrás de mais duas pessoas. Eles serão submetidas a uma série de desafios online, cujo objetivo é descobrir suas personalidades e como se relacionam com seus seguidores do Twitter.

Os cinco melhores irão competir em um programa ao vivo, em 8 de agosto. O público irá escolher o vencedor.

domingo, 13 de junho de 2010

Seminário Internacional Rumos da Cultura da Música

Olá pessoal,

Vou fazer um "spoiler" - um tanto quanto antecipado, com a intenção de assegurar que os interessados possam se organizar para comparecer - do Seminário Internacional Rumos da Cultura da Música: Audibilidades, Estéticas, Linguagens e Negócios, evento organizado pela professora Simone e com realização do LabCult, do PPGCOM da UFF e da Globo Universidade , que ocorrerá no MAM do Rio de Janeiro nos dias 05 e 06 de agosto deste ano.

O seminário - cujo objetivo principal é discutir sobre as reconfigurações que a indústria da música vem sofrendo principalmente a partir da década de 90 nas esferas tanto da produção, da circulação quanto do consumo - contará com palestras de nomes como Jonathan Sterne (McGill Univ), Jason Stanyek (New York University) e Kiri Miller (Brown Univ) entre os "internacionais" e Micael Herschmann (UFRJ), Adriana Amaral (UTP), Jeder Janotti Jr (UFBa), Marildo Nercolini (UFF) e Vinicius Andrade Pereira (UERJ) entre os "nacionais", além, é claro, da própria Simone Pereira de Sá (UFF).

No primeiro dia do evento Sterne fará a palestra de abertura às 14h às 15:30 haverá a primeira mesa (intitulada "Paisagens sonoras e mediação tecnológica") e às 17:15 a segunda mesa ("Os novos mediadores das cenas musicais – blogs, twitter, revistas eletrônicas"). O segundo dia tem início às 14h com a terceira mesa ("Performances musicais em games e plataformas musicais") e é seguido pela quarta e última mesa ("Novos negócios (análise da crise da indústria, novos atores, produção independente, cases de circulação da música na rede)" a partir das 16h. Estão previstas ainda apresentações artísticas e o lançamento de livro relacionado aos temas discutidos no seminário.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas através do blog do evento.

Será realmente uma oportunidade muito bacana para pensar uma série de questões do atual cenário musical.

Fica a (ótima) dica!

sábado, 12 de junho de 2010

StereoMood

"Por trás de toda música, sempre há uma emoção. Não sabemos porquê, mas talvez seja por isso que amamos música".

É com essa frase que nos deparamos ao acessar o stereomood.com, um banco de dados de músicas para serem ouvidas por streaming que são separadas por tags que representam emoções, ocasiões etc.

Que tal ouvir uma seleção de músicas que combinem com o clima "feliz" ou "triste" ou mesmo "está chovendo". O Steremood parece ser a solução certa.


Não é muito diferente do que se tem na Last.fm e é bem mais simples.

Se somos cadastrados, podemos enviar outras músicas para o site e "tagear" as que já estão presentes no banco de dados.