sábado, 31 de outubro de 2009

conhece o klaus nomi?

"O Klaus Nomi foi uma pessoa bizarrísima" é uma frase recorrente no documentário feito a respeito deste cantor, The Nomi Song, de 2004. E, de fato, ele era.

Contratenor e magérrimo, teve a maior parte de sua carreira ligada a um mesmo figurino. Não era todo mundo que conseguia digerir um ser assexuado, que olhando fixamente nos seus olhos dançava um vogue. Não, não.

Contemporâneo e conterrâneo de Nina Hagen, foi uma figura ativa do New Wave nova-iorquino no comecinho dos anos 80. Aquele flashback que vale a pena.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Chico Buarque censor???

É galera... parece que hoje em dia falar de Simonal não é mais problema.

Para quem não sabe, estou lutando a dois anos (serio mesmo, dois anos) para publicar uma história da MPB vista através da carreira de Wilson Simonal. No entanto uma série de problemas vem colocando obstáculos sem fim à publicação que tem o título de "Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga". O subtítulo é uma referencia ao LP do cantor de 1968, que tem como título principal "Alegria, alegria vol. 2 ou Quem não...". No entanto, grande problema não é Simonal (acreditem se puderem), mas uma presumida censura do compositor Chico Buarque.

Pois bem... Venho aqui dividir estas aflições...
Hoje estive conversando com a editora do livro (Record - que sustenta data de publicação para 24/11/2009) e eles disseram com todas as letras que não vão publicar as fotos "comprometedoras" de Chico Buarque no caderno de fotos da minha obra.

Parece que nos dias de hoje o problema não é "resgatar" Wilson Simonal... isso já se tornou senso-comum. Mesmo com as poucas resistências... E muitas vezes de forma ingênua ele vem sendo "resgatado" servindo de música para os mais "cults".
O problema, no entanto, vai além. A questão é que Simonal está sendo resgatado como mais uma estrela "esquecida" "maldita", da MPB ... ou seja, "erramos" em relação a ele. Agora, com as devidas "bênçãos", ele pode voltar a ocupar "seu devido lugar". Mas a questão vai além. Porque só AGORA ele é chamado a ocupar este lugar? Porque só AGORA tornou-se tão "óbvia" a sua inocência? Porque pouco se problematiza o fato de que os mesmos que pisaram em Simonal durante décadas estão AGORA empenhados no seu resgate? Penso que essas são questões importantes e pouco faladas ultimamente...

De qualquer forma voltemos ao "problema" Chico Buarque. O que são as tais fotos "comprometedoras"? Na verdade são apenas fotos que tendem a problematizar a "construção" do mito Chico Buarque. Para além de uma verdade em si, a mitologia em torno do compositor foi construida algumas vezes voluntariamente outras nem tanto.

E como as fotos problematizam a construção do mito? Ora, uma foto que gera muito problema entre os editores é uma imagem de Chico Buarque segurando o boneco MUG na mão.

Assim como Simonal, Chico fez propagando do tal boneco que, dizia-se, dava sorte. Era na verdade o mascote de uma grife de roupas da MPB em empreitada combativa contra as roupas da Jovem Guarda. A grife da MPB acabou não sendo lançada mas a da Jovem Guarda virou alvo dos criticos da ditadura identificados com o "boa música" e a resistencia. As roupas da Jovem Guarda, a jaqueta do Tremendão, a roupa da Ternurinha, etc., essas sempre lembradas por aqueles que acusam o movimento de Roberto Carlos e cia de "mercadológico". Chico também fez propaganda, assim como vários artistas da MPB, pois também estava envolvido na defesa da "musica brasileira" frente a "alienação importada" da Jovem Guarda. E se o mercado também foi o palco dessa disputa, a grande maioria dos artistas identificados com a MPB não via grande problema nessa "descida" ao terreno "vil" do comercialismo. A questão é que, depois de se tornar padrão estético afinado às elites nacionais, os artistas da MPB frequentemente se vêem como fazendo uma arte "de autor", "superior" pois comprometidas apenas com o viés artistico. Bem... no começo as coisas não eram bem assim... Talvez o primeiro grupo a problematizar a questão comercial de fato de forma critica tenha sido os tropicalistas, sem bravatas e palavras de ordem, aliás debochando destas...


Outra imagem "problemática" é uma propaganda do Banco da Lavoura de SP na qual Chico Buarque aparece ao lado do pai. No subtitulo esta escrito "o amigo da familia". Ela circulou na revista Realidade de dezembro de 1968, ou seja, no mesmo mês do AI-5. Essa era a imagem hegemônica do compositor ("bom moço") até, pelo menos, ele voltar do auto-exílio italiano, ou melhor, até ele compor "Apesar de você" e o disco "Construção" (1970/1). Somente aí ele tornou-se o "resistente ideal" tomando o estandarte das mãos de Vandré, que até então ocupava esse imaginário.
Fotos de Chico Buarque fazendo propaganda de máquinas de costura e sandálias também foram vetadas.

Queria mostrar, com a publicação das fotos e o texto, que pilantragem, Jovem Guarda e MPB não eram, na época, tão distintos como hoje frequentemente os vemos. Pelos contrário, lógicas comerciais e tentativas de se impor como padrão estético hegemônico eram bem parecidas. Aliás, por exemplo, o Tropicalismo foi acusado de ser uma "pilantragem", e vice-versa. Para os que não sabem a Pilantragem foi o projeto estético através do qual Simonal atingiu níveis de popularidade e reconhecimento impressionantes nos anos 1960/70. No entanto a memória da Pilantragem foi para o ralo junto com Simonal. Mas, hoje,o problema agora não é mais "resgatar" a Pilantragem... Essa virou "cult".

Mas não se pode tocar em outros mitos. Especialmente porque a imagem através da qual Simonal é resgatado para a MPB é a de que ele é "inocente", para alguns, um "ingênuo", para muitos. Quando muito, foi "usado". Ou seja, Simonal pode ser resgatado pois, assim como toda a sociedade, teria sido vítima do regime militar. Ora, se ele também foi vítima do regime, então também pode entrar no panteão de seus heróis. Ele também teria sido "exilado", não fora do Brasil mas dentro de seu proprio pais, como gostava de falar. Ora, mantém-se a lógica da MPB como bastião da luta contra o regime. De fato, não se pode problematizar nem sequer contextualizar o nascimento dessa postura, pois isso enfraqueceria sua lógica. Por isso Chico não pode ser questionado, parece-me. Por isso o medo em relação a um processo que, para além de perdas monetárias, geraria uma "perda" na imagem da editora. Ninguém quer se colocar "a favor" a ditadura. Nem eu. Mas também não dá mais pra naturalizar certos conceitos e noções da MPB como se ela sempre tivessem sido assim.

O argumento da editora para tal autocensura (desculpe mas não há outro nome) é que o compositor não permitiria sua publicação e se o fizéssemos mesmo assim isso poderia acarretar um processo. Mas estas imagens são fotos já publicadas em revistas e jornais, ou seja, já foram publicadas alguma vez. São, enfim, documentos historicos, fontes abertas a todos. Em tese só precisariamos da liberação do fotógrafo, o que não é dificil de conseguir, bastando vontade. Mas o medo do processo inviabiliza,na prática, qualquer publicação porque entende que o sujeito que aparece na foto tem que autoriza-la! Imagina se formos pedir autorização ao Lula por toda foto que ele aparece? Imagina fazer isso em época de foto digital e internet? Seria melhor, caso o Chico Buarque realmente se importasse de fato muito com sua memoria, que ele acusasse o uso do Photoshop para deturpá-lo, ou de um simples "Paintbrush" para desgastá-lo... o que não foi o caso, obviamente, mas em tempos de virtualidade e simulacros, tudo pode vir a convercer. Ou quase tudo.

De fato, cada dia mais as editoras estão com medo de publicar temas e/ou imagens polêmicas devido a possíveis processos. O problema é que se está evitando posturas corajosas em nome do resguardo do policamente correto! Agora o medo justifica qualquer forma de autocensura. Aliás, esse foi a atitude de muitos órgãos da imprensa durante o regime militar que, passada a ditadura, se vangloriam de ter colocado "receitas de bolo" no lugar de manchetes como se todos fossem entender isso. O curioso é que essa auto-censura nas editoras, pelo menos, me parece ser bem recente! Trata-se de algo posterior a publicação de livro de Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos em 2006. Antes o livros saiam até sem os créditos das fotos (o livro "A Era dos Festivais" de Zuza Homem de Mello saiu assim), o que também não pode, né! Mas de qualquer forma tal ousadia denotava a despreocupação com "patrulha da auto-censura". Voltando ao caso "Roberto Carlos em detalhes", é de se espantar como o autor foi "silenciado": na comemoração dos 50 anos de carreira do cantor seu livro só foi lembrado pelo debochado Agamenon, do Globo. O oba-oba dos 50 anos do rei apagou a censura real. Voltamos a sociedade de soberania? O Foucault se fucô? Esperemos que não.

U2 no You Tube - ironia ou convergência?

Transição. Sabemos que esta é uma palavra que não diz muita coisa. Dependendo do ponto de vista qualquer tempo pode ser de transição. O ponto de mudança, ou por outro lado, de continuidade, é sempre percebido a posteriori. E de acordo com a posição onde estamos.
Calma! Esta não é uma reflexão filosófica numa bela manhã de sol carioca.
É que acabo de saber (via twitter da @lathurler, citando o bluebus) que o show do U2, transmitido ao vivo na madrugada de segunda-feira no canal da banda no You Tube, de domingo para segunda, teve 10 milhões de acessos simultâneos, na hora do show. O que transforma esta transmissão na de maior público do canal de vídeos.

Mas, quem é este público? Ou melhor, quem é esta banda? Não, não é uma banda que surgiu na Internet. Nem é o último sucesso midiático da última semana. A ironia é que esta é a maior banda pop do século XX ainda em atividade. (Ok – pra alguns também a mais chata...mas não vamos falar disto.)Um dos dinossauros que, ao lado de Madonna e Michael Jackson, construiu sua reputação junto a um público fiel a partir das principais estratégias da indústria da música massiva no século XX. Falo, claro, dos videoclipes carissimos dirigidos por diretores badalados, da puta produção, nos discos e nos shows da banda desde os anos 80, da gravadora sustentando os lançamentos e distribuindo os discos mundialmente, das turnês grandiosas. Sem falar no discurso "vamos salvar o mundo" globalizado e politicamente correto de Bono Vox. Do tipo - "ganho muito dinheiro com os fãs mas também sou legal".
Então, não tem como não pensar na palavra transição para explicar o fenômeno.Ou mais sofisticadamente, na noção de convergência do mídias(Ave, Jenkins!) Pois, 10 milhões de pessoas é um público massivo, que a banda herdou daquele outro momento. E a pergunta que fica é se alguma banda de hoje, surgida do ambiente das redes, conseguirá algum dia o mesmo feito; ou se este modelo dos milhões de fiéis escudeiros é resquício daquele momento.

Cris Anderson, lá naquela discussão da Cauda Longa, aposta que teremos mais artistas sendo ouvidos por menos público, mas menos unanimidades. Pluralidade de vozes, fragmentação, efemeridade,volatilidade dos gostos – estas algumas das consequências do modelos de negócios da rede. Eu também aposto nisto. Mas, é que estanos ainda na , oops, transição.

O evento também permite outras reflexões. Como, por exemplo, a do povo assistiu fazendo ao mesmo tempo comentários no twitter, em rede, para os amigos.
Que tipo de recepção e de performance são estas? Com certeza, é diferente daquela de ir ao show e pagar ingresso. Pois, neste caso, ainda que em tempo real, o show não é o alvo central da atenção, dividida entre assistir e compartilhar as impressões com o círculo de seguidores. Comentários que, por sua vez, deslocam o show de seu contexto local – LA, Califórnia – permitindo a apropriação - de novo, em tempo real - por fãs de outras cenas, ainda que unidos pela paixão pelo U2 ou pelo menos pela curiosidade de ver se a tecnologia ia funcionar.
Já sabemos que funcionou bem pra cacete! A mega-fucking-parafernália sonora, as mensagens
melodramáticas de Bono, a guitarra poderosa do The Edge – tava tudo lá na transmissão via You Tube.
Momento histórico - disseram alguns no twitter.
Mas, o que acho mais bacana é o monte de provocações do episódio, que, claro, são prato cheio pra virar o próximo artigo acadêmico da galera do LabCult.
PS - Veja também o comentário do blog do André Pase, bem analisando os aspectos técnicos da trsnmissão.

Projeto AR!


Uma amiga do blog deu a notícia de um projeto bem legal que está acontecendo no Oi Futuro. É o Projeto AR!, que promove olimpíadas entre escolas públicas, integrando esportes de rua e tecnologia pra molecada aprender se divertindo.

Segue o release:

Com o objetivo de estimular a prática dos esportes de aventura e inovação, estimulando a integração entre alunos, professores e a comunidade escolar, o Oi Futuro desenvolveu o AR!. Ele promoverá competições entre escolas públicas estaduais, trabalhando esportes contemporâneos. As modalidades são skate, basquete 33, escalada, corrida rústica e vôlei de praia. Além disso, o AR! também promove etapas na internet, com quizz (perguntas e respostas de português e matemática) e games online. Todas as modalidades rendem pontos para a escola.O AR! proporciona o trabalho em equipe, pois envolverá o mundo real e o virtual (quem não está na quadra competindo, está na internet ganhando pontos para a escola nos games e quizz). Saiba mais sobre o AR! acessando o site: ar.org.br.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Marco Regulatório Civil para a Internet Brasileira

Já falamos muito aqui no blog sobre a Lei Azeredo e outras leis que buscavam criminalizar práticas na internet, como a troca de arquivos via rede P2P. Depois de muita mobilização da sociedade, a discussão penal está sendo substituída pela discussão de um marco regulatório civil para a internet brasileira.
O Ministério da Justiça lança amanhã a consulta pública sobre o tema, às 15h, na sede da FGV Rio. O documento inicial estará em consulta pública por 45 dias no site do Fórum de Cultura Digital Brasileira, e a discussão subsidiará o projeto de lei que será elaborado pelo Ministério da Justiça e que ficará também em consulta pública por mais 45 dias.
Inscrições no link: http://direitorio.fgv.br/marco-regulatorio


sábado, 24 de outubro de 2009

Videoclipe pornô?

Ontem, na reunião quinzenal do LabCult, todo mundo percebeu que eu estou fascinada pelo novo clipe da banda alemã Rammstein. Não pela linguagem, não pela música (apesar de ter gostado bastante), mas sim pela temática. Nunca tinha visto um videoclipe com cenas tão ousadas. O negócio foi tão grave que acabei fazendo uma matéria imensa pro Clipestesia, dando capa e tudo mais. Abaixo, reproduzo a matéria e, claro, exponho o link do vídeo para que você, se for maior de 18 anos, assista e tire suas próprias conclusões. Não posso incorporar o videoclipe aqui porque o Blogspot está rejeitando, provavelmente por não ser indicado para qualquer faixa-etária. Mas no site do Clipestesia eu consegui enrolar o html..rs.

Videoclipe pornô? Isso existe? Isso pode?


Todos já sabemos que videoclipe é uma forma de a banda fazer propaganda de si e de sua música. Se as imagens são cândidas, o artista quer ser visto como cândido; se o clipe é nojento, a banda quer ter sua imagem atrelada a algo chocante (e que lembre certa atitude rock), se o clipe é de difícil compreensão e cheio de metáforas, o artista quer ser visto como um produto cult, e assim por diante. Por mais que o videoclipe seja arte – e é – não adianta fugir desse tipo de relação, pois essa característica faz parte da natureza do gênero.

Pois bem. Toda essa lenga-lenga inicial foi construída para discutir um videoclipe que acabou de ser lançado e que é diferente de tudo que já se viu. Não me refiro à estética ou à linguagem, que são até bem tradicionais. Refiro-me à temática e à forma como ela foi ilustrada no videoclipe. Pussy, do grupo Rammstein, é tão chocante, mas tão chocante que dificilmente você vai assisti-lo com sua irmã mais nova ou no trabalho, junto com a secretária. Isso porque o videoclipe é extremamente pornográfico.

Mas como assim, videoclipe pornográfico?

Pois é, esta é a questão. O videoclipe, segundo o grupo, quer discutir o turismo sexual na Alemanha, país onde a prostituição é legalizada. Para tanto, os integrantes da banda aparecem como personagens estereotipados ligados à prática, como o cowboy, o sado-masoquista e o empresário cheio de dinheiro. O clipe começa apenas sugerindo o sexo, com mulheres de lingerie acariciando os integrantes da banda. Mas com o passar dos segundos, as imagens vão ficando cada vez mais sexuais: mulheres nuas, homens nus, a banda transando a olhos vistos, masturbação, sexo oral de ambas as partes e no fim, acreditem, um dos integrantes ejacula. Tudo seguindo o ritmo intenso da música.

Aliás, a música em si já é, digamos, pesada. “Pussy”, em inglês, é um termo forte e politicamente incorreto para se referir à vulva, a parte do órgão genital feminino onde se encontra o clitóris, que é o símbolo do prazer sexual da mulher e um dos grandes fetiches dos filmes pornôs. A letra é parte cantada em inglês e parte em alemão, e enfatiza a prática sexual com termos jocosos e pejorativos. Repare neste trecho:

You've got a pussy,
I have a dick,
So what's the problem?
Let's do it quick!
So take me now before it's too late
Life's too short, so I can't wait.
Take me now, oh don't you see,
I can't get laid in Germany

Provavelmente a letra e o videoclipe criticam uma nova prática na Alemanha: bordéis que cobram um preço único para que os clientes façam sexo à vontade. O fato tem provocado protestos naquele país inclusive por defensores dos direitos humanos. Em junho, uma grande cadeia de bordéis foi inaugurada por lá, a Pussy Club. Seu slogan é bem a cara do videoclipe: “sexo com todas as mulheres, quando e como você quiser”.

O videoclipe é dirigido pelo grande Jonas Åkerlund, diretor suíço aclamado por obras como Ray of Light, Music e Jump, de Madonna, Walk On, do U2, e Paparazzi, de Lady GaGa. Não é à toa que a pornografia foi retratada com belos takes, uma fotografia bem trabalhada e uma edição avassaladora. E a crítica à Alemanha que a banda quis fazer dificilmente deixa de ser compreendida mesmo por quem não entende a letra: bandeiras alemãs tremulando enquanto o sexo é feito enlouquecidamente.

ATENÇÃO: ASSISTA AO VIDEOCLIPE APENAS SE FOR MAIOR DE 18 ANOS. CONTÉM CENAS CHOCANTES

Mais do que qualquer outro videoclipe já feito, Pussy trabalha não apenas com uma temática diferenciada, mas com imagens para lá de ousadas. Perto desse videoclipe, o polêmico Girls on Film, feito pelo Duran Duran no início dos anos 80, vira um filme inocente de Sessão da Tarde. Este clipe mostra apenas duas mulheres com pouquíssima roupa, às vezes com os seios à mostra, brigando e fazendo apologia a fetiches masculinos, como uma piscina cheia de sabão e as mulheres se lambuzando nela. Na época ele foi censurado em todas as televisões que veiculavam videoclipes. O vídeo do Rammstein, ao contrário, foi feito já sabendo que não ia ser veiculado em lugar nenhum, com exceção da internet. Tanto que a banda construiu um site apenas para veiculá-lo.

Com tantas inovações, pode-se afirmar que um novo tempo está sendo construindo no mundo do videoclipe. A imagem da banda continua nas imagens do videoclipe. Quem já viu qualquer videoclipe do Rammstein sabe que eles adoram polêmica e as temáticas consideradas de mau gosto. Já fizeram, por exemplo, clipes sobre canibalismo e pedofilia, e essa característica ajuda a fazer com que alcancem sucesso no mundo todo. Nem é, aliás, a primeira vez que aparecem nus no videoclipe. Seus singles estão sempre nas importantes paradas da Alemanha e em outros países também. E isso mesmo cantando boa parte das músicas em alemão.

Mas apesar disso, pode-se perceber que a liberdade proporcionada pela internet tem incentivado novas práticas, novas linguagens e novas maneiras de ilustrar as músicas. Antes, fazer um videoclipe pornográfico era quase um atestado de fracasso. A MTV o veicularia? O Fantástico o veicularia? Atualmente, pode ser uma forma extremamente inteligente de chamar atenção para um assunto e, claro, para a banda em particular. Mesmo que a televisão e até o YouTube se neguem a veicular.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

mais gênero!


Nesta terça-feira, apresentei na semana dos PIBIC o projeto que pretendo desenvolver a partir do que eu estudei com a Simone até agora.

Segue abaixo o cartaz. A discussão é em torno do gênero sexual na música eletrônica. A idéia é analisar este aspecto identitário tanto de quem a produz quanto de quem a consome.



Me identifico com a postura de Kyle Gann, um crítico musical aposentado e professor universitário, que apesar de não citar o Bourdieu faz uma colocação bem interessante pra quem quer pensar o conceito de campo deste figurão.

Ele diz neste artigo que observou uma mudança nas prioridades estéticas e artísticas da música erudita depois dos anos 80, época em que houve uma entrada de mulheres neste campo como nunca tinha ocorrido antes. As regras da disputa simbólica aqui mudaram conforme a identidade dos jogadores se diversificou.

A presença das mulheres não alterou a natureza maleável das regras da disputa simbólica no campo da música erudita, e sim trouxe à tona questões novas, segundo o Gann.

Pensei em trabalhar esta questão depois da entrevista que eu fiz com Larry Tee, quando ele me disse que apesar de o electroclash ser um gênero da música eletrônica como qualquer outro, não é por acaso que, como o new wave, nele música e performance andam de mãos dadas - gays e mulheres são os produtores mais freqüentes deste estilo. É uma afirmação ardilosa, se a gente parar pra pensar. Mas será que ela não faz nenhum sentido?


Perfeito coração

O Panteão Nacional, em Lisboa, sede de uma das inúmeras mostras comemorativas sobre Amália Rodrigues


O que eu vou dizer agora até pode soar um bocadinho mórbido, mas parece que eu dei sorte em chegar a Portugal justo no semestre em que se celebram os dez anos da morte de Amália Rodrigues. Em nenhum outro contexto seria tão abundante a quantidade de matérias de jornal, especiais televisivos e exposições em tributo à célebre fadista. Como os veículos de mídia portugueses são razoavelmente diferentes entre si, não dá pra unificar todos numa mesma abordagem comum, mas em menor ou maior grau, todos eles de alguma forma deixam patente o desejo de desmitificar Amália, retirando-a do pedestal dos deuses intocáveis e aproximando-a da rica e contraditória figura humana que ela foi (e continua sendo, ora).



Isso implica na problematização de certos sensos comuns que, de tão repetidos ao longo das décadas, acabaram por se configurar como verdades incontestes: por exemplo, a ideia de que o repertório de Amália concentra-se exclusivamente no fado (Amália cantou chanson francesa, flamenco, música brasileira...) ou de que a artista era uma espécie de ícone cultural do Estado Novo e protegida de Salazar (mito este muito difundido após o 25 de abril e que atingiu não apenas Amália como também todo o universo do fado). O modo como Amália fez-se presente na vida cultural portuguesa para além de sua atuação como cantora – são inúmeros os longas-metragens protagonizados pela artista, e suas múltiplas aparições na TV lusa encontram-se devidamente documentadas no excelente documentário “Estranha forma de vida”, de Bruno de Almeida – os papéis sociais e identitários que articulou através de sua performance e mesmo dos trajes que vestia (e que, algumas vezes, ela mesma desenhava) parecem cada vez mais inscrever Amália Rodrigues no rol dos ícones pop portugueses, coisa que, não faz muito tempo, seria impensável, dado o caráter intocável que o fado e a figura de Amália possuíam.



Curioso que o processo de poparização de Amália Rodrigues se dê no mesmo momento em que um álbum de versões pop/rock do repertório amaliano, projeto concebido e executado por integrantes das bandas The Gift e Moonspell, esteja faz 23 semanas na lista dos 30 discos mais vendidos em Portugal, e há pelo menos um mês liderando o top de vendas, com concertos esgotados em todos os sítios. Parece não haver habitante desta península que ainda não tenha escutado pelo menos uma vez a onipresente versão dos Amália Hoje para “Gaivota”, ratificando, ao meu ver, uma tendência que já vinha se definindo bastante clara desde o êxito de álbuns como o “Canção ao lado” da Deolinda e do recente “Tasca beat” do Oquestrada: tem gente por estas bandas querendo revirar o fado de trás pra frente, o que é ÓTIMO; o fato de tais iniciativas estarem sendo bem recebidas pelo público em geral (embora o Amália Hoje tenha recebido algumas bordoadas da crítica) demonstra um desejo consciente ou inconsciente de se recuperar e transformar o passado musical português; por fim, e embora algumas pessoas só estejam dando conta disso agora, tenho pra mim que o fado e Amália não se tornaram pop de uma hora pra outra. Eles sempre foram.