quinta-feira, 19 de abril de 2007

Manjar de Rei





Hoje é aniversário do Rei. Se você não sabe de quem estou falando, pula este post. Não imagina o que o aniversário de Roberto Carlos tem a ver com este blog? Então, também passa batido! Mas, se quer entender um pouco mais o papel das tecnologias de gravação na definição da sonoridade do rock & roll no Brasil dos anos 60/70. Se quer saber como e porque, muito antes da geração Rock Br, houve um movimento chamado Jovem Guarda (ou iê,iê, iê) que revolucionou os padrões sócio-comportamentais através da música. Se quer acompanhar em detalhes a história da indústria fonográfica. Os meandros da construção do pop. Do star-system. Da relação entre fãs e ídolos.Da cultura de massa.... Se nunca percebeu que Roberto Carlos é o maior cantor popular da nossa história. E que, só por esta contribuição, o Espírito Santo merece um lugar na cartografia musical brasileira...
Se é roqueiro, soulman, pesquisador de música, romântico incurável.Se já falou mal, mas entendeu Fera Ferida quando levou um chute da namorada. Ou se odeia o cara! Você tem que ler a biografia escrita pelo Paulo César de Araújo, lançada no final do ano passado, chamada Roberto Carlos em Detalhes.
Eu ganhei de Natal, li nas férias e estava doida para comentar aqui no blog. Taí o gancho.
É que o livro é muito, muito bom. Esclarece tudo isto que mencionei acima, é bem escrito, e sobretudo, apaixonado. Dá pra sentir em cada linha que o autor ama o Rei, conhece as músicas, sabe do que fala. Respeita as maluquices de RC, é totalmente sóbrio ao falar de assuntos espinhosos, não é nada objetivo (quem foi que inventou esta palavra para qualificar bons trabalhos, hein?) Compra brigas – com a bossa-nova, com o tropicalismo – , defende idéias. De quebra ainda tem passagens ótimas sobre o Tim Maia, o Erasmo...

Sente só o gostinho...sobre a gravação de Quero que vá tudo pro inferno:

Pode-se dizer que, naquele ano de 1965, o rock´n´roll ganhou três grandes temas: Help! dos Beatles, Satisfaction, dos Rolling Stones e...Quero que vá tudo pro inferno, de Roberto Carlos – que só não alcançou a mesma visibilidade das outras duas porque foi composta e gravada em português. Não se enganem: qualquer banda de rock da época teria incendiado o mundo com a gravação de I want that everything góes to hell. Ela é tão rock´n´roll quanto Help! ou Satisfaction.” (pg 140)
“Quero que vá tudo pro inferno atingiu em cheio a sensibilidade de um país sufocado pela repressão moral, política e social. Enfim, uma sociedade reprimida que, de repente, foi tomada por uma canção com um grito de guerra arrebatador. A canção provocou e perturbou os setores conservadores ou seja, a maioria da sociedade brasileira. Na época, muitas emissoras de rádio se recusaram a tocar a música por determinação do proprietário, numa censura interna motivada por razões religiosas.(...)
Em pleno verão, sob um sol de 40 graus à sombra,, toda a juventude brasileira, suando e resfolegando, cantava freneticamente o refrão. “Quero que você, me aqueça neste inverno. E que tudo mais vá pro inferno”. Foi talvez a primeira vez que alguém ousou praguejar através de uma canção popular no Brasil. Nas ruas das principais capitais do país, muitos transeuntes paravam diante das lojas de disco para escutá-la.”(pg 138)
Por tudo isto, essa é uma das mais importantes canções produzidas no Brasil. Nesse sentido, ela bem poderia ser o outro lado de Chega de Saudade, de Tom e Vinicius, na versão bossa nova de João Gilberto. As duas canções ganharam projeção histórica e são marcos refernciais de movimentos musicais. E ambas são ainda mais emblemáticas porque, enquanto a gravação de João Gilberto resultou na canção de maior impacto estético da história da MPB, a de Roberto Carlos foi certamente a de maior impacto social.


Ah! E pra quem não ligou o nome à pessoa, o Paulo César já tinha lançado um outro livro excelente – “Eu não sou Cachorro Não” , que trata do popular-brega e polemiza com setores da MPB. Agora retorna com este, que faz jus ao biografado.

Vida longa para o Rei! E boa sorte para o biógrafo que – inexplicavelmente – ta sendo processado por Roberto.

3 comentários:

Unknown disse...

Ainda lerei esse livro, mesmo que ele realmente desapareça das lojas. Junto com o "Como dois e dois são cinco", imagino que formem um excelente decodificar de uma das figuras mais intrigantes e fantásticas de nossa música. Abraço a todos!

Simone Pereira de Sá disse...

Oi Pedro,

To duvidando que ele saia das lojas, mas vale garantir o exemplar (e olha que não to ganhano nada pela propaganda, não!!)

Abraço,
Simone

Heitor disse...

"Leia o livro, Roberto!", pede autor de biografia censurada

Link para a matéria que saiu hoje no site da globo.com sobre a luta do biógrafo em manter seu livro na prateleira:

http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL32758-7085,00.html

abraços!