"Já sabe quem é a melhor banda do mundo hoje? Como assim, não? Você não baixou a música naquele blog? Não viu o vídeo estourado no You Tube? OK, tudo bem. A
Megazine de hoje vai dar uma colher de chá"
É com este tom irônico que se inicia mais uma lenga-lenga sobre "a rapidez com que as pessoas estão consumindo música, correndo atrás do hype, sem se aprofundarem na escuta". Bullshit!!
E daí? Qual o problema?
A sensação que tenho quando leio - ou assisto, ou ouço, ou testemunho em debates - estas discussões é de preguiçaaaaa. Ou de que estes caras precisam de um pouco de Bourdieu na veia. Pois, assim, pelo menos vão reconhecer que estão advogando em causa própria. Disputa simbólica, legitimidade e autoridade cultural, quem pode dizer "o que é o hype". Esta função que sempre foi da crítica especializada dos cadernos culturais, fragmentou-se por blogs, plataformas de relacionamento social na Internet e outros espaços das comunidades de gosto. E é isto que está em jogo na discussão.
Longe de mim demonizar a indústria cultural, as mídias ou a crítica musical - atores centrais na construção de uma cultura da música popular massiva, que merecem toda a atenção e respeito. Entretanto, como este é um dos temas preferidos das discussões do LabCult, não dá pra deixar de meter a colher na conversa.
Pois, sem dúvida, saímos de um momento de escassez da informação, aquele do estranho mundo pré-internet, quando a informação especializada das mídias de nicho tais como as revistas New Music Express, Mojo e outras (citadas nesta matéria da Megazine) proclamavam o hype e eram absorvidas pela crítica musical no Brasil. No exíguo espaço dos cadernos culturais dos grandes jornais ou em publicações especializadas de circulação periódica (às vezes mensais) descobríamos as novidades e corríamos atrás (esperando os CDs chegarem no Brasil, é claro!).
A situação agora - como todo mundo sabe - é a de excesso informacional e de possibilidade de busca de informação musical independente, para além destes mediadores "tradicionais" referidos aí no parágrafo anterior. Isto causa turbulências e redefine, ampliando, a esfera das instâncias mediadoras e legitimadoras da informação musical. Como consequência, também produz "estrelas que não duram até o por do sol" - como diz lá a matéria.
Mas, e daí?
Como eu comentei num post anterior, adoro meus discos de vinil; e por consequência a idéia de desfrutar da música como uma "obra" pensada pelo músico, incluindo a capa do disco, a sequência das músicas e tudo mais. Isto remete a esta escuta "intensiva", a uma escuta que aposta nas noções de aprofundamento e duração, que os jornalistas da Megazine reclamam estar acabando.
Mas, roubando a idéia do Chartier sobre "práticas de leitura" para pensar este universo das práticas musicais, creio que esta outra forma "extensiva" - que eles chamam de escuta efêmera, também pode ser bem interessante. Não saber quem é, não estar ligado ao artista "pelo que ele já fez antes"; utilizar outros filtros para descobrir músicas das quais a gente gosta.E principalmente, não ter que incorporar uma angústia que me parece ser a dos críticos culturais - quem vai durar? Será que a banda X ou Y vai passar para o segundo disco? Vale à pena apostar nela? Será que vai tocar no rádio?
Música pra dançar, música pra estudar, música pra caminhar pela cidade, música para uma escuta distraída, música nova pra ouvir no ipod, como antes no walkman ou no sound-system; música curtida em velhos discos de vinil... Estas práticas nos remetem a uma pluralidade de experiências culturais ligadas à escuta sonora - um dos temas mais fascinantes das nossas pesquisas no LabCult - que coexistem em diálogo e ou em tensão, apropriando, reconfigurando e dando sentido a velhas e novas tecnologias.
Relax, baby! Just listen to the sound of the music...