Aproveitando o gancho deixado pela Simone no penúltimo post, vale lembrar um recente episódio, protagonizado por João Gordo, agora apresentador de um talk show na MTV e também líder da banda punk Ratos de Porão, tida como um dos grandes ícones underground punk nos anos 80, e Dado Dolabella, ex-ator de televisão. Durante a apresentação de um dos programas, Dado acusou Gordo de “trair o movimento punk”, o que quase acabou em briga. Isso nos mostra que mesmo fazendo shows sazonais e se dedicando muito mais à apresentação de seu programa, Gordo ainda é cobrado pela postura de “revolta e oposição” que no passado tinha, e que hoje não teria mais, pois, para usar um lugar comum, teria sido domesticado por um grande conglomerado midiático. Isso nos mostra como a questão da identidade, isso que é largamente chamado de "personalidade" e utilizado como xingamento em frases como "você não tem personalidade", é uma questão central nos dias de hoje. O caso de João Gordo mostra como a identidade é um projeto pessoal, ou seja, depende de escolhas feitas por cada indivíduo, mas ao mesmo tempo coletivo, pois essas escolhas tem que ser "aceitas" ou autenticadas pela sociedade que o cerca. No caso do João Gordo, vemos como certas posições , nesse caso a escolha de "ser punk", por serem projetadas, e aceitas, de forma tão intensa e visível, acabam por grudar no seu portador. Isso contraria as teses de que ser = ter, ou seja, de que a identidade é só uma questão de aparência, sendo assim qualquer um pode encarnar qualquer personagem caso compre os produtos no mercados que o caracterizem como tal. Dessa forma, o caso do João Gordo mostra que o uso de termos tais como "punk de boutique" são inapropriados para tratar da questão identitária, visto que ela é uma construção social onde o consumo de artefatos é somente MAIS UMA das estratégias envolvidas. Sarah Thornton em seu estudo sobre a cena de música eletrônonica inglesa, reunido no livro Club Cultures, nos mostra como a questão da autenticidade, ou seja, a necessidade de soar verdadeiro, é fundamental para o reconhecimento de um personagem por seu grupo. Ela ilustra o fato falando do quão embaraçoso é quando alguém é julgado como "fake" pelos seus pares por não manipular os códigos culturais da forma como se julga apropriado e isso envolve o uso de roupas inadequadas, o uso de gírias ultrapassadas e a falta de conhecimento da música que se escuta. O que pode parecer uma questão de frivolidade total, é na verdade um ponto central na questão identitária contemporânea, pois mostra como esse processo está envolto em uma míriade de regras de distinção, e pra isso vale fazer referência ao clássico de Bourdieu, que não são claras e estão a todo tempo nos sendo cobradas e tendo que ser reafirmadas, com o perigo de parecerem contradítorias, como foi no caso de João Gordo.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
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Um comentário:
Interessante.
Outro bom texto para se pensar essas questões - ainda q de outro ponto de vista - é aquele "Projeto e metamorfose", do Gilberto Velho, onde ele vai mostrar como as identidades - no caso, os projetos - vão sofrendo reconfigurações, metamorfoses, ao longo da vida e de acordo com determinados grupos onde o sujeito se insere.
bj
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