É galera... parece que hoje em dia falar de Simonal não é mais problema.
Para quem não sabe, estou lutando a dois anos (serio mesmo, dois anos) para publicar uma história da MPB vista através da carreira de Wilson Simonal. No entanto uma série de problemas vem colocando obstáculos sem fim à publicação que tem o título de "Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga".

O subtítulo é uma referencia ao LP do cantor de 1968, que tem como título principal "Alegria, alegria vol. 2 ou Quem não...". No entanto, grande problema não é Simonal (acreditem se puderem), mas uma presumida censura do compositor Chico Buarque.
Pois bem... Venho aqui dividir estas aflições...
Hoje estive conversando com a editora do livro (Record - que sustenta data de publicação para 24/11/2009) e eles disseram com todas as letras que não vão publicar as fotos "comprometedoras" de Chico Buarque no caderno de fotos da minha obra.
Parece que nos dias de hoje o problema não é "resgatar" Wilson Simonal... isso já se tornou senso-comum. Mesmo com as poucas resistências... E muitas vezes de forma ingênua ele vem sendo "resgatado" servindo de música para os mais "cults".
O problema, no entanto, vai além. A questão é que Simonal está sendo resgatado como mais uma estrela "esquecida" "maldita", da MPB ... ou seja, "erramos" em relação a ele. Agora, com as devidas "bênçãos", ele pode voltar a ocupar "seu devido lugar". Mas a questão vai além. Porque só AGORA ele é chamado a ocupar este lugar? Porque só AGORA tornou-se tão "óbvia" a sua inocência? Porque pouco se problematiza o fato de que os mesmos que pisaram em Simonal durante décadas estão AGORA empenhados no seu resgate? Penso que essas são questões importantes e pouco faladas ultimamente...
De qualquer forma voltemos ao "problema" Chico Buarque. O que são as tais fotos "comprometedoras"? Na verdade são apenas fotos que tendem a problematizar a "construção" do mito Chico Buarque. Para além de uma verdade em si, a mitologia em torno do compositor foi construida algumas vezes voluntariamente outras nem tanto.
E como as fotos problematizam a construção do mito? Ora, uma foto que gera muito problema entre os editores é uma imagem de Chico Buarque segurando o boneco MUG na mão.
Assim como Simonal, Chico fez propagando do tal boneco que, dizia-se, dava sorte. Era na verdade o mascote de uma grife de roupas da MPB em empreitada combativa contra as roupas da Jovem Guarda. A grife da MPB acabou não sendo lançada mas a da Jovem Guarda virou alvo dos criticos da ditadura identificados com o "boa música" e a resistencia. As roupas da Jovem Guarda, a jaqueta do Tremendão, a roupa da Ternurinha, etc., essas sempre lembradas por aqueles que acusam o movimento de Roberto Carlos e cia de "mercadológico". Chico também fez propaganda, assim como vários artistas da MPB, pois também estava envolvido na defesa da "musica brasileira" frente a "alienação importada" da Jovem Guarda. E se o mercado também foi o palco dessa disputa, a grande maioria dos artistas identificados com a MPB não via grande problema nessa "descida" ao terreno "vil" do comercialismo. A questão é que, depois de se tornar padrão estético afinado às elites nacionais, os artistas da MPB frequentemente se vêem como fazendo uma arte "de autor", "superior" pois comprometidas apenas com o viés artistico. Bem... no começo as coisas não eram bem assim... Talvez o primeiro grupo a problematizar a questão comercial de fato de forma critica tenha sido os tropicalistas, sem bravatas e palavras de ordem, aliás debochando destas...

Outra imagem "problemática" é uma propaganda do Banco da Lavoura de SP na qual Chico Buarque aparece ao lado do pai. No subtitulo esta escrito "o amigo da familia". Ela circulou na revista Realidade de dezembro de 1968, ou seja, no mesmo mês do AI-5. Essa era a imagem hegemônica do compositor ("bom moço") até, pelo menos, ele voltar do auto-exílio italiano, ou melhor, até ele compor "Apesar de você" e o disco "Construção" (1970/1). Somente aí ele tornou-se o "resistente ideal" tomando o estandarte das mãos de Vandré, que até então ocupava esse imaginário.
Fotos de Chico Buarque fazendo propaganda de máquinas de costura e sandálias também foram vetadas.
Queria mostrar, com a publicação das fotos e o texto, que pilantragem, Jovem Guarda e MPB não eram, na época, tão distintos como hoje frequentemente os vemos. Pelos contrário, lógicas comerciais e tentativas de se impor como padrão estético hegemônico eram bem parecidas. Aliás, por exemplo, o Tropicalismo foi acusado de ser uma "pilantragem", e vice-versa. Para os que não sabem a Pilantragem foi o projeto estético através do qual Simonal atingiu níveis de popularidade e reconhecimento impressionantes nos anos 1960/70. No entanto a memória da Pilantragem foi para o ralo junto com Simonal. Mas, hoje,o problema agora não é mais "resgatar" a Pilantragem... Essa virou "cult".
Mas não se pode tocar em outros mitos. Especialmente porque a imagem através da qual Simonal é resgatado para a MPB é a de que ele é "inocente", para alguns, um "ingênuo", para muitos. Quando muito, foi "usado". Ou seja, Simonal pode ser resgatado pois, assim como toda a sociedade, teria sido vítima do regime militar. Ora, se ele também foi vítima do regime, então também pode entrar no panteão de seus heróis. Ele também teria sido "exilado", não fora do Brasil mas dentro de seu proprio pais, como gostava de falar. Ora, mantém-se a lógica da MPB como bastião da luta contra o regime. De fato, não se pode problematizar nem sequer contextualizar o nascimento dessa postura, pois isso enfraqueceria sua lógica. Por isso Chico não pode ser questionado, parece-me. Por isso o medo em relação a um processo que, para além de perdas monetárias, geraria uma "perda" na imagem da editora. Ninguém quer se colocar "a favor" a ditadura. Nem eu. Mas também não dá mais pra naturalizar certos conceitos e noções da MPB como se ela sempre tivessem sido assim.
O argumento da editora para tal autocensura (desculpe mas não há outro nome) é que o compositor não permitiria sua publicação e se o fizéssemos mesmo assim isso poderia acarretar um processo. Mas estas imagens são fotos já publicadas em revistas e jornais, ou seja, já foram publicadas alguma vez. São, enfim, documentos historicos, fontes abertas a todos. Em tese só precisariamos da liberação do fotógrafo, o que não é dificil de conseguir, bastando vontade. Mas o medo do processo inviabiliza,na prática, qualquer publicação porque entende que o sujeito que aparece na foto tem que autoriza-la! Imagina se formos pedir autorização ao Lula por toda foto que ele aparece? Imagina fazer isso em época de foto digital e internet? Seria melhor, caso o Chico Buarque realmente se importasse de fato muito com sua memoria, que ele acusasse o uso do Photoshop para deturpá-lo, ou de um simples "Paintbrush" para desgastá-lo... o que não foi o caso, obviamente, mas em tempos de virtualidade e simulacros, tudo pode vir a convercer. Ou quase tudo.
De fato, cada dia mais as editoras estão com medo de publicar temas e/ou imagens polêmicas devido a possíveis processos. O problema é que se está evitando posturas corajosas em nome do resguardo do policamente correto! Agora o medo justifica qualquer forma de autocensura. Aliás, esse foi a atitude de muitos órgãos da imprensa durante o regime militar que, passada a ditadura, se vangloriam de ter colocado "receitas de bolo" no lugar de manchetes como se todos fossem entender isso. O curioso é que essa auto-censura nas editoras, pelo menos, me parece ser bem recente! Trata-se de algo posterior a publicação de livro de Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos em 2006. Antes o livros saiam até sem os créditos das fotos (o livro "A Era dos Festivais" de Zuza Homem de Mello saiu assim), o que também não pode, né! Mas de qualquer forma tal ousadia denotava a despreocupação com "patrulha da auto-censura". Voltando ao caso "Roberto Carlos em detalhes", é de se espantar como o autor foi "silenciado": na comemoração dos 50 anos de carreira do cantor seu livro só foi lembrado pelo debochado Agamenon, do Globo. O oba-oba dos 50 anos do rei apagou a censura real. Voltamos a sociedade de soberania? O Foucault se fucô? Esperemos que não.