Sexta passada fomos - eu, Afonso, Vinicius e alguns alunos de mídia - assistir ao IV Fórum Brasileiro da TV Digital. Evento bacana, muito bem produzido pelo Instituto de Estudos de Televisão. Platéia bombando com profissionais de todas as mídias. Auditório de uns 300 lugares do Sesc Flamengo lotado. Gente sentada no chão. Tudo muito bom. Não fosse a decepção com os painéis, onde representantes das principais redes de tv brasileiras apresentavam seus projetos para a entrada da TV digital para os próximos dez anos (os planos são para que todo o sistema brasileiro de tv esteja digitalizado até 2016). Assisti a duas mesas. Na primeira falaram representantes dos ministérios (com falas corretas, institucionais). Na segunda, representantes da Globo, SBT e Record. Entre erros de português de doer (do tipo "menas"), power points de qualidade constrangedora e elogios ao software (aliás "middleware") brasileiro Ginga, que será o padrão para todas as redes, o que doeu mesmo foi perceber que não há nenhuma reflexão consistente sobre o assunto.
Pra que que o sistema todo vai mudar pra digital? Pra vc ler o resumo do capítulo da novela, poder comprar na hora o produto que tá sendo anunciado, ou ver o gol do Brasil de vários ângulos diferentes. Estes foram os exemplos dos caras pra interatividade. Insistindo sempre que "será uma nova forma de ver tv". Uau!!
As perguntas da platéia, muito mais inteligentes, insistiam: "mas, não vai haver diversificação da programação?"; "vai haver mais espaço para produções independentes?"; "a publicidade continua entremeando os blocos?". Perguntas que só deram oportunidade para que os três palestrantes detalhassem mais a ausência de projetos inovadores.
Saímos para almoçar e a pergunta que não calou foi: Mas, vem cá? Estes caras não se miram no exemplo da MTV - perdendo espaço pros You Tubes da vida? Será que por nenhum momento vai cair a ficha que tá acontecendo uma - sei que a expressão é pesada mas vamo lá - "mudança de paradigma?" na forma do público relacionar-se com o conteúdo das mídias.
Que a tv digital já chegou através da Internet, em programas como o Joost e afins?
Será que dá para apostar que daqui a dez anos o Brasil ainda vai estar parado assistindo a novela das oito às nove da noite, toda noite??
Que a geração videogame já cresceu, que as mudanças de hábitos são óbvias? E que a crise que os jornais impressos estão enfrentando no Brasil vai se estender à televisão - a não ser que relamente se invente uma nova forma de ver tv?
Como é sabido, detesto previsões apocalípticas sobre o "fim" de certas mídias e não gosto da idéia de revolução tecnológica (com aqule saborzinho evolutivo e determinista). Mas, ao mesmo tempo, se olhamos para a história das tecnologias de comunicação, já temos estrada para perceber que as reconfigurações fazem parte desta reflexão.
Um exemplo: o rádio não acabou com a chegada da televisão. Mas, a chamada "era do rádio" - ou seja, da hegemonia do rádio como ambiente comunicativo que lançava os talentos musicais, os programas mais assistidos e principalmente, que movimentava as maiores cifras econômicas, tendo a rádio Nacional como a referência - foi desmontada com o advento da tv no Brasil.
Das duas uma: ou os caras estavam escondendo o jogo, lá na palestra. Ou, quando chegar ao final da década de digitalização, já estaremos revendo, saudosos, a Glória Pires e a Negrini nas novelas da Globo, através do You Tube. Tal como nossos avós se lembram da Emilinha e da Marlene nos auditórios da rádio Nacional.
PS - É claro que isto não invalida a iniciativa do IETV.Pelo contrário. O debate é fundamental e o idealizador do projeto, Nelson Hoineff, pioneiro da discussão sobre TV digital no Brasil, merece todos os parabéns.
Pra que que o sistema todo vai mudar pra digital? Pra vc ler o resumo do capítulo da novela, poder comprar na hora o produto que tá sendo anunciado, ou ver o gol do Brasil de vários ângulos diferentes. Estes foram os exemplos dos caras pra interatividade. Insistindo sempre que "será uma nova forma de ver tv". Uau!!
As perguntas da platéia, muito mais inteligentes, insistiam: "mas, não vai haver diversificação da programação?"; "vai haver mais espaço para produções independentes?"; "a publicidade continua entremeando os blocos?". Perguntas que só deram oportunidade para que os três palestrantes detalhassem mais a ausência de projetos inovadores.
Saímos para almoçar e a pergunta que não calou foi: Mas, vem cá? Estes caras não se miram no exemplo da MTV - perdendo espaço pros You Tubes da vida? Será que por nenhum momento vai cair a ficha que tá acontecendo uma - sei que a expressão é pesada mas vamo lá - "mudança de paradigma?" na forma do público relacionar-se com o conteúdo das mídias.
Que a tv digital já chegou através da Internet, em programas como o Joost e afins?
Será que dá para apostar que daqui a dez anos o Brasil ainda vai estar parado assistindo a novela das oito às nove da noite, toda noite??
Que a geração videogame já cresceu, que as mudanças de hábitos são óbvias? E que a crise que os jornais impressos estão enfrentando no Brasil vai se estender à televisão - a não ser que relamente se invente uma nova forma de ver tv?
Como é sabido, detesto previsões apocalípticas sobre o "fim" de certas mídias e não gosto da idéia de revolução tecnológica (com aqule saborzinho evolutivo e determinista). Mas, ao mesmo tempo, se olhamos para a história das tecnologias de comunicação, já temos estrada para perceber que as reconfigurações fazem parte desta reflexão.
Um exemplo: o rádio não acabou com a chegada da televisão. Mas, a chamada "era do rádio" - ou seja, da hegemonia do rádio como ambiente comunicativo que lançava os talentos musicais, os programas mais assistidos e principalmente, que movimentava as maiores cifras econômicas, tendo a rádio Nacional como a referência - foi desmontada com o advento da tv no Brasil.
Das duas uma: ou os caras estavam escondendo o jogo, lá na palestra. Ou, quando chegar ao final da década de digitalização, já estaremos revendo, saudosos, a Glória Pires e a Negrini nas novelas da Globo, através do You Tube. Tal como nossos avós se lembram da Emilinha e da Marlene nos auditórios da rádio Nacional.
PS - É claro que isto não invalida a iniciativa do IETV.Pelo contrário. O debate é fundamental e o idealizador do projeto, Nelson Hoineff, pioneiro da discussão sobre TV digital no Brasil, merece todos os parabéns.
2 comentários:
Excelente crítica, Simone!
Acho que vai haver uma "revolução" sim. Eu comparo meus hábitos na época em que eu não tinha internet, na época em que eu tinha internet discada, e agora com banda larga. Quando eu não tinha net, eu assistia muita TV,jogava muito videogame e lia muito jornal. Com a net discada era quase a mesma coisa, exceto quando era o horário do pulso mais barato XD
E com a net banda larga, diminuiu muito o meu consumo de jornal e de TV. TV agora é praticamente só pra assistir os jogos do mengão. Fora isso, só videogame e filmes (em DVD claro, pra poder assistir ao filme sem cortes e no idioma original!)
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