
No universo da indústria fonográfica brasileira dos últimos anos a crise das grandes gravadoras e o fortalecimento das gravadoras independentes - buscando alternativas e forjando novos espaços - já tinham se transformado em lugar comum. E mais comum ainda, quando se falavam desses temas, o surgimento do nome de um personagem, com ares de paladino e herói – Lobão. Há praticamente uma década estávamos acostumados a ouvir e, muitas vezes, aplaudir - esse personagem vociferando contra as atrocidades ou desvarios estúpidos cometidos pelos grandes empresários das gravadoras, que envolviam pagamentos de jabás, exploração de músicos, escolhas equivocadas marcadas pela busca do lucro fácil e total desconsideração pelas propostas mais criativas e inovadoras. Lobão afirmava, por exemplo, em entrevista a revista Caros Amigos, há 7 anos atrás, que: “... esses empresários, gravadoras têm uma cartilha: o público quer merda.” Ou então ranger os dentes contra cantores e grupos que se prostituíam para ganhar dinheiro fácil gravando discos ao vivo, sobretudo os famosos acústicos da MTV.
Em entrevista ao Ilustrada da Folha de São Paulo, há poucos dias atrás, o papo era outro: “Quando fui assinar o contrato, nas dependências novas da SonyBMG, o [Alexandre] Schiavo [gerente-geral da gravadora], falou: ‘Tá vendo, Lobão, tentei botar uma decoração mais artística. Mas o encolhimento deve-se muito à você’ [risos]. Fiquei superbrother dele. O que demonizaram as gravadoras.... Hoje as coisas são feitas de maneira diferente. (...). Se você continuar lutando, vai parecer aqueles japoneses da ilha de Iwo Jima que continuaram resistindo [na Segunda Guerra].”
E ao ser perguntado sobre o demonizado jabá, saiu com essa: “Eu não pago jabá. Por que eu assinado [com uma gravadora], toco [nas rádios], e não assinado, não toco? Eu não tenho nada a ver com isso. Eu tô numa gravadora e pronto.” Portanto, o problema é deles, ele não tem nada a ver com isso.
Novos tempos exigem novas soluções? Essa frase envolve conceitos que se transformaram quase num consenso dentro da contemporaneidade que ora vivemos. Confesso que a tenho usado em minhas aulas e textos e, portanto, faz parte de meu horizonte de crenças. Mas toda e qualquer nova solução é, em si, adequada para os novos tempos? Quais os critérios que baseiam tais escolhas? Ética é papo de conservadores? Os valores são relativos, perfeito! Mas isso não nos exime de discutir e estabelecer quais são os critérios de valor hoje necessários, para o tempo e o espaço em que estamos situados.
Lobão, como em várias outras ocasiões, chutou o pau da barraca e muitos, como eu, ficamos a ver navios. A solução estaria, então, agora em voltar às boas com as grandes gravadoras, gravar o seu acústico MTV, acomodar-se no seu canto, “ver a banda passar” e desconsiderar tudo o que falou antes (e que gerou debates e ações extremamente importantes)? Parece repetir, como farsa, um certo presidente tucano, contra quem ele e tantos de nós criticamos e cobramos coerência ideológica.
Não é nada agradável ouvi-lo dizer que: “Não tenho o perfil desses guerrilheiros de bosta, hipongas, acho uma merda, sacou? Sou um cara de direita, sou fã do Delfim Neto [risos].” Talvez fosse interessante Lobão - e nós relermos - o recado que ele mandou “Para o mano Caetano”:
“A voz do morto que não presta depoimento
perpetua seu silêncio de esquecimento
na lápide pós-moderna do eterno desalento...
E eu sei que vou te amar, seja lá como for, portanto
um beijo no seu lado super bacana
uma borracha no dark side-macbeth-ACM, por enquanto.”
5 comentários:
Ótimo texto.
O que é pior pra mim é o fato de que eu gosto do Lobão musicalmente. Então eu sempre fico em cima do muro na hora de meter o dedo na cara do Lobão. rs.
Gustavo! Também gosto muito do Lobão, musicalmente falando, mas também gostava muito do personagem público que ele criou nos últimos 10 anos. Sua postura e posições gerou muitos e bons debates. Em função disso, resolvi fazer esse desabafo público.
Valeu, Marildo.
Tb adoro o Lobão.
Mas, como ele mesmo dizia que a MTV era a "bossa-novização" do roquenrou brasileiro...vale o "pau".
Ou - mais uma lição de como a vida "é real e de viés".
Pessoas,
Observação técnica: depois q algumas pessoas colocam os comentários o link destes se torna "invisível" (fica branco), sendo preciso meio que "advinhar" q o link está ali - qdo há zero comentário, aí o link fica em azul. Mas a pessoas desavisada e lerda não vai advinhar q há um link ali pros comentários, né? Seria bom ver isso.
Bjs
Vamos tentar descobrir as razões!
Obrigado pelo aviso.
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