terça-feira, 15 de abril de 2008

Sobre as dead-lines acadêmicas

Este é quase um off-topic. E pior, com um trocadilho infame. Estas dead-lines ainda vão nos matar!
Mal conseguimos - eu, Marcelo e Lucas - fechar um texto com a dead-line pra ontem; e já tem outro meu pra sexta.
Ufa!
Depois vou comentar este texto que escrevemos juntos - o primeiro da minha vida a seis mãos e uma produção "autenticamente" LabCult. Tratamos dos processos de rotulaçao da música eletrônica em oposição ao rock, analisando ainda o fenômeno em torno da new rave.
Mas, no momento, não dá pra pensar mais nele. Penso é na minha maior inveja: ver, da minha janela da cozinha, um cara que faz parapente toda segunda-feira, voando sob as asas do Cristo Redentor. Ao meio-dia, pode?

Meninos, ainda chego lá!!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Stones - Scorsese II

O Tiago comenta aí no post anterior o filme do Scorsese sobre os Stones. E eu concordo integralmente com as observações. O filme não tem nada de especial; e as letras garrafais Stones Scorsese parecem mesmo, conforme tb já comentou o Jefferson, excessivas e fora de contexto.

É um documentário para fãs.

Mas, como tal - já disse que esta conversa é proibida pra menores - eu confesso: amei. O filme não, a banda.

Citando um outro filme - O perfumista - a sensação é a de que ali a essência do pop foi destilada e concentrada em dose máxima.

É uma aula, com todos os elementos que construíram as regras do gênero rock, ampliados pela parafernália de Scorsese, que nos leva pro backstage.

A caricatura de Mick sobre si mesmo fazendo aquelas dancinhas ridículas, meio puta, meio macho, meio Bundchen atravessando a passarela ; a doideira de Keith eternamente gargalhando no hospício; a elegância zen budista de Charlie Watts; a alegria infantil de Ron Wood - tudo aquilo que já vimos mil vezes, tá lá. E pior, ganha um tom de revelação, tal é a obsessão das câmeras com os detalhes, perscrutando instrumentos, platéia, rugas e músculos.

E mais uma vez o papo do boteco pós-filme levanta a mesma dúvida. Se eles ainda estão se divertindo pra cacete, se são os maiores golpistas da história da música ou se não seria melhor a gente ultrapassar este dilema entre autenticidade e cooptação e se render.

Ao mesmo tempo, sobreviveram a si mesmos, a todos os excessos, e continuam ali, vomitando urgência, agressividade e energia. Raw power, diria Iggy Pop; Vontade de poder, diria Nietzche; oh God, que inveja! diria Andy Warhol.

Fica aí, então, a música que pra mim ainda é a mais completa síntese desta banda:
Sympathy for the devil, no trailer super bacana de Godard, 1968.


sexta-feira, 11 de abril de 2008

O autor morreu? Viva o autor! (Sobre Shine a light, de Martin Scorsese)

A questão primeiro surgiu num dos posts anteriores deste blog. Ontem, a questão virou discussão, e agora ela retorna como post. Na sexta-feira passada, entrou em cartaz o novo filme do diretor Martin Scorsese, anunciado como um documentário sobre os Rolling Stones, batizado de Shine a light – em referência à canção homônima originalmente gravada no discaço Exile on Main Street, de 1972. Destaco as palavras diretor, documentário e Stones pois elas invariavelmente se faziam presentes nas resenhas críticas, sinopses e mesmo no cartaz do filme em questão.

Quer dizer, não bastava ser um filme qualquer sobre os Stones: é um documentário sobre os Stones dirigido por Martin Scorsese. Ser um documentário pressuporia, de acordo com uma determinada corrente de interpretação, que o filme daria ao espectador a oportunidade de acessar de forma imediata a realidade mais íntima da veterana banda de rock. Ser um documentário de Martin Scorsese, por sua vez, implicaria a assinatura de um cineasta que sempre desfrutou de um status diferenciado dentro da lógica do cinema hollywoodiano. Em certos aspectos, Scorsese é quase um autor, nos moldes do que defendia a Politique des auteurs (espécie de fundamento teórico de toda a Nouvelle Vague francesa dos anos 60). Seus filmes possuem uma identidade, derivada, claro, da personalidade de seu criador, e reunidos, constituem uma espécie de obra, dotada de coesão e coerência internas. As críticas de seus filmes, e mesmo a nossa percepção cotidiana de qualquer nova criação de Martin Scorsese, são invariavelmente “contaminadas” (no melhor dos sentidos da palavra “contaminação”, até porque não consigo pensar numa percepção que esteja fora dessa relação) pelos discursos que já foram proferidos sobre Scorsese.

Isso ficava muito claro nas críticas que eram feitas a Os infiltrados, última produção do cineasta antes de Shine a light, que conferiu ao diretor ítalo-americano seu primeiro Oscar de direção, há muito anunciado e nunca conquistado. Todos eram unânimes em afirmar que Os infiltrados era um Scorsese inferior, a léguas de distância de filmes muito mais provocativos e arrojados como Táxi driver, Touro indomável e A última tentação de Cristo (este último, meu preferido). Mas por ser um Scorsese, ainda que menor, merecia ter levado o prêmio, nem que como forma de fazer justiça às derrotas anteriores, estas sim, imerecidas – embora, sob um olhar mais crítico (mais cínico?), Os infiltrados não seja lá muito diferente de alguns Supercines que volta e meia freqüentam as noites de sábado globais.

A percepção da obra retorna com toda a força nas críticas a Shine a light, que sejam elas favoráveis ou negativas, acabam sempre por se amparar na comparação com momentos anteriores da trajetória de Scorsese em que ele flertou com a música pop, sobretudo com o universo do rock. Aí, Shine a light nunca vai ser “o documentário definitivo sobre os Stones”, da mesma forma que, digamos, No direction home é sobre Bob Dylan. Ou então, será tão “belamente filmado” como The last waltz, o registro filmado por Scorsese, em finais dos anos 70, do último show da The Band.

(By the way, reparem no vovô simpático que empunha a hand camera nas primeiras seqüências de Shine a light – é Albert Maysles, diretor do antológico Gimme shelter, de 1969, sobre show dos Stones em Altamont, durante o qual um fã foi assassinado por membros do Hell’s Angels diante das câmeras. Sendo Gimme shelter, hoje, alçado ao posto de obra-prima do direct cinema e saudado como – este sim! – um “documentário definitivo” não apenas sobre os Stones, mas também sobre o “fim da utopia contracultural” e outros quejandos, não me admira que Scorsese tenha demonstrado tanta gentileza para com o velho documentarista, o que nos permite concluir que nenhum convite desta natureza é totalmente desinteressado).

Há tempos que a invenção formal não freqüenta o cinema de Scorsese, na minha modesta opinião. E embora Shine a light possua alguns bons momentos de meta-cinema, sobretudo no início e na brincadeirinha final, tenho plena consciência de que minha apreciação se dá contra o pano de fundo tanto dos discursos que já foram elaborados sobre Scorsese, quanto do meu carinho declarado pela, vá lá, obra do cineasta. Tudo isso pra dizer que Shine a light, pelo menos pra mim, foi capaz de proporcionar duas horas de belas imagens e boa música. Mas é aquele negócio, é um documentário de Scorsese sobre os Stones. Fosse um registro de show do NXZero dirigido pelo Zé das Couves [obrigado, Pedro], seria lançado direto em DVD (e eu muito provavelmente passaria longe).

quinta-feira, 10 de abril de 2008

‘He’s just a stereotype...’

Peço licença aos rude-boys do Specials (bandinha de ska-rock britânica, muito bacana, por sinal, que junto com o Madness formava a dupla de ouro da gravadora TwoTone no início dos anos 80) para formular uma ou duas considerações sobre a questão do estereótipo. O discurso do senso comum muitas vezes tende a culpar os consumidores do estereótipo como maiores responsáveis pela sua perpetuação. Dito de outra forma, se tantos “gringos” não viessem ao Rio de Janeiro sedentos por uma noite na Boate Plataforma, a imagem da cidade como sinônimo de carnaval-mulata-e-malandragem poderia ser gradativamente questionada, por exemplo.

Tenho sérios problemas com este argumento. Em parte, porque o discurso do estereótipo não é totalmente descolado de evidências empíricas. Estereótipo não é invenção, é redução. É você promover determinadas características particulares que constituem uma certa identidade (étnica, nacional, de gênero, etc) ao status de verdade essencial sobre a mesma, como se, metonimicamente, as partes dessem conta do todo. Em vez de compreendermos o carioca ou o brasileiro em toda a sua complexidade, fraturando a idéia de uma identidade única e coerente em si mesma – coisa que dá um baita trabalho – é mais confortável tentar apreendê-la a partir de um cast de signos de fácil reconhecimento. Ou, conforme disse certa feita uma amiga minha, de forma algo jocosa, “o estereótipo poupa tempo”.

Engana-se quem pensa que espetáculos tipo “Vai Brasil 500”, outrora em cartaz no supracitado Plataforma, são exclusivos do Brasas. Tive a oportunidade de passar 20 dias na Itália em fevereiro último e percebi claramente como o discurso do estereótipo se faz presente como esfera de mediação também em outros contextos. E não é só o turista, o viajante, que estereotipa o “nativo”. Este também estereotipa o primeiro, ao supostamente deduzir certas expectativas que o turista, naturalmente, teria em relação ao seu país, e quase como desdobramento da premissa anterior, da mesma forma se auto-estereotipa nesse processo.

Estávamos em Veneza e descobrimos uma montagem de Otelo de Shakespeare no Teatro Goldoni, que fica a poucos minutos do Grande Canal. Sabíamos que a peça seria falada em italiano, e embora nossa compreensão não fosse lá essas coisas, o fato de conhecermos o texto da peça decerto facilitaria nossa vida. Ao efetuarmos o pedido na bilheteria, o funcionário de imediato reconheceu que éramos estrangeiros e prontamente se pôs a esclarecer (em inglês, of course): “No musical. No musical. It’s an italian talk play” [sic].


Muito provavelmente, ele julgou que havíamos nos perdido pelas intrincadas ruelas de Veneza, e confundido o teatro que exibia Otelo com o que servia de palco para Carnival The Show, um espetáculo que reproduz (durante todo o ano, afirmavam enfaticamente os cartazes) a “experiência mágica” do Carnaval de Veneza. O pacote incluía não apenas uma encenação ficcional da festa, com suas tradicionais máscaras e fantasias que bem pareciam saídas do Casanova de Fellini (ou da cena da orgia em De olhos bem fechados, a referência fica a seu critério), como também um jantar de comidas típicas servidas por venezianos vestidos a caráter.

Mais do que apontar culpados, talvez me pareça mais pertinente pensar que o funcionamento do discurso do estereótipo pressupõe um acordo mútuo entre as partes envolvidas. Os usos e apropriações deste discurso, tanto na parte de “lá” quanto na parte de “cá” (e quando “lá” e “cá” se embaralham – por exemplo, se considerarmos a experiência migrante-diaspórica ou a do viajante – é que a coisa fica particularmente bacana), estes é que podem assumir variadas e inesperadas formas.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Tekhnè: Qual é a música?

Confiram o post do blog tekhné sobre um buscador de música por reconhecimento de voz. Muito interessante!

Tekhnè: Qual é a música?

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Funk no Oi - Mais informações

Recebi as informações sobre o evento do Oi Futuro sobre funk, amanhã.
Segue abaixo o release:


"O evento conta com a participação do antropólogo
Hermano Vianna, Grandmaster Raphael, Sandrinho,
Mavi, Amazing Clay, Cabide, Edgar, Leandro HBL entre
outros convidados

A batida do funk carioca já não é mais a mesma.
Do nascimento nas favelas do Rio de Janeiro até
hoje, o ritmo ganhou o asfalto, adicionou
influências do cenário eletrônico internacional
e, literalmente, ganhou o mundo. Hoje, já é
chamado de pós-funk pelos mais entendidos que,
claro, querem compreender ainda mais este gênero
que conquistou o seu espaço. Pois o pós-funk é a
estrela do workshop promovido pelo Red Bull Music
Academy e o festival
Multiplicidade_Imagem_Som_Inusitados no Oi Futuro
no próximo dia 08, terça, a partir das 19h.
A programação do workshop contará com uma
mesa-redonda capitaneada pelo antropólogo Hermano
Vianna com a participação de convidados como
Grandmaster Raphael, Mavi, entre outos. Depois do
bate-papo, os DJ´s Sandrinho, Cabide, Edgar e
Amazing Clay irão comandar uma "orquestra" de
MPCs ao vivo, criando melodias na hora a partir
de um instrumento de sample, acompanhadas de
projeções de imagens do artista visual Leandro
HBL, da Conspiração Filmes. Também será exibido
pela primeira vez o trailler do documentário
"Favela on Blast", dirigido por Leandro e pelo DJ
norte-americano Diplo.
O workshop é parte integrante do projeto Red Bull
Music Academy, que realiza ações em diferentes
países para falar de tendências e de produção
musical. Aqui no Brasil, além do workshop sobre
funk no Rio de Janeiro, haverá mais cinco
encontros em diferentes cidades do país no
período de 08 a 29 de abril. Os workshops também
promovem as inscrições para o encontro
internacional do Red Bull Music Academy que, em
2008, será realizado na cidade de Barcelona no
segundo semestre.

WORKSHOP - RED BULL MUSIC ACADEMY E MULTIPLICIDADE
Dia 08.04, terça: Rio de Janeiro/RJ
Tema: "Pós-funk: um novo patamar para o funk
carioca"
Local: Oi Futuro - Rua Dois de Dezembro, 63,
Flamengo.
Horário: das 19h às 22h30
Entrada sujeita a lotação do local (120 lugares)
Entrada impreterivelmente até as 20:00."


Mais informações

<http://www.redbull.com.br/rbma>

Sobre pop e borboletas

O post da Simone a partir da reportagem publicada pelo Megazine d'o Globo na semana passada (aquela sobre o 'novo hype') me fez recordar de uma crítica-crônica de autoria do jornalista, ensaísta e polemista português Miguel Esteves Cardoso. Durante sua passagem pelas revistas especializadas O Se7e e Música e Som, entre finais dos anos 70 e início dos 80, Cardoso testemunhou o boom do rock português, mantendo quase sempre uma postura ácida e crítica em relação ao que ele considerava uma "invenção de atilados empresários e jornalistas ingênuos, criando separações artificiais e provocando expectativas injustas". Concordando-se ou não com os argumentos do autor (e na maioria das vezes eu discordo), há que se reconhecer a precisão de seu estilo e a qualidade de seu texto. Alguns de seus mais vigorosos petardos contra a sociedade portuguesa podem ser encontrados no livro A causa das coisas, edição portuguesa da Assírio & Alvim (1987) que eu pesquei num sebo carioca certa feita.

Já o trecho a seguir vem da coletânea sobre música Escrítica pop - um quarto da quarta década do rock (1980-1982), publicado pela mesma Assírio & Alvim e disponível apenas para consulta no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.

"Como as borboletas, a música pop tem uma vida de três dias. Assim, os lepidopterologistas Pop só têm de escolher entre duas práticas. Uns, para preservar e analisar a borboleta, montam-na num expositor. Outros, deslumbrados com a cores e com o vôo, limitam-se a segui-la com o olhar. Aqueles, porém, têm de matá-la primeiro. Ou ostros apenas têm de deixá-la morrer depois. Mas não valerá mais vivo durante três dias do que morto toda a vida?"

E aí? Que tipo de Lepidopterologista Pop nós queremos ser?


domingo, 6 de abril de 2008

David Lachapelle no Oi Futuro




Quem for ao Oi Futuro esta semana pode aproveitar para ver a mostra de trabalhos do David Lachapelle, que inaugurou hoje.

Fotógrafo, ele imprime a sua marca nas fotos, videoclipes, capas de disco, publicidade e tudo mais. Já trabalhou com Madonna, Elton John, Aguillera, mais um monte de gente do pop.

Seu universo surreal, barroco, cafona, pornô-chique, gay, colorido, excessivo - que às vezes vai aproximá-lo da estética de Jeff Koons e Andy Warhol e pode ser conferido na montagem acima - é adorado por alguns e , claro, o-di-a-do por um monte de gente.

Mas, como estamos sempre no Oi Futuro, porque não estender a visita?