Começa amanhã (quarta, dia 14) e vai até o dia 25 deste mês de julho a 3ª edição do FESTLIP, o Festival de Teatro da Língua Portuguesa. O evento abarca desde espetáculos teatrais até uma "mostra gastronômica" com espécimes culinários dos países participantes - a saber, e em ordem alfabética, que é para não haver problemas:
Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, todos falantes da última flor do Lácio em suas mais diversas configurações - passando por workshops e um espetáculo musical, o Festlipshow, que rola dia 17, no Teatro Odisséia, às 23h.
Ano passado não deu pra conferir o FESTLIP por causa da FLIP; em 2010, graças à bendita Copa do Mundo, os eventos foram alocados em datas diferentes. Ótima oportunidade para conferir uma programação que engloba linguagens, encenadores e propostas totalmente desconhecidos por estas bandas. A grade completa pode ser conferida
aqui. Pelo menos a duas peças eu gostaria imensamente de assistir: "Agosto - contos da emigração", do lendário grupo português A Barraca, e "Chovem amores na rua do matador", que o Grupo (também de Portugal) Trigo Limpo concebeu a partir de texto de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, destaque do Festival de Teatro de Oeiras no ano que passou.
Tudo muito bom, tudo muito bem, mas... Para um Festival que se propõe a colocar em diálogo as manifestações culturais dos países falantes de Língua Portuguesa, me parece no mínimo estranho (e, na pior das hipóteses, uma omissão grave), a ausência de algumas bandeiras no
line up do Festlipshow. Com Teresa Cristina e a Orquestra Voadora representando o Brasas, o Cheny Wa Gune Quarteto defendendo a camisa de Moçambique, Abel Duëre atacando por Angola e Hélio Ramalho por Cabo Verde, fica a pergunta: cadê Guiné, cadê São Tomé, cadê Portugal nessa história? Não havia um mísero músico capaz de representar cada um destes países e, assim, tornar a proposta do evento mais coerente consigo própria?
É por estas e outras que eu tenho alguns problemas com o conceito de Lusofonia, ou pelo menos com o modo tal e qual ele costuma ser apresentado e desenvolvido. A começar pela etimologia da própria palavra, que produz uma incômoda sensação de que o sentimento lusófono é algo que parte de Portugal -
luso, sacaram? - e se espraia inocentemente pelo resto do mundo, o que dá margem a discussões estéreis sobre o berço da língua e sobre o local onde ela supostamente é mais pura, por vezes redundando em questionamentos tostines do tipo "quem tem sotaque, o português, o brasileiro ou o angolano?" - sotaque é coisa que apenas o Outro possui, nunca Eu. Depois, dependendo de quem se apropria do conceito, a Lusofonia, longe de dar conta da pluralidade de matrizes e expressões culturais e simbólicas
atravessadas pelo falar da Língua Portuguesa, acaba se tornando um novo tipo de etnocentrismo, pautado não pela valorização da diversidade, mas sim pela exaltação do comum a partir de um ponto de vista determinado. Dito de outra forma, a Lusofonia made in Portugal é diferente da made in Brasil que é diferente da made in Angola e por aí vai. E se já tinha algumas restrições em relação à primeira, a escalação do Festlipshow me deixou com a incômoda sensação de que a Lusofonia made in Brasil também tem um bocado de problemas. Sendo impossível, pelo menos por enquanto, dissolver as identidades nacionais num Todo Lusófono vagamente utópico, o ideal e esperado seria que, pelo menos, todo os países falantes da Língua Portuguesa fossem contemplados
de alguma forma.
Curiosamente, a lacuna que eu apontei no parágrafo anterior não se verifica na Mostra teatral, apenas na escalação do show musical, o que me deixou com a impressão de que foi a produção do evento que marcou bobeira. Custava pesquisar mais um pouquinho a fim de descobrir se não havia um Timorense levando um som bacana que pudesse enriquecer ainda mais o
line up do show? E já agora falando do meu lugar de pesquisa (porque não há ser humano que consiga conhecer a produção musical de todos os países do mundo, embora seja possível conhecer um pouquinho em profundidade a produção daquele que ocupa nossa cabeça durante quatro anos de doutorado): uma vez que a proposta do FESTLIP é promover a integração e a mistura e etc e tal (vejam que não estou defendendo a presença do Rancho Folclórico de Miranda do Douro, embora isso também me pareça perfeitamente viável), custava sondar um
JP Simões, um
Terrakota, um
Cacique 97, um
Batida, ou mesmo um
Diabo na Cruz, uns
Quais, uma
Márcia, enfim, artistas, bandas e coletivos portugueses que andam pensando as tais pontes sonoras que nos poem em contato uns com os outros?
Fica a dica para 2011...